domingo, 4 de março de 2018

Monumento à Mulher "Recordações" Charneca da Caparica / Sobreda


A 21 de Março de 2009, no parque Multiusos na Sobreda, localizado na Quinta do Bom Retiro em Vale Figueira, foi inaugurado o Monumento à Mulher.

Monumento à Mulher

O Monumento é composto por dois elementos primordiais ligados entre si: dois pequenos muros cobertos de azulejos azuis e duas estruturas em aço inox. Nos azulejos dos muros encontram-se inscritos trezentos e seis nomes de mulheres que que foram uma referência pelos seus feitos e marcaram a nossa história em diversas áreas como na ciência, artes, política, cultura, mas também o nome de mulheres anónimas, simbolizando as histórias de vida desconhecidas, na luta pelos direitos humanos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Afinal, os Neandertais foram os primeiros artistas na Terra

Historia

Um estudo publicado na revista Science revela que foram os neandertais que pintaram as primeiras figuras rupestres. E fizeram-no intencionalmente, o que significa que já pensavam de forma simbólica.

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As primeiras pinturas rupestres atribuídas, até há pouco tempo, ao Homo sapiens, foram afinal feitas pelo homem de Neandertal, há mais de 65 mil anos, o que faz deles os primeiros artistas na Terra.

Um estudo conduzido por uma equipa de 14 investigadores, de cinco países, incluindo o português João Zilhão, publicado na revista Science, conduziu a esta recente informação. A descoberta revela-se de grande importância: as pinturas analisadas foram feitas intencionalmente, o que mostra que os neandertais tinham já a capacidade de pensar simbolicamente — ao contrário daquilo que se tem dito.
O surgimento da cultura material simbólica representa um limiar fundamental na evolução da humanidade”, disse Dirk Hoffmann, investigador no Instituto Max Planck para a Evolução Antropológica e co-autor do estudo, acrescentando que “É um dos principais pilares do que nos torna humanos”.
Os resultados foram obtidos através de novas tecnologias, que lhes permitiram saber com maior precisão a idade das pinturas existentes em três grutas espanholas: La Pasiega, Ardales e Maltravieso. A equipa descobriu que em grutas separadas por milhares de quilómetros, esta espécie pintou e desenhou figuras, produzindo verdadeiras obras de arte dezenas de milhares de anos antes de o ser humano ter chegado a estes locais — o que se torna evidência clara de que são da autoria dos neandertais.

A técnica utilizada: urânio-tório

As técnicas utilizadas até agora não possibilitavam datar com rigor o momento em que as pinturas foram desenhadas. Num comunicado sobre o trabalho, explica-se que nos anos 1990 a datação de radiocarbono com espectrometria já permitiu atribuir uma idade à matéria orgânica, mas com limitações, uma vez que “este método só pode ser aplicado a pinturas negras feitas com carvão”.
Esta equipa utilizou agora o método urânio-tório: na prática, os cientistas recolheram amostras de pequenas crostas de carbonato de cálcio que se acumulam por cima e por baixo das pinturas e mediram a desintegração radioativa do urânio-234 em tório-230, técnica que fornece, assim, uma idade máxima e uma mínima para as pinturas. No vídeo abaixo os cientistas explicam como dataram as pinturas e qual a sua importância.

Mas o que pintaram, afinal, os Neandertais?

A arte rupestre diz respeito às representações artísticas pré-históricas realizadas em grutas, cavernas e até mesmo em superfícies rochosas ao ar livre, e pode manifestar-se na forma de pinturas — o caso das grutas espanholas — ou de gravuras (figuras cravadas nas rochas).
Ali, os neandertais pintaram animais (a vermelho e preto), figuras geométricas (a vermelho), aplicaram pigmentos sobre estruturas de estalagmites e estalactites típicas do interior das grutas e, mais importante, desenharam mãos através da técnica de stencil — ou seja, colocaram a mão e passaram tinta por cima, de maneira a ficar registado o contorno da mão — o que indica que o processo foi realmente feito de forma intencional.
Na gruta La Pasiega, perto de Bilbao, uma pintura em forma de escada, a vermelho, data de mais de 64.800 anos. Na imagem podem ver-se figuras de animais “muito provavelmente bastante mais recentes”.
Em Maltravieso, no oeste de Espanha, pode encontrar-se uma mão em stencil, e na caverna de Ardales, perto de Málaga, há manchas de pigmentos encarnados em cortinas estalagmíticas. No caso de Ardales,João Zilhão, investigador do Departamento de História e Arqueologia da Universidade de Barcelona e do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, explica que “o objetivo era realçar uma formação geológica natural à qual se atribuiria um valor ritual/simbólico/mitológico”.
Um segundo estudo, publicado também por Hoffmann e pela sua equipa, determinou a idade de um depósito arqueológico localizado em Cueva de los Aviones, uma gruta no mar, em 115 mil anos, como escreve o jornal The Guardian. 
Para mim, a descoberta encerra o debate sobre os neandertais”, disse João Zilhão, investigador na Universidade de Barcelona. Citado pelo The Gaurdian, acrescenta: “Eles são parte da nossa família, eles são antepassados, não eram cognitivamente distintos ou menos dotados em termos de sabedoria. Eles são apenas uma variante da espécie humana que já não existe”.
Com cerca de 65 mil anos, as pinturas são as mais antigas conhecidas em grutas em todo o mundo. “Estes resultados sugerem que as pinturas rupestres já não distinguem os neandertais dos humanos modernos”, disse Adam Van Arsdale, professor de antropologia na Wellesley College, à AFP.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O que é a Matrix?


