domingo, 5 de abril de 2020

A fragata D. Fernando II e Glória

A fragata D. Fernando II e Glória travou várias batalhas. A maior foi contra o esquecimento, 30 anos encalhada no «Mar da Palha». Após um longo processo de restauro, está de novo no Tejo, agora transformada em museu. E à espera da sua visita.
[Texto de Margarida Henriques – Fotografias de V.E.R. Produções e Fotografia]
In: “Notícias Magazine”, 1998
                Fragata D. Fernando II & Glória - Almada | Mapio.net
Durante os 33 anos em que navegou, a maior parte das vezes sulcando as águas entre Goa e Lisboa, a Fragata D. Fernando II e Glória percorreu cerca de 100 mil milhas, o equivalente a cinco voltas ao Mundo. Construída para ser navio de guerra, acabou por navegar mais como charrua — navio de transporte pouco artilhado. Mas travar uma série de "guerras" parecia ser o seu destino. Foi transformada em navio de transporte, passou a escola de artilharia e mais tarde a orfanato, sede da Obra Social Fragata D. Fernando. Foi nessa altura que um violento incêndio a destruiu quase por inteiro e a remeteu para o "Mar da Palha", onde ficou 30 anos encalhada e à mercê do esquecimento de uns e do vandalismo de outros. Agora, depois de um longo processo de reconstrução e restauro, a Fragata D. Fernando II e Glória está de novo preparada para cruzar os oceanos, se necessário for. Para já, vai marcar presença na Expo'98, para depois voltar para junto da Torre de Belém, onde vai ficar atracada com a função de museu flutuante.
Construída em Damão e lançada à água em 22 de Outubro de 1843, a história da fragata encerra em si uma série de marcos: construída numa altura em que se transitava da vela para o vapor, foi o último navio à vela da Marinha Portuguesa e a última encomendada por Portugal aos estaleiros do antigo Arsenal Real de Marinha de Damão, e foi a última nau a fazer a Carreira da Índia — a linha militar regular que, durante mais de três séculos, fez a ligação entre Portugal e a Índia. O nome que recebeu é uma homenagem a D. Fernando, marido da rainha D. Maria II, e a Nossa Senhora da Glória, de especial devoção entre os goeses, e a quem foi entregue a sua protecção.
Em 1845 fez a sua primeira viagem e, durante os cem anos que esteve ao serviço da Marinha Portuguesa, percorreu o equivalente a cinco voltas ao Mundo. Partiu de Goa para a sua viagem inaugural em 2 de Fevereiro desse ano e chegou ao Quadro dos Navios de Guerra no Tejo em 4 de Julho. A partir daqui, a D. Fernando II e Glória participou numa série de missões e viagens à Índia, Moçambique e Angola, para levar a estes antigos territórios portugueses unidades militares do exército e da marinha, colonos e degredados que, geralmente, iam acompanhados pelos seus familiares. De todas as missões que lhe foram confiadas, as mais importantes foram a participação como navio-chefe de uma força naval na ocupação de Ambriz, em Angola, e a colaboração na colonização de Huíla, onde abdicou das suas funções de navio de guerra para transportar ovelhas, cavalos e éguas do Cabo da Boa Esperança para Moçâmedes.
Vinte anos mais tarde, em 1865, a fragata substituiu a nau Vasco da Gama como escola de artilharia, mas só fez a sua última missão no mar em 1878, altura em que uma viagem de instrução de guarda-marinhas a levou aos Açores e em que, pelo meio, salvou a tripulação da Laurence Boston, uma barca americana que se incendiara.
É na altura em que a fragata D. Fernando II e Glória se transforma em Escola de Artilharia Naval que perde parte da sua beleza e características próprias. Os antigos mastros dão lugar a três deselegantes mastros inteiriços e, em cada bordo, são construídos dois redutos, para colocação de peças de artilharia modernas.

A saída dos oceanos
Em 1940, e apesar de sempre terem sido elogiadas as suas capacidades náuticas, a marinha decidiu que a fragata já tinha cumprido a sua missão nos mares e transformou-a em sede da Obra Social da Fragata D. Fernando, criada para acolher rapazes de famílias pobres, que ai recebiam instrução escolar e treino de marinharia, com o objectivo de depois entrarem nas marinhas de guerra, do comércio e da pesca.
É então que, em 1963, um violento incêndio quase destruiu o oitavo navio de guerra mais antigo do mundo, tendo-se perdido todo o seu recheio: documentação, desenhos, livros de bordo com as assinaturas dos passageiros mais ilustres que por lá passaram, entre muitas outras relíquias. "A fragata ficou em muito mau estado e foi rebocada para o «Mar da Palha», onde ficou 30 anos, encalhada e adornada sobre bombordo. Durante essa época foi-se degradando ainda mais, não só por acção do tempo mas também por acção das pessoas que iam lá buscar madeira (a teca, que é uma madeira muito cara e muito boa), e o navio foi sendo delapidado aos poucos", explica Francisco Salvado, o engenheiro do Arsenal do Alfeite responsável pela gestão do projecto da Fragata D. Fernando. E tudo aquilo que não se perdeu no incêndio — armamento e instrumentos náuticos — perdeu-se nesta altura.
Só em 1991, e depois de muitas "guerras" entre as partes envolvidas no processo, a marinha e o governo optaram pela recuperação do navio. Um projecto que só foi viável com o apoio de mecenas.
 