O que é a Matrix? Essa é a pergunta feita por Neo, mas de tão intrigante que é, o telespectador atento a internaliza como sua e, assim, passa a questionar-se. Morpheus, o grande filósofo da obra cinematográfica, diz em dado momento a Neo que somente ele pode descobrir, de fato, o que é a Matrix. Do mesmo modo, que somente cada um de nós pode descobrir essa verdade.



“Infelizmente, é impossível dizer o que é a Matrix. Você tem de ver por si mesmo.”



Dessa maneira, a descoberta da realidade é um ato individual, ainda que possa ser influenciado por outrem, e que depende de vontade e coragem. É muito mais fácil permanecer seguindo a rotina, fazendo parte de uma engrenagem, como gostam de falar os positivistas, do que questionar a realidade, a fim de atingir a real consciência sobre o mundo.
A escolha entre a pílula azul e a vermelha é o que determina se você quer saber o que é a Matrix. Se você decidiu pela pílula azul, por favor, não continue. Caso, ainda esteja lendo, escolheu a vermelha. Sábia escolha. Seguem as palavras de Morpheus sobre o que é a Matrix:
“Neo: O que é a Matrix?
Morpheus: Você quer saber o que é a Matrix? Matrix está em toda parte. É o mundo que acredita ser real para que não perceba a verdade.
Neo: Que verdade?
Morpheus: Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu em um cativeiro. Nasceu em uma prisão que não pode ver, cheirar ou tocar. Uma prisão para a sua mente.”
A Matrix, portanto, é a construção artificial de uma realidade que se reveste de aparências determinadas pela nossa mente. É uma hiper-realidade, uma espetacularização dada pelos dominantes e que aceitamos como verdadeira. Como prisão “tradicional”, haveria repulsa e todos combateriam tal prisão. No entanto, quando se criam gaiolas enfeitadas e cheias de distrações, passamos a não perceber (ou não querer perceber) que, embora existam “atrativos”, ainda estamos em uma prisão. E como toda prisão, há controle, coerção e cerceamento de liberdade.
Todos os elementos que formam a Matrix não passam de manipulações sígnicas feita por aqueles que detêm o monopólio das relações de força, para usar um termo de Foucault, e que nós aceitamos como verdadeiras. Assim, internalizamos as coisas a partir de seu valor simbólico, o que leva, por consequência, a um mundo de simulacros.
Embora, o simulacro seja uma versão simulada da realidade, a sua construção se dá de uma forma tão cuidadosa que a ilusão passa a substituir o real no imaginário das pessoas. Estas ficam condicionadas de tal maneira que se recusam a aceitar que aquele mundo é apenas uma ilusão. Morpheus chega a alertar Neo para isso, afirmando-lhe que alguns indivíduos estão tão habituados àquela realidade que defenderão o sistema.
“Você precisa entender, a maioria das pessoas não está preparada para despertar. E muitas delas estão tão inertes, tão desesperadamente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo.”
Esse fato demonstra que a força do dominante consiste no nosso consentimento, uma vez que aceitamos uma realidade que nos é passada sem o menor poder de questionamento. Pelo contrário, procuramos aumentar a nossa dependência e alienação ao sistema, o que em uma sociedade de consumo, obviamente, demonstra-se pelo consumismo.
Há de se considerar que o problema não é o consumo, mas sim, o valor simbólico que é dado às mercadorias, criando a hiper-realidade da Matrix. Essas ideias são do filósofo francês Jean Baudrillard, mas também podem ser percebidas em Marx, na relação de fetichismo da mercadoria, em que as pessoas passam a atribuir às mercadorias um valor quase divino, consumindo-as pela sua transcendência, isto é, pela capacidade que certas mercadorias têm de elevar o indivíduo perante os outros.
O que não percebemos (ou não queremos perceber), mais uma vez, é que a Matrix, a nossa sociedade consumista, cria um exército de servos voluntários, que aceita os grilhões impostos pelos dominantes através da publicidade, como se fossem soluções mágicas de felicidade. Tomando suas pílulas azuis todos os dias, os indivíduos distanciam-se de si mesmos e, por conseguinte, do autoconhecimento, tão necessário à liberdade, já que a conquista desta é individual e se o indivíduo não busca autoconhecer-se a fim de pensar de forma crítica o mundo que o circunda, torna-se impossível enxergar a Matrix e ser um sujeito livre.
A decisão entre sair ou permanecer na caverna é difícil desde Platão. Entretanto, a coragem é o que separa as almas livres dos meros autômatos que nos tornamos. A coragem é que faz um homem decidir tomar a pílula vermelha e livrar-se das amarras que tornam o mundo mais “bonito”. A coragem é que faz o homem manter-se erguido percebendo a decadência da humanidade fora da hiper-realidade. A coragem é o que permite que alguns homens lutem pela liberdade daqueles que se acham livres por poderem escolher entre o Bob’s e o McDonald’s. A coragem é o que falta para aqueles que insistem em continuar em dobrar a colher e não percebem que são eles que se dobram, pois como disse Goethe:
“Não existe pior escravo do que aquele que falsamente acredita estar livre.”

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Sobre escolhas que não queremos e caminhos que não sonhamos

Ser adulto é muito complicado. Temos que trabalhar, estudar. Temos responsabilidades. Temos que ser “alguém”. E quando estamos nessa fase, é quase geral aquela crise de identidade; passamos a nos relacionar com o tempo de maneira totalmente diferente, uma vez que sabemos que estamos pouco a pouco deixando de existir e que inexoravelmente morreremos.
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O desespero muitas vezes começa a fazer parte do cotidiano. Questionamos a vida e nos perguntamos se chegamos aonde sonhávamos, se somos felizes com nossas escolhas. Questionamos a nós mesmos, se o que fazemos reflete o que somos ou se nos deixamos levar pela maré, pelo efeito manada. Ainda que seja difícil prever as conseqüências das nossas escolhas, é necessário que tenhamos coragem para tomá-las e não seguir à risca o que a sociedade determina que devemos fazer.
Qualquer escolha que fizermos nos trará dificuldades. Sempre haverá o imprevisível, o incontrolável, estes são amálgamas indissolúveis da vida. Então, não adianta querer ser advogado ou médico pela vontade dos pais, ou simplesmente porque há segurança sendo um “doutor”. Como também, viver sem medo de arriscar não renderá necessariamente uma vida feliz.
Em cada oportunidade que temos é preciso deixar a nossa marca, ser o que somos, pois a vida é breve e não comporta reprises. As opções mais “seguras” lhe levarão a caminhos que nada tem a ver com você. Caminhos, em que não consegue enxergar os seus passos. Caminhos vazios e tristes; depressões distantes das montanhas. E aí, eu pergunto: as opções “seguras” deixaram de trazer dificuldades?
Qualquer escolha que se faz traz dificuldades, como já disse, mas quando essa escolha é feita por nós, quando nos enxergamos naquilo que fazemos, nos sentimos vivos e mais fortes para superar as dificuldades que são inerentes a qualquer escolha que fazemos.
Entretanto, tenho percebido que temos nos acovardado diante dos outros e cada vez mais estamos seguindo o rebanho. Concomitante a isso, sonhos são deixados para trás e indivíduos apenas sobrevivem, sem ânimo no que fazem.
Ser feliz é mais do que passar os dias fazendo planilhas no Excel, mesmo que isso “renda” bem. Viver uma vida clichê, com adoçante e café descafeinado não é a receita do sucesso, simplesmente porque esta não existe. Cada pessoa carrega uma história dentro de si, sonhos, vontades e sim, tem o direito de realizá-los.
Se adequar a uma sociedade doente não é o melhor caminho, pois além de ser apenas mais um entre tantos iguais, preocupados com formação técnica e uma vidinha burocrática que lhe “renda” um belo salário, serão indivíduos vazios, sem memórias que permitam lhes definir, cheios de hiatos existenciais, como um forasteiro que não sabe de onde veio ou quem é.
Quando fazemos escolhas por pressão social ou por medo de nos arriscar, nunca conseguiremos nos permitir abrilhantar o mundo com o nosso melhor; seremos estrelas sem brilho que não iluminam o céu. Isto é, estaremos lá, mas não seremos percebidos. Seremos marionetes de um espetáculo que se move por caminhos ocultos ao nosso coração.
Presos numa relação nebulosa com o tempo não conseguimos nos encontrar. E, talvez, nem precise, pois seremos apenas pele morta de sentimentos que um dia pulsaram por águas diferentes. Tão diferentes que lhe disseram para remar em sentido contrário. E você foi. Não é um vitorioso nem um derrotado. É viajante de um lugar desconhecido que outrora disseram para ir. Sente-se triste e tem vontade de voltar, mas não lembra-se dos antigos caminhos que queria seguir. Então, continua. Sem ânimo, alma ou vontade. Não é um vitorioso nem um derrotado. Uma vez que:
“Aquilo que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado nem mérito nem fracasso.”
Erick Moraes

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Casa arrumada é assim

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre para circulação e uma boa entrada de luz.

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Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites
brincam de trocar de lugar.Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo o mundo para mesa da cozinha.Sofá sem mancha?Tapete sem fio puxado?Mesa sem marca de copo?Tá na cara que é casa sem festa.E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda fio para atar passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vindo.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar.

domingo, 28 de janeiro de 2018

“Os girassóis de Van Gogh”

Poema de Manoel de Barros

       

“Hoje eu vi
Soldados cantando por estradas de sangue
Frescura de manhãs em olhos de crianças
Mulheres mastigando as esperanças mortas
Hoje eu vi homens ao crepúsculo
Recebendo o amor no peito.
Hoje eu vi homens recebendo a guerra
Recebendo o pranto como balas no peito.
E como a dor me abaixasse a cabeça,
Eu vi os girassóis ardentes de Van Gogh.”

      

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Moinhos de Gavinhos - Figueira de Lorvão - Penacova

É uma região frequentemente visitada por turistas nacionais e estrangeiros que, subjugados à sua beleza encantadora, aqui vêm fotografar e filmar a serra, onde 14 moinhos de vento despertam atenção e interesse pela sua originalidade Imagem relacionada Desta zona privilegiada se observam soberbos panoramas que os olhos não se cansam de admirar, tal a imponência do quadro que a Natureza pintou, ora pendurado na tela aulina do céu, ora espraiando-se por vales, montes e planícies, até à Figueira da Foz.
Olhando para as bandas da Ribeira e do Casal, enxerga-se, ao fundo, a mancha alvinitente de Penacova, com seu casario encastoado na vertente, mirando o rio que se espreguiça a seus pés.
Do outro lado, sempre com a brancura das velas enfunadas, cantando mágoas na mansão eólica do tempo, desenha-se a catadupa verdejante do arvoredo, com predomínio dos pinheiros e eucaliptos, pontilhada aqui e além, por pequeninas aldeias, onde vivem, trabalham e rezam almas simples e boas, que formam este formoso rincão da Beira.

sábado, 13 de janeiro de 2018

A Cegueira de Saramago

E se nós todos fôssemos cegos? Esse foi o questionamento que levou José Saramago a escrever o seu livro de maior sucesso – “Ensaio sobre a cegueira” – em que trabalha sob uma perspectiva filosófica e sociológica problemas da vida moderna a partir da metáfora da cegueira.
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Para o escritor português, a resposta à pergunta veio rapidamente, pois, em verdade, já estamos cegos; cegos da razão, já que, embora dotados de inteligência, não a usamos para instruir nossas vidas.