Mergulho no passado
O navio teve de ser desencalhado. Isso foi uma manobra feita pelo Arsenal. Com o auxílio de mergulhadores retirou-se todo o lastro que estava lá dentro — cerca de 300 toneladas de areia e lodo. Tivemos de dragar um canal até ao Alfeite, para que o navio pudesse ir a reboque. Depois foi construída uma série de flutuadores em fibra de vidro, que deram impulsão suficiente para que o navio descolasse do fundo. Com grande esforço, lá se conseguiu trazê-lo para aqui", recorda Francisco Salvado.
O passo seguinte foi desmantelar o navio e reconstruí-lo em Aveiro, na Ria-Marine. Da fragata original ficou toda a parte do fundo, uma vez que conseguiram recuperar essa madeira e o cobre que a forrava, sendo depois reconstruída em cambala por cima desta parte antiga. "Ao todo, aplicaram-se na sua reconstrução cerca de 900 toneladas de madeira — o que equivale a cerca de três mil toneladas, uma vez que o aproveitamento da madeira é da ordem de um terço —, e 25 toneladas de pregos. Só para fixar o forro de cobre foram necessários 140 mil pregos, todos feitos à mão. Na coberta, os pavimentos foram calafetados com a técnica tradicional que se usava naquela altura: estopa e breu. Nos de cima, como vão estar mais expostos ao tempo e vão ser mais visitados, foram utilizadas técnicas modernas, explica o responsável pelo restauro da fragata.
No ano passado a fragata pôde finalmente voltar a navegar e regressar ao Tejo. Foi reflutuada e rebocada até Lisboa, onde recebeu os últimos acabamentos no Arsenal do Alfeite: o apetrechamento interno, a colocação dos mastros, do aparelho bélico, do mobiliário e de uma série de pequenos pormenores.
Hoje, entrar na fragata D. Fernando é o mesmo que recuar cem anos na história e ver como era a vida no mar em 1850. Desde o paiol dos espíritos, onde se guardavam as bebidas alcoólicas para o tratamento de doentes, ao paiol dos víveres e dos frescos, passando pelos do carpinteiro, do mestre, das bagagens dos oficiais, do velame e da pólvora, e a camarinha do comandante, os camarotes do cirurgião e do navegador e a botica, tudo foi reconstruído como tinha sido criado no século XIX, e decorado com peças da época.
Nada foi deixado ao acaso. Exemplos disso são a botica, onde se podem encontrar os livros de medicina da época e frascos antigos para guardar os medicamentos, e o paiol da pólvora, que foi construído seguindo os mesmos moldes do século passado.
Pronta para voltar a navegar, a D. Fernando está agora condenada a pequenos trânsitos. Os marinheiros de hoje exigem um mínimo de conforto e, isso, a fragata não pode oferecer. Ou perderia todo o encanto dos navios de outrora.

sábado, 7 de março de 2020

A actriz Núria Espert, "grande dama do teatro espanhol", apresenta Lorca em Almada

O espectáculo junta a actriz ao encenador e dramaturgo Luís Pasqual que toma como ponto de partida uma conferência de Federico García Lorca, de 1935, sobre os poemas-canções de "Romanceiro Gitano".
A atriz Núria Espert, “a grande dama do teatro espanhol”, apresenta em Almada, no próximo sábado, o espetáculo “Romancero Gitano”, sobre García Lorca, uma produção dirigida por Luís Pasqual, integrada na programação do Teatro Municipal Joaquim Benite.
“Romanceiro Gitano”, o espetáculo, assenta no poemário de Federico García Lorca (1898-1936), publicado em 1928, que celebra a Andaluzia e os ciganos, e o amor que o poeta e dramaturgo espanhol tinha pelas suas raízes, pela sua cultura e pelas tradições da sua terra natal, como recorda a apresentação da obra.
Esta versão para palco surgiu na sequência da atribuição do Prémio Europa de Teatro a Núria Espert, a atriz que o teatro espanhol considera a sua “grande dama”, com o objetivo de levar um exemplo das mais nobres Letras de Espanha, à cerimónia de entrega do prémio, em São Petersburgo, no final de 2018.
Do pequeno recital de 20 minutos inicialmente pensado, porém, surgiu um espetáculo com quase uma hora de duração, que uniu a atriz e encenadora, Prémio Princesa das Astúrias das Artes em 2016, ao encenador e dramaturgo Luís Pasqual, com quem já tinha trabalhado várias vezes, ao longo da carreira, em tragédias de Eurípides e Shakespeare, em textos do contemporâneo David Hare, e também do poeta andaluz, nomeadamente em “Haciendo Lorca” (1996), “La Oscura Raíz” (1997) e “A Casa de Bernarda Alba” (2009). Como ponto de partida e enquadramento do espetáculo, Pasqual toma uma conferência de Federico García Lorca, realizada em 1935, exatamente sobre o “Romanceiro Gitano”, durante a qual apresentou e comentou os poemas em público.