A cegueira é apresentada na obra como uma doença não diagnosticável chamada de “cegueira branca”, a qual se alastra com imensa velocidade. Assim, pouco a pouco todos vão ficando cegos, com uma única exceção: uma mulher (mulher do médico). Antes da generalização da cegueira, os primeiros a cegarem são isolados numa espécie de quarentena, demonstrando, desde já, a cegueira que todos já se encontravam, pois o isolamento era a atitude mais fácil a ser tomada, como se aquelas pessoas fossem frutos podres que deveriam ser exterminados para o bem da árvore.
 
Na quarentena, eles são tratados como animais e rapidamente, assim se tornam. Parece-me que em situações extremas, escassas, os homens são tomados por atitudes primitivas e animalescas. A escassez leva à disputa por espaço, comida, privilégios e poder. O instinto de sobrevivência parece sobrepor-se à razão, já que:
“Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”
Embora estivessem naquela condição horrível, não residiam entre eles sentimentos de redenção, como o coletivismo e amizade (raras exceções), mas antes, o egoísmo; primeiro daqueles (Estado) que isolaram os cegos e os tratavam como animais; e depois, dos próprios cegos que, ainda que na mesma situação, não possuíam a menor empatia. O egoísmo faz com que a situação torne-se ainda pior e evidencia quão forte é essa característica, a qual nos parece intrínseca e permanente como uma casca sobre a nossa pele ou como coloca Saramago:
“Ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra.”
Conforme o tempo passa, a cegueira se alastra e o caos aumenta. A animalidade torna-se mais aflorada, e como se estivessem no estado de natureza de Hobbes, movidos pelo conatus, pelas suas paixões egoístas, cada um busca a sua sobrevivência sem preocupar-se com o outro.

Nessa cegueira generalizada, apenas uma mulher mantém a visão, e por ver, sofre duplamente. Como única que continuou a enxergar vivenciou a cegueira que as pessoas se encontravam, mas não somente a física, como também aquela manifestada por Saramago. Ela vivencia a falta de visão que as pessoas têm em relação à realidade e a falta de sensibilidade que impede-nos de enxergar o problema do outro como um que poderia ser nosso. Essa incapacidade constante que o homem tem de colocar-se no lugar do outro, ou como prefere Erich Fromm: a incapacidade que o ser humano demonstra para amar.
“É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.”
“A mulher do médico” vivencia a miséria humana, o que somos capazes de fazer para manter a nossa potência, o quanto egoístas somos e quão difícil é demonstrar o mínimo de compaixão, isto é, sentir a dor com o outro, pelo outro, no lugar do outro. Essa realidade demonstrada não difere muito da que os personagens viviam antes de cegar, assim como não difere da nossa realidade, uma vez que já vivemos em um mundo de conflitos, egoísmo, medo e isolamento. Não é preciso cegar para entender que lutamos por espaço e poder; que lutamos pela “sobrevivência” na selva de pedra; que nos tornamos descartáveis.

As únicas coisas que importam são as que abastecem o nosso ego. Dificilmente nos preocupamos com o bem coletivo ou se alguém será prejudico por nossas atitudes. De fato, Saramago está certo, todos já estamos cegos. Não foi a cegueira que transformou os homens em animais, eles já eram animais, já viviam em conflito, apenas não viam.

Mas, se estes não viam, havia uma que podendo olhar, via e vendo, reparava – e por isso – também sofria, pois entendia que possuía a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam; de contribuir para, no mínimo, acalentar os que não veem, tentar mostrar-lhes o caminho e abrir-lhes os olhos. A mulher do médico representa a esperança diante de um mundo cada vez mais burocrático e chato; egoísta e mesquinho.

Isolados nas nossas bolhas não conseguimos olhar para o lado e, contraditoriamente, em plena era da informação, cada vez menos nos comunicamos e quando digo comunicar não me refiro a dizer palavras lançadas ao vento, mas partilhar algo, tornar comum, afetar o outro e ser afetado.

A reflexão que Saramago nos propõe é desafiadora, pois nos faz questionar o que somos, qual a essência da nossa natureza e qual a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam. A metáfora da cegueira branca encaixa-se perfeitamente com a vida moderna (ou pós-moderna), em que não conseguimos enxergar a sociedade doente que nos circunda; a sua fragilidade; a nossa fragilidade; e que, embora, tenhamos hoje condições de melhorar a vida, esta parece perder o valor.

Para aqueles que ainda não sucumbiram e conseguem pensar fora da caixinha, há de se considerar que precisamos refletir sobre o modus vivendi contemporâneo, sobre o que nos tornamos, sobre o que somos e entender a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam. Pois como disse o sábio portuga: 
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Alípio de Freitas


Recordando:

Alipio de Freitas-Muitas vidas numa só-

9 de Janeiro-18h-inauguração da exposição-

Programa:

Espaço de exposições temporárias do museu do Aljube-Antigo Parlatório da Cadeia

                



Foto de Anália Gomes.

sábado, 30 de dezembro de 2017

A terminar o ano 2017

Ano de 2017 deve terminar entre os três anos mais quentes do registo histórico

Depois de três quebras consecutivas de recorde de temperatura nos últimos três anos, 2017 não vai fechar como o ano mais quente. Mas isso não é uma boa notícia. A expectativa é que será um dos três anos mais quentes do registro histórico, anunciou nesta segunda-feira, a Organização Meteorológica Mundial, na abertura da 23ª Conferência do Clima da ONU, em Bonn. E 2017 deve fechar com recorde de eventos climáticos extremos.

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De acordo com a OMM, relatório prévio do estado do clima mostra que a média global de temperatura entre janeiro e setembro foi de aproximadamente 1,1°C acima que antes da Revolução Industrial. Por causa do forte El Niño, 2016 deve permanecer como o ano mais quente desde o início dos registros. O fenômeno climático também já tinha influenciado as temperaturas em 2015.
De modo que 2017 está quente por conta própria, sem ajuda extra. Pela estimativa da OMM, 2017 e 2015 devem ficar com o segundo e/ou terceiro lugar. E o período de 2013 a 2017 já está garantido como os cinco anos mais quentes desde que as temperaturas começaram a ser medidas, em 1880.
A organização lembra que outros indicadores de longo prazo atestam que as mudanças do clima estão em curso, como o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, o aumento do nível do mar e a acidificação dos oceanos, além do crescente número de eventos de alto impacto, como os catastróficos furacões e inundações que o planeta teve neste ano, além de ondas de calor e secas.
"Os últimos três anos ficaram no topo em termos de recordes de temperatura. Isso faz parte de uma tendência de aquecimento a longo prazo", afirmou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, em comunicado distribuído à imprensa.
"Nós estamos testemunhando um clima extraordinário, incluindo temperaturas superiores a 50°C na Ásia, furacões recorde em rápida sucessão no Caribe e no Atlântico alcançando locais tão distantes quanto a Irlanda, devastadoras inundações de monções que afetaram muitos milhões de pessoas e uma seca implacável na África Oriental", continuou.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Metafora: o rio e o oceano

O rio e o oceano

Diz-se que mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre.
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Mas não há outra maneira, o rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece. Porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento. Assim somos nós. Só podemos ir em frente e arriscar. Coragem! Avance firme e torne-se Oceano!

domingo, 17 de dezembro de 2017

Aldeias do Xisto

De regresso ás viagens

Talasnal - - Lousã - Distrito de Coimbra

Está é, desde há muito, a Aldeia do Xisto da Serra da Lousã que tem dado mais visibilidade e carisma ao conjunto. Pela sua dimensão e disposição, mas também pelos muitos pormenores das recuperações das suas casas. Descobrir esta aldeia representa mergulhar no mundo mágico da Serra da Lousã e embrenhar-se numa vegetação luxuriante por onde espreitam veados, corços, javalis e muitas outras espécies. Aqui reina a Natureza, sensível, que pede respeito. Mas que permite inúmeras possibilidades de lazer e de desportos ativos. Aqui sente-se o pulsar da terra e a sua comunhão com os homens quando se avistam ao longe as aldeias. Parecem ter nascido do solo xistoso, naturalmente, como as árvores. Foto A ruela principal acompanha o declive da encosta, num percurso íngreme. Dela derivam quelhas e becos, que criam um ambiente de descoberta que todos gostam de explorar à espera da surpresa de um novo recanto.

sábado, 9 de dezembro de 2017

“Bonecos de Estremoz”

Os "Bonecos de Estremoz" foram classificados como Património Cultural Imaterial da UNESCOA arte popular tem mais de 300 anos de história.A UNESCO classificou esta quinta-feira "07/12/2017 como Património Cultural Imaterial da Humanidade a produção dos “Bonecos de Estremoz”, em barro, uma arte popular com mais de três séculos.
          
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A classificação da “Produção de Figurado em Barro de Estremoz”, vulgarmente conhecida como “Bonecos de Estremoz”, foi decidida na 12.ª Reunião do Comité Intergovernamental da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) para Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que decorre na Ilha Jeju, na Coreia do Sul, até sábado.
A decisão, que ocorreu pelas 01:05 (hora de Lisboa), foi bastante celebrada pela comitiva portuguesa que durante os festejos exibiu exemplares de “Bonecos de Estremoz”.
Os “Bonecos de Estremoz” pertencem a uma arte de caráter popular, com mais de 300 anos de história, tendo sido o primeiro figurado do mundo a merecer a distinção de Património Cultural Imaterial da Humanidade, na sequência da candidatura apresentada pela Câmara Municipal de Estremoz, no distrito de Évora.
A candidatura teve como responsável técnico o diretor do Museu Municipal de Estremoz, Hugo Guerreiro.
Com mais de uma centena de figuras diferentes inventariadas, a arte, a que se dedicam vários artesãos do concelho, consiste na modelação de uma figura em barro cozido, policromado e efetuada manualmente, segundo uma técnica com origem pelo menos no século XVII.
Em Estremoz, trabalham atualmente nesta arte emblemática Afonso e Matilde Ginja, Célia Freitas, Duarte Catela, Fátima Estróia, Irmãs Flores, Isabel Pires, Jorge da Conceição, Miguel Gomes e Ricardo Fonseca.
Um abraço a todos.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Transpraia "Costa da Caparica" a historia