"Ainda que lhe chame cigano, o ‘Romanceiro’ é sobre a Andaluzia, e chamo-lhe cigano porque cigano é o que encontro de mais elevado, de mais profundo, de mais aristocrático no meu país, o que encontro de mais representativo do seu modo de ser, o que preserva a sua ardência, o seu sangue e o alfabeto da verdade andaluz”, disse o poeta e dramaturgo, nesse encontro público, em 1935."

Os poemas-canções de “Romanceiro Gitano” são assim marcados pela paixão, pela sensualidade, pelo sentido trágico, pelo simbolismo com que evocam a alma cigana da Andaluzia, enquanto modelo de liberdade, sublinha a apresentação do espetáculo acolhido pela Companhia de Teatro de Almada (CTA).

Por vontade de Luís Pasqual, a encenação de “Romancero Gitano” pauta-se pela sobriedade, pois é a palavra — o seu sentido, a sua sonoridade, as imagens que oferece — que estão no centro da ação e definem o drama, como se lê no ‘site’ da companhia. Trata-se de “uma proposta que ilumina a personalidade e voz únicas de Nuria Espert, que sobe a palco para nos espantar a todos com o seu superlativo sentido musical do verso, ao jeito de Lorca dizendo os seus poemas para os seus amigos, numa atmosfera de grande afeto, no que constituía uma experiência quase mística, de grande incandescência”, escreveu o jornalista e escritor argentino Horacio Otheguy, em outubro de 2018, quando da estreia do espetáculo, no Teatro da Abadia, em Madrid.



quinta-feira, 5 de março de 2020

Razões para amar um animal com tanta intensidade

O famoso psiquiatra Sigmund Freud disse que as razões que nos levam a amar um animal com tanta intensidade são compreensíveis quando vemos que o amor delas é incondicional.Resultado de imagem para Razões para amar um animal

A relação que temos com nossos animais é libertada dos conflitos insuportáveis ​​da cultura. Freud estava certo quando disse que “os cães não têm a personalidade dividida, nem a crueldade do homem civilizado nem vingança deste último contra as restrições que a sociedade impõe.”
Ele corretamente disse que um cachorro contém a beleza de uma existência completa. E que um sentimento de afinidade íntima, de solidariedade indiscutível, existe muito claramente.
“As emoções simples e diretas de um cachorro, quando ele abana o rabo para expressar sua alegria ou latidos para mostrar seu descontentamento, são muito mais agradáveis. Os cães nos lembram dos heróis da história e talvez seja por isso que eles frequentemente recebem seus nomes. “-Sigmund Freud-
O cachorro vive em média 12 anos … Por que é tão injusto?
O fato de um cão ou gato viver apenas 12 anos em média é incompreensível e injusto. Por quê? Porque perder a oportunidade de continuar a compartilhar a vida com uma pessoa de quatro patas é extremamente doloroso.
Quando amamos um animal, todo o tempo que passamos com ele não é suficiente. Porque quando estamos com ele, quando olhamos para ele com ternura e amor, percebemos que o tempo passa rápido demais.
Percebemos essa sensação de tempus fugit quando, a cada carícia, sentimos o coração do nosso animal agitar-se no nosso. No entanto, o contraste aparece quando, após cada olá e depois de cada momento compartilhado, entendemos que esse amor é infinito.

Suas superpotências, armas de bondade maciça

Pensamos, com ternura, que nossos queridos animais têm superpoderes. Isso nos faz amá-los muito. Quando fazemos uma lista mental de tudo o que nos surpreende em casa, não podemos deixar de sorrir.
Quando amamos um animal, muitas coisas nos surpreendem e nos amolecem. Sua capacidade de prever o futuro ou “sentir” quando vamos para casa . Sua empatia e capacidade de estar em sintonia com o nosso estado emocional. Sua habilidade em nos confortar e nos motivar …
É difícil deixar nossos animais sozinhos em casa. Seus olhos suplicantes nos enchem de dificuldade. Mas a alegria deles em nos ver nos inunda de felicidade.
Os animais são, sem dúvida, os melhores terapeutas possíveis para muitas pessoas. Sua nobreza e bondade não têm limites. Se não temos um animal para amar, parte da nossa alma está adormecida. Mas esta reservou um espaço para amar os animais. Para desfrutar de seu amor incondicional e suas lições.
A declaração “ninguém jamais amará você mais do que a si mesmo” perde seu significado. Porque os animais são verdadeiros mestres na arte do amor. Cada segundo gasto com eles é um presente. Amar um animal é uma das mais belas experiências. Aqueles que viveram sabem disso.

Crédito da imagem da capa: Souzza

domingo, 9 de fevereiro de 2020

O hábito de ler é o que nos torna mais humanos, diz a ciência

A gente já sabia, mas os estudiosos confirmaram: ser um leitor de ficção te faz ter mais empatia pelo próximo.