                                                           Transpraia
O Transpraia é um comboio turístico que liga a praia da Costa da Caparica à Fonte da Telha, num trajeto de cerca de 9 kmts à beira do Atlântico num percurso que compreende 4 estações e 15 apeadeiros, tendo sido o primeiro acesso a algumas praias mais remotas para os inúmeros banhistas da altura.
Inaugurado em 29 de Junho de 1960, é propriedade da empresa Transpraia – Transportes Recreativos da Praia do Sol, Lda, opera no litoral do concelho de Almada e foi um projeto de Casimiro, hoje administrado pelo filho António Pinto da Silva.
Casimiro, exímio atirador de tiro ao voo, investiu o dinheiro dos seus prémios neste projeto.
A ideia de criar o Transpraia nasceu dos 4 anos vividos em Santo António da Caparica por motivos medicinais devido ao iodo desta praia para curar as amigdalites da sua filha mais nova.
Inauguracao


Tendo inicialmente sido apenas um trator a puxar carruagens sobre um estrado de madeira para transportar as pessoas para a praia, a fragilidade da madeira não foi impedimento para Casimiro que, apesar dos estrados terem partido, continuou com o seu projeto.
Inspirado num pequeno comboio que recordava de uma mina numa povoação Francesa, assim nasceu o novo modelo de comboio que acabou por implementar. Com uma bitola de 60 cm, o trilho tem um percurso de via única, com algumas agulhetas e duplicações de linha para cruzamentos e pontos de manobra, tendo sido utilizado o sistema de montagem Decauville.
carruagens
A viagem inaugural foi um sucesso, enchendo de animação a pequena vila à beira-mar, que fervilhava de cor e alegria em redor deste pequeno comboio de praia. Desde os gaiatos descalços às donas de casa de lenço ou avental e os senhores de chapéu, ninguém faltou à festa.
Benzido pelo pároco da Freguesia, o comboio pôs-se em marcha ao som da Banda da Casa dos Pescadores que tocava a "Maria da Fonte".
A sua importância reclamou a presença de todas as personalidades importantes da época: o Secretário Nacional de Informação e Turismo, Dr. Moreira Baptista, o governador civil de Setúbal, o presidente da Câmara de Almada e o presidente da Comissão Municipal de Turismo.

No regresso da 1ª viagem houve festa e um cortejo que percorreu a Rua dos Pescadores com a banda a acompanhar.
À época escrevia o o Diário de Notícias que ao almoço e aos "brindes", "falou em nome da Transpraia o Sr. Dr. Canas Cardim, que a exemplo do que já fizera no início da viagem, saudou os visitantes e disse que a obra iniciada era um dos muitos sonhos que a sociedade pensa realizar para o progresso da Costa da Caparica", acrescentando: "Quem nos dera ser vivos, daqui a poucos anos, para assistir à transformação total desta região maravilhosa, quem sabe, talvez impulsionada por estas pequenas máquinas Diesel, rastilho do nosso empreendimento!"

Com o Transpraia muitas vidas se cruzaram, Carlos Alberto foi inicialmente cobrador, depois maquinista, tendo chegado a encarregado, desde o tempo em que vendia bilhetes a dez tostões, quando só existiam duas praias, a Costa e a Fonte da Telha.
Quando quase ninguém tinha carro, todos ficavam na praia da vila, mas o Transpraia trouxe a oportunidade de um dia de praia em família com apenas meia hora de viagem.
multidão
As praias da costa foram desbravadas com o tempo e com a ajuda do Transpraia que, de Junho a Setembro das 09:00 às 20:00, foi dando a conhecer a beleza natural da Costa do Sol, e das novas praias, tendo lá chegado antes de qualquer outro.
No pós-25 de Abril houve um boom de clientes que faziam filas enormes para os bilhetes, criando conflitos, empurrões e discussões quando um comboio chegava, obrigando à frequente intervenção da Policia Marítima, não havia lugares vazios e quase subiam para o tejadilho.
As pequenas locomotivas movidas a gasóleo puxam composições constituídas por quatro carruagens do tipo imperial, de acesso aberto pelos estribos laterais a sete bancos de quatro lugares corridos.

multidão


No Verão de 2007 o programa Polis transferiu o Transpraia para a Praia Nova, o que afastou muitos clientes, campistas que o utilizavam para vir à cidade e especialmente idosos que têm dificuldade de caminhar na areia até ao novo terminal.
Mesmo sendo este comboio uma atração turística, a mudança de um terminal na Rua dos Pescadores junto ao restaurante "Carolina do Aires" para cerca de 1 kilomemtro e 200 metros de distância, junto ao Parque de Campismo da Praia Nova, em nada o favoreceu, apesar da tentativa da Costa Polis que acordou uma ligação gratuita entre os 2 terminais garantida pela TST (Transportes Sul do Tejo), apenas no 1º ano após a mudança.
Transpraia
Afastado da Estação original não está previsto o retorno ao local inicial, muitos dos veraneantes desconhecem que o Transpraia ainda existe e a falta de visibilidade tem sido cruel para o Transpraia, que continua a lutar pela sobrevivência.
Os três comboios que fazem as viagens do Transpraia continuam a fazer a primeira viagem às 09:00 da manhã a partir da Praia Nova e a última viagem às 19:30 a partir da Fonte da Telha.

... E aguardam por si!...

© Copyright Helena MCS Simões, Todos os Direitos Reservados

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Passando pela Trafaria

A Praia da Trafaria possui uma língua de areal extensa e pertence à foz do Rio Tejo pela margem Sul. Situa-se na frente urbana de mar da localidade piscatória que lhe dá nome.
As areias e águas desta praia são utilizadas pelos pescadores para recolherem as suas embarcações.
Os silos de armazenagem de graneis sólidos e alimentares e o terminal de carga e descarga operados pela Silopor dominam a paisagem, tamanha a sua envergadura.
A vista sobre Lisboa e a emblemática Torre de Belém são o principal atrativo.

Passeio Ribeirinho da Trafaria 

Este passeio ribeirinho, junto às margens do Tejo, é pautado por calçada portuguesa e uma zona de esplanadas, bem como iluminação que permite passeios noturnos numa zona de rara beleza que possibilita o deleite nas imagens que o estuário do rio nos oferece. 


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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Não Digas Nada!

“Não Digas Nada!” por Fernando Pessoa
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Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz
Não digas nada.
Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Fernando Pessoa
Fernando Pessoa foi um dos mais importantes escritores e poetas do modernismo em Portugal. Nasceu em 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa (Portugal) e morreu, na mesma cidade, em 30 de novembro de 1935. É mundialmente conhecido como poeta dos heterônimos.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O QUE EU GOSTARIA DE SER

Na sala de aula, a professora pediu aos alunos que fizessem uma redação com o título “O que eu gostaria de ser”. O tema era livre: as crianças poderiam ser um personagem, um objeto, uma pessoa ou um animal…

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Já em casa quando corrigia as redações dos seus alunos, deparou-se com uma que a surpreendeu. O marido entrou na sala nesse momento e, vendo-a chorar, perguntou o que havia acontecido. Ela apenas lhe entregou a redação e pediu que lesse.
O marido começou a ler:
“Eu queria ser uma televisão. Quero ocupar o espaço dela, viver como ela vive.
Ter um lugar especial para mim e conseguir reunir a minha família ao meu redor.
Ser levado a sério quando falar, ser o centro das atenções e ser escutado sem interrupções e perguntas.
E se eu estiver calado, quero receber a mesma atenção que a televisão recebe quando não funciona.
Ter a companhia do meu pai quando ele chega em casa, mesmo cansado.
Que a minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar.
Que os meus irmãos briguem para poderem estar comigo!
Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado de vez em quando, para passar alguns momentos comigo.
Por fim, como a televisão faz, quero poder divertir  todos da minha família.
Se eu fosse uma TV, eu viveria com a mesma intensidade que a televisão da minha casa vive.”
Ao terminar de ler, o marido emocionado diz para a esposa:
– Meu Deus, coitado desse menino… que pais que ele tem!
A professora olhou bem nos olhos do marido e disse chorando:
– Essa redação é do nosso filho!

“Sabedoria em Parábolas”

Parábola das Rosas

Um homem plantou uma rosa e passou a regá-la constantemente. Antes que ela desabrochasse, ele  examinou-a e viu o botão que em breve desabrocharia, mas notou espinhos sobre o talo e pensou:
“Como pode uma flor tão bela vir de uma planta rodeada de espinhos tão afiados?”
Entristecido por este pensamento, recusou-se a regar a rosa e antes mesmo de estar pronta para desabrochar, ela morreu.
       
                 
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Assim é com muitas pessoas. Dentro de cada alma há uma rosa: são as qualidades dadas por Deus. Dentro de cada alma temos também os espinhos: são as nossas falhas.

Muitos de nós, olhamos para nós mesmos e vemos apenas os espinhos; os defeitos.
Nós nos desesperamos, achando que nada de bom pode vir do nosso interior.
Nós nos recusamos a regar o bem dentro de nós e consequentemente, ele morre.
Nunca percebemos o nosso potencial. Algumas pessoas não vêem a rosa dentro delas mesmas.

 Portanto alguém mais deve mostrar a elas. Um dos maiores dons que uma pessoa pode possuir ou compartilhar é ser capaz de passar pelos espinhos e encontrar a rosa dentro de outras pessoas. Esta é a característica do amor. Olhar uma pessoa e conhecer suas verdadeiras falhas. Aceitar aquela pessoa em sua vida, enquanto reconhece a beleza em sua alma e ajudá-la a perceber que ela pode superar as suas aparentes imperfeições.

Se nós mostrarmos a essas pessoas a rosa, elas superarão seus próprios espinhos.
Só assim elas poderão desabrochar muitas e muitas vezes. Portanto sorriam e descubram as rosas que existem dentro de cada um de vocês e das pessoas que amam!

Autor desconhecido:

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A dança da chuva

Opinião de Paula Coelho: O que desde já te agradeço.

Eu sei que escolher falar sobre sustentabilidade ou alterações climáticas é chamar à discussão todos os que acham que isto é puro alarmismo, um rol de mentiras porque está tudo bem, não há um oceano de plástico à deriva, e as radiações na atmosfera são apenas fumaça. Há uma cabala perpetrada não sei bem por quem, ou com que objectivos, para nos assustar com essa coisa a que chamam buraco do ozono. Balelas. Para esses e todos os que (ainda) acreditam que o sol anda à volta da terra, um grande bye boy bye.