Você pode estar precisando de uma desculpinha para ler mais (ou para estimular alguém a fazer o mesmo) ou de um empurrãozinho para decidir qual será sua próxima leitura. Ou pode estar, simplesmente, querendo entender um pouco melhor como funciona essa coisa bem louca chamada “humanidade”.
Para qualquer um destes três casos, nós temos boas notícias: para a ciência, tem ficado cada vez mais claro o quanto aqueles que leem literatura de ficção desenvolvem o dom da empatia muito mais do que os outros.
E por “ficção” entende-se que vai além da científica – estamos falando de romances, mesmo, histórias inventadas, daquelas que nos transportam diretamente para a cabeça de um ser que, na verdade, não existe.
Em meados do século passado, surgiu a Teoria da Mente, descrita pela revista Science como “a capacidade humana de compreender que as outras pessoas têm crenças e desejos e que eles podem ser diferentes de suas próprias crenças e desejos”.
Um estudo publicado em 2013 na mesma revista descobriu, justamente, que os leitores de romances costumam se sair melhor, quando testados a respeito da Teoria da Mente. Ou seja: eles compreendem melhor o fato de que os seres humanos têm opiniões diferentes.
Em julho deste ano, outra pesquisa sobre empatia e a leitura examinou como essa relação é poderosa. Entre os participantes, alguns foram convidados a ler o conto Saffron Dreams, da autora paquistanesa Shaila Abdullah, enquanto outros só foram informados sobre como a história se desenrolava.
Depois, todos eles foram expostos a fotografias de olhares – de várias pessoas diferentes – e estimulados a supor o que cada um dos fotografados estava pensando e sentindo.
Os que leram o conto viam com empatia semelhante os rostos de pessoas árabes e de pessoas brancas, mais do que os outros que não leram. Resumindo: além de ler ficção, precisamos investir nas narrativas, mesmo.
Entre um livro de ficção e uma biografia, portanto, você já pode ter certeza do que escolher, para a próxima leitura. Aproveite!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Cientistas alertam para cinco grandes ameaças à humanidade

Centenas de cientistas alertam para eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e colapso dos ecossistemas, crises alimentares e de água e falha na adaptação às alterações climáticas.


Eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e colapso dos ecossistemas, crises alimentares e de água, e falha na adaptação às alterações climáticas são as cinco maiores ameaças à humanidade, segundo mais de duas centenas de cientistas.
O balanço faz parte de um estudo divulgado esta quinta-feira, que envolveu a colaboração de 222 cientistas de 52 países, que avisam que a maior ameaça à humanidade é o potencial do efeito “bola de neve” dos cinco riscos relacionados e “altamente prováveis”.
Conduzido pela “Future Earth”, uma rede internacional de investigação em sustentabilidade, o estudo identifica cinco riscos globais como os mais graves em termos de impactos, mas quatro deles (alterações climáticas, fenómenos meteorológicos extremos, perda de biodiversidade e falta de água) também foram considerados pelos cientistas como os mais prováveis de acontecer.
Líderes políticos e empresariais mundiais já tinham apontado os mesmos riscos para a humanidade, num inquérito divulgado em janeiro pelo Fórum Económico Mundial.
Mas agora um terço dos cientistas ouvidos para este trabalho alertou para a ameaça que resulta da interação entre os cinco riscos, com as crises globais a agravarem-se umas às outras de tal maneira que podem criar um “colapso sistémico global”.
Ondas de calor extremas podem, por exemplo, acelerar o aquecimento global, libertando grandes quantidades de carbono armazenado pelos ecossistemas afetados, e ao mesmo tempo intensificar crises de água ou escassez de alimentos. A perda de biodiversidade enfraquece a capacidade dos sistemas naturais e agrícolas em lidar com extremos climáticos, aumentando a vulnerabilidade a crises alimentares, exemplificam também os cientistas.
Do total de cientistas ouvidos 173 falaram ainda de riscos adicionais (além de uma lista de 30) como merecedores de uma atenção global maior, como a erosão da confiança e dos valores sociais, a deterioração da infraestrutura social, a crescente desigualdade, o nacionalismo político crescente, a sobrepopulação e o declínio da saúde mental.
“Como consultores científicos para este inquérito pedimos aos académicos, líderes empresariais e formuladores de políticas do mundo que prestem atenção urgente a esses cinco riscos globais e garantam que eles sejam tratados como sistemas em interação, em vez de serem abordados um de cada vez de forma isolada”, dizem os responsáveis pelo documento, de uma centena de páginas.
No documento os cientistas resumem as mais recentes pesquisas sobre o estado do planeta e salientam que os problemas ambientais de hoje são uma mistura de mudanças físicas químicas, biológicas e sociais.
Tentar perceber como é que os nossos impactos numa área, como a extração em rios, afeta outra, como a provisão de alimentos, é uma tarefa complexa”, diz o relatório.
O documento destaca ainda questões como a ascensão e impacto do populismo, ligado à negação das alterações climáticas, e as notícias falsas, o aumento do risco financeiro devido às alterações climáticas ou os impactos nas migrações, mas também fala na ciência ecológica e nos mecanismos financeiros verdes e as mudanças na sociedade a favor de estruturas mais sustentáveis.
Amy Luers, diretora executiva da “Future Earth” disse, citada no documento: “As nossas ações na próxima década determinarão o nosso futuro coletivo na Terra”.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Bombas de sementes para reflorestar o planeta

A ideia de jogar sementes em cápsulas do ar não é nova, no entanto, só não foi realizada antes por não haver tecnologia para tal. Hoje é possível e várias empresas buscam alcançá-lo da maneira mais eficiente. Uma delas é a americana Lockheed Martin Aerospace, que afirma que com um bombardeio quase um milhão de árvores jovens podem ser plantadas por dia.


Através deste método de bombardeio com sementes, pode reduzir pela metade o custo em comparação com os métodos de plantio manual.

Além disso, aproveitam aviões que só podem ser usados em caso de guerra e com um objetivo positivo. Existem 2.500 bombardeiros C-130 em setenta países, esperando uma oportunidade de voar. Melhor jogar sementes do que jogar bombas. A empresa calculou que eles podem lançar mais de 3.000 bombas de sementes por minuto. Isso significa plantar 900.000 árvores em um dia.

As bombas de sementes são apontadas e projetadas para serem enterradas no solo na profundidade certa, como se tivessem sido plantadas à mão.
Alojado em plástico biodegradável, o solo artificial fornece alimento e umidade às sementes; até que se torne uma planta forte o suficiente para se sustentar. À medida que amadurece, a cápsula plástica derrete, deixando uma nova geração.
É uma iniciativa única de combate ao aquecimento global: reflorestamento maciço para criar florestas que absorvem carbono.
Algumas regiões que apostam em experimentar o novo método são o deserto do Sinai no Egito, as regiões da Floresta Negra derrubadas durante a Guerra Fria na Alemanha, bem como o norte da África, o Canadá, a Austrália e os Estados Unidos. Espero que mais países participem desse projeto para reflorestar o mundo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Morte de Salvador Dali

A 23 de Janeiro de 1989, morre, em Figueres, o pintor catalão Salvador Dalí.
Havia nascido em Figueres, a 11 de Maio de 1904.

Salvador Dalí i Domènech, 1º Marquês de Dalí de Púbol foi um importante pintor espanhol, conhecido pelo seu trabalho surrealista. O trabalho de Dalí chama a atenção pela incrível combinação de imagens bizarras, oníricas, com excelente qualidade plástica. Dalí foi influenciado pelos mestres do classicismo.
O seu mais conhecido trabalho, A Persistência da Memória (1931), pode ser observado, desde 1934, na colecção do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

Alguns trabalhos deste artista


A Persistência da Memória (1931)






terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Manifesto que contesta as aberrações do AO90



Este Manifesto foi apresentado em 23 de Janeiro de 2017, pelos «Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990» contestando o "critério da pronúncia" que foi adoptado, o qual “gerou aberrações", e a conclusão foi que "o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita".

E o AO90 é uma daquelas coisas que nasceram tortas e nem daqui a 500 anos isto se endireitará, prevendo-se até que, a continuar a este ritmo desastroso, a Língua Portuguesa está condenada a desaparecer e, no seu lugar instalar-se uma linguagem mixordeza inqualificável.

Quem levou em conta as sábias considerações deste Manifesto?

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Os que obedecem cegamente a ordens abusivas, emanadas de políticos desprovidos de Sentido de Estado, são meros escravos do Poder. Desobedecer é para os audazes. Obedecer é para os cobardes.

Neste Manifesto, assinado por mais de uma centena de individualidades, entre elas António Barreto, Carlos Fiolhais, António-Pedro Vasconcelos, Helena Buescu, Joaquim Pessoa e João de Freitas Branco, o qual foi dirigido aos nossos muito cegos, surdos e mudos Chefe de Estado, Parlamento, Governo, juízes dos tribunais, funcionários públicos, escolas públicas, particulares e cooperativas, professores e alunos, universidades, editoras e autoridades administrativas independentes, mas também foi enviado à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa, à Academia das Ciências de Lisboa, ao Instituto de Linguística Teórica e Computacional e ao Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, à Imprensa Nacional - Casa da Moeda e a todas as restantes entidades públicas e privadas, assegura-se que «o processo de entrada em vigor do AO90, nos Estados lusófonos, começou por ser um golpe político».

Pois é este “golpe político” que é preciso deter, porque estamos em Janeiro de 2020, e não em Janeiro de 1974.   

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Acontece que o AO90 não obedece a nenhuma lei, nem justa, nem injusta, porque a Lei que vigora e que regula a Língua Oficial de Portugal não foi revogada.
Para confirmação, consultar este link:
E porque essa Lei não foi revogada, a imposição do AO90, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25 de Janeiro, que determinou (não obrigou) a aplicação da grafia oriunda de um país estrangeiro, é ilegal. E isto é algo que qualquer iniciante do Curso de Direito sabe.

Portanto, nem se trata de cooperar com uma lei injusta, mas tão-só de dizer Ámen com uma Resolução do Conselho de Ministros, que não fazendo lei, é monumentalmente injusta, por impor, ilegalmente, uma ortografia que não pertence a Portugal, e, por conseguinte, todos os que cederam cegamente a esta imposição injusta, são cúmplices do caos ortográfico em que Portugal está afundadíssimo.

Portugal e aqueles Portugueses, que se prezam de o ser, não têm de ficar reféns do quero, posso e mando de ditadores disfarçados de democratas, com a agravante de serem cegos, surdos e mudos aos apelos racionais dos Portugueses pensantes, dotados de sentido crítico e de espírito cívico.

Os subscritores deste Manifesto chamaram a atenção para o facto de Angola e Moçambique, os dois maiores países de Língua Portuguesa, a seguir ao Brasil, nunca terem ratificado o falso AO90, enquanto Portugal, Brasil e Cabo Verde o mandaram aplicar obrigatoriamente e ilegalmente como já se demonstrou.

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Desobedecer à ordem (não à lei, que não existe) ilegal que manda aplicar a grafia brasileira, é um dever moral e uma obrigação que assiste a todos os Portugueses, mormente aos professores e órgãos de comunicação social (uns, porque ensinam, outros, porque divulgam, as aberrações ortográficas acordistas.

Os signatários do Manifesto, referindo-se ao tal "critério da pronúncia", citam alguns exemplos, no que diz respeito às consoantes mudas, defendendo que o AO90 criou arbitrariamente centenas de entradas de dicionário, até aí inexistentes em qualquer das ortografias, como "conceção" por "concepção", "receção" por "recepção", "espetador" por "espectador", que geraram confusões semânticas: “conceção de crédito”, “receção económica” ou “espetador de cinema” são alguns exemplos.

No entanto, pela (i)lógica acordista, o AO90 deveria cortar a mais muda de todas as consoantes: o "h" inicial, em hora, humano, homem, humildade, hélice, humidade, e numa infinidade de vocábulos em que o agá é mudo, mas tão necessário como os cês e os pês em todos os vocábulos onde foram ignorantemente suprimidos.

(Atenção, que este ignorantemente só diz respeito a Portugal. No Brasil, a supressão das consoantes mudas só aos Brasileiros diz respeito, até porque o que se escreve e fala no Brasil é a variante de uma Língua (não um idioma) que cada um metamorfoseia como lhe dá mais jeito).     

De acordo com o Manifesto, o AO90 estabeleceu 17 normas que instituem duplas grafias ou facultatividades, assentando num critério que se pretende de acordo com as “pronúncias”, como por exemplo "corrupto" e "corruto", "ruptura" e "rutura", "peremptório" e "perentório".

No caso do vocábulo óptico (relativo aos olhos), com a supressão da consoante muda 'p', passou a 'ótico' (relativo aos ouvidos), o que gera situações deveras anedóticas, fundindo-se as doenças de ouvidos e olhos, numa só especialidade: a ótica. Então, nariz e olhos passam a ser uma e a mesma coisa.

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Pois quando uma LEI é injusta o correcto é desobedecer, diz o meu Mestre Mahatma Gandhi. Mas quando a lei não é lei, porque nem sequer existe, e é uma injusta RCM, então, desobedecer, além de ser correcto é um DEVER, porque é muito injusto, além de irracional, transformar uma Língua greco-latina, da família Indo-Europeia, num dialecto (ou chamem-lhe variante, o que vai dar ao mesmo) sul-americano, que nada tem a ver connosco.

Para os subscritores do Manifesto, como Constança Cunha e Sá e Eugénio Lisboa, em Portugal "a eliminação sem critério das consoantes 'c' e 'p', ditas 'mudas', afasta as ortografias do Português europeu e do Brasil", tendo ainda criado "desagregações nas famílias de algumas palavras", sendo que estas “desagregações provocam insólitas incoerências”, como "Egito" e "egípcios", produtos "lácteos" e "laticínios", os "epiléticos" que sofrem de "epilepsia" ou o "convector" que opera de modo "convetivo". Acrescenta ainda este Manifesto que «o facto de as facultatividades serem ilimitadas territorialmente, conduz a uma multiplicação gráfica caótica, como acontece com “contacto” e 'contato', 'aritmética' e “arimética”. E mais: o curso universitário de “Electrónica e Electrotecnia” pode ser grafado com 32 combinações diferentes, o que é manifestamente absurdo.

E aqui não foi equacionada a pronúncia das palavras às quais se suprimiram as consoantes, que têm valor diacrítico. Por exemplo, se se escreve “coação” obrigatoriamente deve ler-se “cuâção”. E quem não ler deste modo, além de escrever incorreCtamente a palavra, também a pronuncia incorreCtamente.  Dois erros em um.

Mas o mais absurdo surgiu entre a população que, diante da falsa obrigação (que se pensava ser com base numa lei) de aplicar o AO90, desatou a cortar, a torto e a direito, os cês e os pês, o que levou ao aparecimento das maiores aberrações ortográficas (não lhes chamaria erros), como "batérias", "impatos", "ténicas", "fição", "adatação", "atidão", "abruto" e "adeto", além de cortarem também outras consoantes, como, por exemplo, o 'b' em 'ojeção', ou o 'g' em 'dianóstico'".

Enfim, um caos completo, que continua a arrastar pela lama a nossa bela Língua Portuguesa, agora feita num monte de cacos, às mãos de quem não a sabe nem consegue pensar.

Helena Roseta, José Pacheco Pereira e Januário Torgal Ferreira, também subscritores deste Manifesto, salientaram que, no uso de maiúsculas e minúsculas, "o caos abunda e é caótica a forma como se utiliza o hífen, como por exemplo: "guarda-chuva" e "mandachuva", "cor-de-rosa" e "cor de laranja". Mas há muito mais. «Entre outras arbitrariedades, a supressão do acento agudo cria situações caricatas. A expressão popular: “Alto e pára o baile!”, na grafia do AO90 (Alto e para o baile) dá origem a leituras contraditórias, e a frase "Não me pelo pelo pelo de quem para para resistir" fica incompreensível».

E a acentuação e a hifenização também têm a função de facilitar a leitura. Algo que com o AO90 complicou.

E as chamadas de atenção para as aberrações continuam: «Para compensar o desaparecimento da consoante 'muda' e evitar o 'fechamento' da vogal anterior, imposto pelo AO90, na escrita corrente, surgem aberrações espontâneas como a colocação de acentos fora da sílaba tónica, como "correção'"escrito 'corréção', 'espetaculo' corrigido para 'espétaculo' ou mesmo 'letivo' que passa a 'létivo'".

Um caótico "caos ortográfico" que, de acordo com os subscritores do Manifesto, reflecte-se nos dicionários, nos correctores ortográficos, nos conversores, enfim, uma monumental mixórdia ortográfica, que vai cada vez ficando mais mixórdia, à medida que o tempo passa, prejudicando os estudantes portugueses que, coitados, não sabem a figura triste que fazem, ao saber falar e escrever correCtamente o Inglês ou o Castelhano,  mas são uma miséria a Português, falando-o e escrevendo-o “incorretamente” (“incurrêtâmente”).

É, pois, chegado o momento de pôr fim a esta tragédia portuguesa.

Isabel A. Ferreira

Fonte do texto:

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Eis aqui, completo, o poema “Tabacaria” – de Fernando Pessoa, declamado por Abujamra


TABACARIA
Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928

sábado, 21 de dezembro de 2019

Jean-Paul Sartre – a liberdade reside na escolha

Para o filósofo francês Jean-Paul Sartre, o ser humano é livre, e a liberdade reside no ato da escolha. Nós sempre escolhemos, afirma o filósofo, e não há como evitarmos. Quando dizemos que não há opções, na verdade estamos dizendo que não gostamos ou não queremos as que estão disponíveis, pois elas sempre existem.

     
Essa situação evoca uma experiência comum a todos. Imagine: nem que seja o “menos ruim”, é preciso tomar o remédio quando se está seriamente doente; seja por via injetável, seja por via oral, mesmo que nenhuma das duas opções seja prazerosa. Diante disso, podemos ainda escolher não tomar. Porém, nesse caso devemos estar cientes das consequências desta opção; nossa doença pode se agravar e isto é consequência de “não escolher”.

Sartre: não escolher já é uma escolha

Porém, ao escolher não escolher, já estamos escolhendo. Fugir da escolha, portanto, é impossível. Da mesma forma como fugir da liberdade é também impossível. Por isso estamos condenados a ser livres. Seremos sempre forçados a escolher e também responsáveis pelas consequências de nossas escolhas.
Quando fazemos uma escolha entre uma via e outra, julgamos e avaliamos com base nos valores que nos servem de referência. Se não os temos, escolhemos algo para preencher essa ausência. O valor, como seu motor, impulsiona o indivíduo a sempre agir, isto é, a escolher sempre entre um valor e outro, uma via e outra, e a executar uma ação. De qualquer forma, até mesmo nossos valores podem nascer diante das escolhas inevitáveis que temos de fazer.
Nesse sentido Sartre afirma que o ser humano está “condenado a ser livre”. Desde que nascemos até nossa morte, nossa vida consiste irremediavelmente em agir. Essa expressão ressalta a condição paradoxal (e talvez cruel) do ser humano: ao mesmo tempo que estamos condenados a agir, temos também de arcar com as consequências de nossas ações, feitas livremente apenas por nós mediante opções sempre existentes.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A aldeia da Indonésia onde se dança o vira e se canta em português

Quando os holandeses conquistaram a cidade de Malaca a Portugal, em 1641, escravizaram os sobreviventes portugueses e os seus descendentes que viviam nesta cidade malaia. Alguns destes escravos foram a seguir levados para a cidade de Jacarta, que os holandeses crismaram de Batavia (nome que os antigos romanos haviam dado à Holanda) e da qual fizeram o principal centro de actividades da Companhia Holandesa das Índias Orientais.

Aos escravos portugueses e mestiços trazidos de Malaca, vieram juntar-se outros portugueses e respectivos descendentes, capturados e escravizados na Índia, Ceilão e outras paragens.

Tugu

Em Jacarta, os holandeses esforçaram-se por eliminar as marcas culturais portuguesas que estes escravos traziam, obrigando-os a adoptar nomes holandeses ou, pelo menos, com uma sonoridade holandesa, e forçando-os a trocar a fé católica pelo calvinismo.
Obrigaram-nos ainda a viver num pedaço de terra situado a 10 km do centro da velha Batavia, chamado Tugu (Toegoe na ortografia holandesa), que agora se chama Kampung Tugu.
Tugu

Os escravos portugueses e mestiços de Tugu foram libertados em 1661. Foram então chamados Mardijker, palavra que significa “Libertos” e que é originária do sânscrito. É desta que deriva a palavra que em língua indonésia significa “Liberdade”: Merdeka.
Apesar dos esforços feitos pelos holandeses no sentido de levar esta gente a perder a sua identidade própria, ela conservou-a até aos nossos dias, teimosamente.
Estas pessoas continuam a acarinhar Portugal, trezentos e setenta anos depois de lhes terem cortado os laços que as uniam a este país, um país que elas não conhecem e que não esperam poder algum dia visitar, porque está no outro lado do mundo. Mas que é um país que elas também consideram seu.
Tugu
Se dúvidas houver relativamente a este facto, elas certamente desaparecerão depois de se ver a reportagem que se segue, que é de uma estação de televisão indonésia.
A reportagem está em indonésio, embora nela intervenham, em inglês, o embaixador de Portugal em Jacarta e uma leitora de português na universidade local. Mesmo que não se entenda uma única palavra da reportagem, as imagens são sobejamente eloquentes sobre os sentimentos dos Tugus relativamente a Portugal.
Tugu

Menos castigos, menos mentiras

Para que seu filho diga a verdade, é melhor não puni-lo ou ameaçá-lo quando ele mente. Foi isso que foi descoberto em um experimento recente, liderado pela professora Victoria Talwar, do Departamento de Educação e Aconselhamento Psicológico da Universidade McGill, na qual participaram 372 crianças entre 4 e 8 anos de idade.


O experimento foi assim: um pesquisador entrou com cada criança em uma sala onde havia uma câmera escondida. Ele lhe disse que havia um brinquedo atrás dele, mas ele não deveria se virar por um minuto em que estivesse do lado de fora.
Ao retornar, os pesquisadores perguntaram às crianças se elas haviam obedecido às instruções. Os resultados foram os seguintes: pouco mais de dois terços do total virou para ver o brinquedo (251 crianças de 372, ou seja, 67,5%), sendo as de mais idade as que menos se viraram.
Quando perguntados se eles haviam obedecido às instruções, 167 das 251 crianças que ignoraram disseram que sim (equivalente a 66,5%). O mais interessante para os pesquisadores foi que as crianças mostraram menos propensão a dizer a verdade quando sentiram medo de serem punidas. Por outro lado, quando solicitados a dizer a verdade simplesmente agradando os adultos, ou porque era a coisa certa, as crianças ficavam mais confortáveis e com mais ânimo em ser sinceros.
Por outro lado, verificou-se que quanto mais jovens as crianças, mais se concentravam em dizer a verdade para agradar aos adultos, enquanto as crianças mais velhas demonstravam ter normas de comportamento internalizadas, o que as fazia dizer a verdade porque consideravam ser correto. “O castigo não promove a busca da verdade. De fato, a ameaça da pena pode ter um efeito oposto ao reduzir a probabilidade de as crianças dizerem a verdade quando foram incentivadas a fazê-lo ”, afirmou Victoria Talwar.

Humilhar os outros não te faz forte, te faz infeliz

Como é de esperar, na vida nos deparamos com tudo, vivenciamos de tudo e aprendemos constantemente, isso é viver. Nas nossas relações durante a vida, nós iremos interagir com pessoas amáveis, generosas, que nos farão evoluir como seres humanos, mas, em contrapartida, nos depararemos também com pessoas amargas que, por se sentirem inseguras, ferem os outros.


Geralmente essas pessoas têm um complexo de inferioridade, consciente ou inconsciente, e por isso abusam de alguma posição entendida como privilegiada para descontar sua frustração em cima das outras, principalmente quando a vítima está em posição vulnerável.
Quando uma pessoa tenta humilhar outra de propósito, significa que:
1 – Ela tem um complexo de inferioridade em relação a quem ela tenta humilhar.
2 – Ela mesma é totalmente insegura sobre si mesma e em relação as realizações de quem ela tenta humilhar. Constranger e humilhar a outra pessoa é uma forma dela satisfazer seu complexo, criando uma falsa sensação de que seja superior.
3 – Sente-se ameaçada perante o potencial da suposta vítima e agir assim é uma forma de “botar o outro no seu devido lugar”.
Submeter outra pessoa a uma situação de humilhação não é um indicador de superioridade, mas o contrário é válido. A imagem que você vai conseguir passar de si mesmo é apenas a de uma pessoa fraca, frustrada e talvez com muito medo da outra pessoa a qual você esteja destratando.
Avalie-se e veja se o desdém, o descaso e o nojo que você coloca no seu tratamento em relação a uma pessoa de posição hierarquica inferior, não é apenas um modo de “marcar territótio”, um modo de mostrar quem manda, quando na verdade só está incoscientemente procurando se auto-afirmar perante si mesmo.
Humilhar outra pessoa não vai te blindar, não vai criar uma armadura impenetrável onde você possa se proteger de seus prórpios demônios. Fazendo isso você apenas estará escancarando sua personalidade frágil, mostrando aos outros o quanto é infeliz e que precisa pisar em alguém para se sentir um pouco melhor.
O certo é que você jamais terá o respeito daqueles a quem você constrange; talvez, no máximo, consiga despertar medo e, com certeza, muito ódio e desprezo daqueles a quem você humilha. Mas, se causar esse tipo de sentimento dos outros em relação a você é o que te apraz, deve ser porque, com certeza, você é uma pessoa com sérios problemas e deveria procurar ajuda.
Quem já esteve em situação de ser humilhado sabe que a “vítima” nunca enxerga aquele a quem lhe humilha como superior, portanto, tentar se impor por essas vias com o propósito de se afirmar sobre a outra, é apenas uma forma de mostrar sua fraqueza diante dela, que não reage por outros motivos que implicam em perdas e prejuízos a si ou a outrém a quem queira preservar e proteger, jamais pelo respeito que, evidentemente, não tem mesmo pelo humilhador.
Crédito da imagem: Kelly Vivanco