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Quando um artista português consegue recolher 48 toneladas de lixo e desperdício, quando usa para matéria-prima aquilo que deitamos fora, ou que deixamos apodrecer na rua, algo está mal. A exposição Attero de Bordalo II, goste-se ou não, considere-se arte ou não, é, admitamos, um valente murro no estômago, porque mostra a quantidade de objectos desnecessários na nossa vida, e a despreocupação com que nos livramos daquilo que já não queremos, que se estragou ou que foi substituído por uma versão mais recente. São muitas peças feitas a partir de plástico, o mesmo que anda à deriva no mar, que mata baleias que dão à costa com as suas entranhas repletas de objectos de plástico, o mesmo que deitamos fora todos os dias sempre que abrimos uma nova embalagem.
Eu sei que falar sobre as alterações climáticas chama à discussão um conjunto de especialistas que se aprontam a negar as minhas afirmações, questionando-me por falta de conhecimento na matéria. Obrigada. Não é preciso estudar muito para perceber que há uma diferença fundamental na forma como vivemos hoje, em relação ao passado. Não. Nessa altura não era melhor e foi lá, no passado, que começámos a poluir sem a consciência das implicações que determinadas decisões poderiam ter no nosso futuro. Chama-se falta de informação e conhecimento.
E agora, qual é a nossa desculpa?
A informação está disponível para quem quiser saber mais e, embora possam existir dados contraditórios, há um consenso generalizado em relação à necessidade de fazermos alguma coisa, mudarmos o que fazemos ou, simplesmente, deixarmos de fazer, para garantirmos a sobrevivência futura no planeta.
Acredito nas pequenas ações que não mudam o mundo mas ajudam. Bordalo II, por exemplo, usou a arte para se expressar, demonstrar e apelar às consciências sobre a nossa acção no meio ambiente. Todos podemos fazer mais do que já fazemos: a torneira que se fecha quando lavamos os dentes, o duche que passa a ser de 3 minutos, os alimentos que compramos a granel, o saco das compras que levamos de casa. A mudança está (lentamente) a acontecer. Vejo cada vez mais pessoas com o seu saco para transportar as compras. Muda o mundo? Não. Mas é menos um saco que irá, a seu tempo, parar ao aterro. O attero.
Portugal está a secar e a culpa não é apenas das alterações climáticas. É também de políticas públicas que negam a existência do problema e, principalmente, que preferem ignorar a fonte desse problema, na nascente dos nossos rios que correm por aqui até ao mar. Os que não nascem no nosso país. Tal nunca foi devidamente acautelado. Ou foi, e os nossos vizinhos são uns malandros? Talvez seja um misto dos dois, na certeza, porém, que não somos nós que decidimos quando fechar a torneira. O que significa que estamos muito perto de ficar à míngua. Quando é que chove? Ah, pois. Isso das alterações climáticas...

"E aqui fica o meu abraço para ti Paula"

terça-feira, 14 de novembro de 2017

José Mário Branco cumpre 50 anos de carreira

MUSICA

O músico e produtor português José Mário Branco está a cumprir 50 anos de carreira e, para assinalar a data, serão reeditados, em Dezembro, todos os álbuns do autor

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No total, serão recolocados no mercado, a 01 de Dezembro, e em edições limitadas, sete álbuns de originais e um álbum ao vivo, publicados originalmente entre 1971 e 2004, como "Mudam-se os tempos mudam-se as vontades" (1971), "Ser solidário" (1982) e "Resistir é vencer" (2004).
Fonte da editora explicou à agência Lusa que, para 2018, está planeada a edição de uma coletânea e de um disco de raridades que, ainda a confirmar, poderá ter gravações inéditas.
Este plano de reedições de dezembro recupera os álbuns restaurados em 1997 por José Manuel Fortes, sob a supervisão de José Mário Branco, sublinha a editora.
O álbum ao vivo que sairá em dezembro remete para os concertos que o músico deu em 1997, quando cumpria trinta anos de carreira.
José Mário Branco editou o primeiro longa-duração, "Mudam-se os tempos mudam-se as vontades", ainda no exílio em França, em 1971, musicando textos de Natália Correia, Alexandre O’Neill, Luís de Camões e Sérgio Godinho.
No entanto, os 50 anos de vida musical do autor português são marcados a partir da gravação em 1967 do primeiro EP, "Seis cantigas de amigo", editado dois anos depois pelos Arquivos Sonoros Portugueses.
A edição de "Ser solidário", de 1982, inclui a gravação de "FMI", uma das composições mais célebres de José Mário Branco.
Nascido no Porto, em maio de 1942, José Mário Branco é considerado um dos mais importantes autores e renovadores da música portuguesa, em particular no período da revolução de abril de 1974, cujo trabalho se estende também ao cinema, ao teatro e à acção cultural.
Foi fundador do GAC - Grupo de Acção Cultural, fez parte da companhia de teatro A Comuna, fundou o Teatro do Mundo, a União Portuguesa de Artistas e Variedades e tem colaborado na produção musical para outros artistas, nomeadamente Camané, Amélia Muge, Samuel e Nathalie.
O último álbum de originais, "Resistir é vencer", data já de 2004. Depois disso, José Mário Branco participou no projecto Três Cantos, ao lado de Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias, que resultou numa série de concertos, um álbum e um DVD.
No ano passado, José Mário Branco assegurou a direção musical do filme "Alfama em si", de Diogo Varela Silva.
Recentemente, a vida de José Mário Branco foi passada em revista, com a participação do próprio músico, no documentário "Mudar de vida", de Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo.