sexta-feira, 17 de maio de 2019

"Agora que o Sean Aprende a Ler" ( 2 )

Continuação de: A Lenda da Caparica - CAPA RICA Extractos de um conto inserido no livro " Agora que o Sean Aprende a Ler "

Texto e fotos cedidos gentilmente por J Maciel Costa, com os meus agradecimentos:


A Costa da Caparica, uma frente marítima de extenso areal, corre desde S. João até à Fonte da Telha.
No fim dos anos 70, chegando o verão, desaguava lá um mar de gente.
Com o advento da ponte a unir as margens do Tejo, maralha da grande urbe lisboeta e das cercanias, tombava naquele espaço onde erguiam altares de adoração ao grande círculo irradiante, o sol, que lhes apequenava os olhos e escaldava a pele: alçavam o guarda da sombra, estendiam toalhas – de banho e de mesa, pois não raros por lá comiam – estufavam o peito para alisar o descaimento e prostravam-se em submissão para que aquele deus lhes fustigasse as costas.
Em alguns sítios, em enchendo a maré, o difícil era encontrar um lugarzinho onde coubesse, junta, toda a família... e mais a cesta da pinguinha e do pastel.
Partilhavam esse espaço os que mais dele precisavam: uma gente marinheira que ganhava a vida por meio da arte xávega, uma forma de pesca artesanal de cerco, em que o xalavar, a rede aparelhada em forma cónica, é puxada desde a praia por um longo cabo.
À chegada, as embarcações e rede eram puxadas até seco por animais – bois - e força braçal que se compunha não apenas pelos pescadores e sua família mas também por muitos mirantes ocasionais que alegremente se juntavam aos demais no esforço da recolha. 
E esta era a fauna local.
A estes misturavam-se temporariamente outras gentes, de outros locais e distantes proveniências, peregrinos que arribavam ao santuário da luz quente, falando línguas diferentes, de corpos despigmentados, quase translúcidos: turistas.
Annejet veio como um destes.
A vila, andava crescendo em restauração, hotelaria, comércio e residentes permanentes e outros mais abastados, sazonais. Havia portanto onde tomar albergue, adquirir lembranças, onde passear e apreciar a gastronomia rica em bivalves marinados como amêijoas à Bulhão Pato ou as cadelinhas com alho.
Annejet porém, mais a mãe que queria escurecer, e mais a tia que tentava ganhar cor, ganhavam o dia na praia. Isso das comezainas era mais para o padrasto que sofrendo de um aleijão numa perna, preferia andar com os amigos a visitar todas as mesas, evitando, também assim, abaixar a perna da calça.
Jovem, bela e diferente, logo logo conheceu uma chusma de adolescentes da vasta comunidade estudantil que de todo o concelho ali ia a banhos e namoros.
A tia, que curiosamente até era mais nova, arisca e desembrulhada de conceitos foi a primeira a deixar-se conhecer e ser conversada pelos arremedos de macho latino que vendo- as, abotoaram-se com o espaço que à volta delas pudesse haver.
Uma bola desencaminhada, uma areia que respinga do pé apressado: “Sorry” e um risinho palerma fizeram a aproximação.
Em inglês se entendiam. Elas, fluente e desembaraçadas, eles resumidos ao presente simples… quando acertavam… porque muitas vezes aquilo nem tempo verbal conhecia. Em Portugal o ensino da língua francesa era, por essa altura, oficialmente predominante e academicamente nuclear.
Certo dia, já ela por ali andava há duas semanas, viu o grupo agitar-se, levantar-se e caminhar alvoroçado até às escadas de pedra que conduziam do largo passadiço à areia. Pareciam felizes e recompensados. Alguns braços despertos agitavam o ar em excessivo aceno.
Quem por lá descia sorria a gosto. Sem suspender o movimento, deixou-se prender e envolver pelos que aí vinham.
Choveram cumprimentos: longos abraços da rapaziada, apertados beijinhos da raparigada.
- Caramba! Andaste perdido ou quê? Não tinhas ficado de regressar no dia 15?
- E voltei! Só que depois fui com os pais uma semana a Sesimbra. Venho enfastiado de espadarte. – Foi dizendo - Mas o Ernesto sabia disso, telefonou-me. E onde é que ele anda? Não o vejo.
- Arranjou um trabalho para as férias. O artolas… depois de um ano de livros…
E foram conversando, perguntando e respondendo, dizendo, esclarecendo e contando, umas por cima da voz dos outros.
Em tom tranquilo e paciente o recém-chegado a todos dava uma palavra, com todos anuía, a ninguém contradizia. E esta era a primeira cor do seu carácter: …
A sua aparência e atitude era distinta dos demais. Sem nisso empenhar qualquer esforço parecia ter sobre os outros uma qualquer influência benigna. Junto a ele nascia uma certa calmaria, amansava a fúria de viver depressa, fútil, inconsciente e descompassada. Era como se um maestro erguesse a batuta e todo o executante aquietasse e suspendesse o ensaio. Aguardava-se. 


Aos poucos aquietaram-se e conduziram-no até ao ponto de onde partiram. Perto dela.
Pedro, um amigo miúdo de corpo e olhos, miudinho na maneira ser mas de enorme afeição e amizade para com os outros, chegou-se a ele e tentando rodear-lhe os ombros, com rosto sério e fala entaramelada, disse:
_ Aquela, - apontava para Annejet – é minha namorada, é holandesa – como se isso fosse fazer diferença – e por favor não lhe deites o teu feitiço.
Olhou na direcção indicada e notou-lhe a beleza. 
“ Hum… uma estrela em pleno dia ?”
“ É bela: admiro-a”
Há ali um fogo que apenas ela aprisiona,
Um perfume de cristal em si vertido.
Uma chama confinada que, se solta, apaixona.
O altar pagão onde o crente ajoelha vencido.
- Que é isso de feitiço, menino? Olha que não te entendo.
- Tu sabes… agradas a todas. Já nem sei o que digo, desculpa.
- Ai, ai. – Repreendeu amavelmente – Tu e as tuas paixonetas… Guarda os receios num saco e com eles a tua ninfa. Isto é verão, tempo de abracinhos descomprometidos. Chegando Setembro… uma dorzinha no peito, uma noite mal dormida e pronto, ficas pronto para outra.
Sai o pássaro da clareira do bosque procurando uma fonte escondida, sabendo que caem mais depressa as folhas multicoloridas que as de verde, apenas, vestidas.
Estava vestido a férias: usava sobre o corpo uma singular túnica de linho branco onde no peito se percebia uma pequena marca azul; bermudas de ganga, igualmente brancas, descobriam-lhe as pernas do joelho para baixo; como calçado umas socas de madeira e borracha de rastro, que se mantinham nos pés por meio duma ponte de couro pintada de branco. No pescoço amarrava um lenço azul de algodão e, trazia alçado às costas uma mochila pequena, impermeável, do tipo militar que pedira para tingir de azul.
Desta retirou uma toalha e recolheu ao alforge o que ia despindo.
Rosto simétrico, um tanto bronzeado, encimado por longo cabelo que lhe caía até aos ombros, com leve brilho metálico que lhe causava o sol do verão, o iodo e sal marinho que as ondas da praia lhe emprestaram e impregnavam a pele.
Não havia sido, em verdade, a água do mar uma das primeiras terapias usadas pela humanidade tanto para fins estéticos, como para fonte de bem estar e saúde?
O corpo, despido de preconceitos e agora recolhido apenas num calção de banho, apresentava a mesma tonalidade.
A tia de Annejet, despudorada, aplicava na sobrinha rápidas e notórias cotoveladas. Queria com isso significar que apreciava o que via.
Annejet, doendo-se e também incomodada pelos movimentos reveladores, pespegou na tia um olhar suplicante e uma palavra nativa:
- Wat? – O quê?
E a tia: - Het beste lanschap van zee kust!
A jovem sorriu-se disfarçadamente pela alegoria, a maneira indirecta de expor a ideia sob a aparência de outra.
Mesmo não concordando na forma acordava no conteúdo.
Até porque, parecia-lhe, era uma imagem já antes vista ou por si passada. Não sabia dizer quando, mas sentia no seu mais profundo ser que algo assim já acontecera. Sentiu um arrepio, mas não por medo.
Um vulto atrasado, o reflexo impregnado dum momento anteriormente vivido.
Sacudiu o pensamento e erguendo-se foi ao banho salgado.
Pedro, que estava à espreita, foi logo atrás. Ela olhou-o e seguiu em frente, indiferente.
Nem uma palavra cúmplice, um gesto ou atitude partilhada. Somente ela ia, e ele por perto, guiado, mesmerizado por inaudíveis notas de uma flauta invisível.
“ Hum… essa da namorada… é mais um desejo, não uma coisa acontecida ”.
Não tardou muito e já todo o grupo se comprazia na água amenizadora que lhes esfriava os corpos quentes do brasido. 
Saltos, mergulhos, espadanar e chapinhos componham os folguedos e divertimento da turma adolescente. Alguns quiseram puxar pelo corpo e desataram em vigorosas braçadas para além de pé. Ele foi um e ela também lá foi.
Perto um do outro, fazendo movimentos circulares de braços e pernas para conseguir a flutuação, respiravam com brevidade e recuperavam o fôlego. Então encararam-se pela primeira vez.
- Hi! – A jeito de cumprimento.
- Hi, I’m Annejet.
“ Jesus, que doçura de voz! Que colmeia premiada originara este mel? “
- Excellent crawl swimming of yours – Disse, sem saber o que dizer.
- And yet you´ve beaten me. – Elogiou-o.
- Porque eu tinha uma forte motivação: julguei estar a nadar junto a uma sereia. – Ele pensava assim dar-lhe a melhor vénia.
Entretanto chegavam a tia e o Pedro causando fim ao têt-à-têt.
Observando as consequências, analisando os dados, previdentemente para travar ou pelo menos diminuir a velocidade dos danos que causava o elevar do nível das águas do mar, a erosão costeira que desfazia a falésia, absorvia as dunas e tragava areias, fez-se construir frente à zona habitacional robustos esporões de rocha que deram origem a pequenas porções de praia confinadas aos limites das obras.
Essas praias, em boa maioria, tomaram o nome de bares e restaurantes que lhes davam apoio de retaguarda.
As praias do Tarquíno, o Dragão Vermelho, Delícias da Praia eram algumas delas.
Numa dessas a que o jovial grupo acorria, o Laurentino muitas vezes ajudava os pais atrás do balcão, ou então servia petiscos e cerveja fresca na esplanada em horas de maior afluxo de clientes.
O Laurentino era entre os amigos aquele que juntamente com o Ernesto, mais privava fora da escola com o recém-chegado. Foi com ele que ela foi ter.
Tinha passado o resto do dia a procurar saber do novo banhista. Tivera, não obstante a persistência, pouco sucesso.
Que se tinha matriculado na escola havia apenas 3 anos e ninguém conseguia dizer de onde vinha; que era aluno de honra e feitos atléticos pese embora a descontração nos estudos; capitão das equipas, vencedor de provas individuais; que lia bastante fora das matérias de aula; ai jesus das meninas e notado pelos docentes, respeitado por funcionários e colegas e parceiro recorrente em assuntos da direcção. Que do seu lado privado não sabiam.
- Pergunta ao Laurentino. – Aconselharam.
- Bem… - e coçava a cara o Laurentino – que sei eu mais que aquilo que te disseram? Pouco, acho eu.
Que era duma família de origem antiga, cheia de tradições. Que, por não ser o primogénito tivera uma de duas escolhas: o seminário aos 10 anos, ou a academia militar aos dezoito. Que tivera preceptor do clero e que isso se notava. Que em boa verdade não sabia de onde vinha, apenas sabia que ia muitas vezes aos Açores e ao Minho; que ainda agora de lá chegava.
- No more. – Tentou concluir num inglês truncado.
- Any girlfriend? – Atreveu-se acabrunhada.
Nada que isso se pudesse chamar. Uma ou outra mais chegada, fugaz.
“ Se agradar a uma, vou magoar muitas mais” usava dizer.
Abominava magoar alguém sabendo que o fazia.
Estava como que aturdida. A sua sempre desobrigada mente, a sua vontade invariavelmente por si comandada via-se agora inexplicavelmente comprometida, assoberbada em entender, saber, com quem lhe parecia querer cruzar-se a vida.
E quanto mais procurava menos encontrava.
Na manhã seguinte, já de longe tentava penetrar com o olhar por entre a muita gente que se encontrava no areal, no seu lugarzinho do costume, a ver se via quem queria. Mas era cedo. 
E para mais ele, que chegava nem sabia donde. Viria dos lados de Almada.
Pela tarde, depois de uma ligeira refeição, composta por uma salada de vegetais e fruta e boa quantidade de água, tomada sem sair da praia, pediu-lhe:
- Passas-me o protector solar nas costas?
A sua pele era delicada e alva; um descuido e sobrevinha um escaldão.
Claro que sim, fazia-o “delighted”.
Sentiu sob as polpas dos dedos dele o leve tremor que a sacudia.
E nela, das suas fibras, tange um arremedo de sextilha:
A viagem das tuas mãos em meu corpo desliza.
Sinto-as perfeitamente. 
Percebo que os teus toques,
em ousada pesquisa,
cinzelam-me na tua mente
sem enganos, sem retoques.
E uma paixão assim, quando chega não avisa.
Não refeita da devassa que sentiu que ele fizera ao seu ser desagasalhado, balbuciou: - Do you need some? 
E apresentava-lhe o creme.
- Niet, dank.
- Spreken nederlands? Surpresa!
- Não. Apenas algumas palavras que devo ter aprendido em tempos. Já nem sei quando nem onde. Tenho a vaga lembrança que precedeu uma crucificação voluntária em que levei a cruz e os pregos.
Não entendeu. Um enigma lançado pela pouco visível pessoa.
Confusa: - Ah! E o creme, não queres mesmo?
- Não preciso, incumbo dessa protecção os meus pigmentos.
Depois… houve embaraço. Não sabiam como seguir a conversa e então acariciaram-se, sem perceber, com os olhos.
E constituiu isso o melhor momento, até então.
Desde então passaram a criar ocasiões para estarem sós. Falavam disto e daquilo um nada e nada daquilo que acima de tudo queriam.
Caminhavam juntos, no sítio onde a onda desmaia; os corpos quase se tocando, andando perto… quase juntos, sabendo que geminadas andavam, entrançadas, as suas almas.
Uma tarde, Annejet estendeu a mão esquerda para que lhe notasse as pontas dos dedos. Tinha envernizado a unha do polegar e a unha do dedo mindinho de rosa claro.
- Do you know what does this mean? – Perguntou.
- Nope. – Disse brando e suspeitoso.
Branda e descarada, ensinou: - It means I love someone but he didn´t realize…yet. 
- Should it not be too odd on a man’s finger and I could wear something like that as well. – Replicou surdamente enquanto escapulia.
Não que quisesse fugir ao tema, só porque havia silêncios que falavam mais alto que a voz.
No verão há sempre um dia em que chove. Dá-nos um banho diferente. 
De repente, uma nuvem grávida aparece e, indecente, derrama as águas sobre a gente.
E choveu! Num fim de tarde. 
E todas e todos correram ao refúgio do guarda-sol.
Mas esse não é feito para isso e a água trespassa o pano. Nenhum escapou ao banho e mais do que isso, houve roupas e pertences encharcados. Acabou-se o dia.
Annejet pensava como iria resolver a questão de entrar no hall do hotel com o cabelo assim molhado, de corpo desnudado. Que embaraço.
Nada que o seu paladino não a adivinhasse, não entendesse.
Resolveu. Abriu a mochila impermeável e de lá tirou a solução.
Entregou-lhe a túnica branca marcada por minúscula letra azul vibrante.
- Leva-a como agasalho, usa-a e guarda-a. Tem nela o branco dos anjos e a ponta azul do paraíso.
A partir de agora é tua. Condizem uma com a outra.
Ela, contente, mas previdente : - Então e tu? Como vais para casa? Não é verdade que tens de viajar até lá chegar?
- Hey! Tanta pergunta. Tanta cautela comigo. 
E tranquilizou: - Vou ali ao Laurentino e ele há-de emprestar-me uma camisa. Como passa aqui o verão, tem de certeza muito para vestir.
No último dia em Portugal, na véspera de partir o coração, de quebrar o encantamento, ele pediu-lhe a morada e ofereceu um anel.
Coisa simples que ele urdiu com missangas. Era branco, estreito em baixo e ia alargando até formar um quadrado onde a azul bordara a letra M.
- M de quê? _ quis saber a ofertada.
- Nada de interessante; uma inicial dum nome da minha família.
Nessa noite, pela primeira e única vez a mãe deixou-a sair a passear.
Mas não iam sós. Uma ceifeira da dor, mondadeira do desgosto por eles rondava, teimava em usar a gadanha naquela ceara de amor.
Que tememos nós, se estamos sós,
à mingua da beira do outro?
Onde vamos nós, um dia após
da ida, partida dessoutro
cuja barca não espera,
pois há muito intuía 
que a vida curta desespera
por um amor de um dia.

Os seus rostos aprisionavam-se cada um refém do outro; mãos dadas, engalfinhadas, temendo a chegada da hora.
Mas o tempo escapava e antes que fossem embora…
- Espera, – pediu ela – vem até aqui que quero mostrar-te um quadro.
A areia molhada recebia com precisão qualquer leve pressão. Ela pediu-lhe que pressionasse o chão e lá deixasse a marca dos seus pés, ligeiramente afastados.
Causa e efeito. Deu um pulo e estava feito.
Então ela, suavemente imprimiu os dela entre os dele. Afastou-se um passo e envolveu o baixo relevo num coração desenhado a dedo. 
E Corou.
E ele percebeu…
Percebeu que era frágil. Reconhecia as fraquezas.
Tinha porém este temperamento; marcas que lhe gravaram na alma em tempos e que o tempo aprofundou: era, para alguns um farol, a carta de navegação; se ousar sair do itinerário, inocentes se perderão.
Então: manteve a vida a prumo.
E dando-lhe antes um aceno, um doído olhar final àquela confissão, foi-se embora.
A viagem de regresso à Holanda, longa de dois dias em carro, foi um martírio. Nada conseguia comer de apertado que tinha o estômago, nada a distraía de pesada que tinha a mente. A posição contínua no carro, nem a incomodava de dorido que estava o espírito. 
Vestiu nos dias assim passados a preciosa branca túnica ornada da pequena letra ocultada de cor azul.
Entre as mãos enclavinhadas, uma folha de papel com um endereço anotado. Era o fio que lhe prendia o ser, a amarração a um cais sonhado.
Na cabeça surgiam em burburinho as letras palavras que lhe escreveria, o que dizer, para o fazer saber, em quantas saudosas milhas o seu amor crescia. 
Num dedo o elo dele.
Ele nem foi à praia por uns dias. Não conseguiu.
Quando voltou viram-no macambúzio. Sorumbático vagueou sozinho por pontos previamente decorados.
- Viver também pode ser triste. – Confidenciou aos amigos.
Sarcástico Pedro dizia: - Deixa, é um amor de verão… Quando chegar Setembro.. um dorzinha no peito, uma noite mal dormida e pronto, ficas pronto.
O malandro julgava tirar a desforra e enganava-se.
--
Uma semana depois, Annejet recebeu devolvida a carta que lhe tinha enviado. No rosto do sobrescrito, a vermelho estampado, trazia escrito: “ Desconhecido nesta morada “
O mundo fechou-se e ela nem à porta chegou.
Passados 6 anos, já adulta, Annejet voltou a Portugal. Inconformada, foi onde poderia obter dele notícias.
Ao restaurante de praia dos pais do Laurentino.
Que alegria, que satisfação; bem se recordavam dela menina, sempre educada sempre acompanhada por ele e pela tia.
O Laurentino não estava, fizera-se marinheiro e andava no mar do Canadá. Era agora um oficial da marinha mercante. Estava casado e já lhes dera um neto.
Dele nada sabiam, apenas…
Tinham com eles guardada uma carta que ele lhes deixou para que a entregassem a ela. Tinha-lhes dita, na altura, que ela viria um dia.
“Se me lês é porque tudo está bem, que se acertam os ponteiros.
Navegaste alegremente até à baía do meu peito, julgando inocente aí encontrar abrigo. 
Porém as águas do meu porto são profundas e escondem perigos, são onde começam os abismos. 
Na enseada que aportaste apanhou-te a tormenta, a tempestade imperfeita; o vento arrasou-te as velas quando querias calmaria; lamento.
Se desejas um culpado, culpa o dia em que nasci. Mas condescende por um instante, repara benevolente que nem nisso tomei parte.
Mas tudo isto não é mais que um momento, é um dente lascado da engrenagem aveludada que um dia nos governará a vida.
Minha mãe para me ajudar, deu-me a ler o livro do tempo e foi aí que encontrei como encontrar a nossa hora. Descobri o hiato temporal onde por nós passa o futuro. Já sei o que fazer, como ludibriar o destino, na parte que alguém, descontente, me traçou no passado. 
Lembras o dia que falei numa crucificação, e da cruz que levei? Pois desta vez enganei-os, não levo comigo os pregos.
É por esta razão que te digo, com convicção asseguro:
Um dia eu vou-te buscar.”
 
Corria outro dia quando acordou. Estremunhada lançou pernas e braços fora das cobertas e olhou o outro extremo da cama: Ali estava, não fora sonho. Ainda ontem nem imaginara.
Vinha dele um manto de ternura, a imagem da paixão e dizia… 
***
Annejet em holandês significa adorável e graciosa e era nome bem apropriado para ela. Dócil e amável de índole, agradável, com graça de figura. Já assim o era aos 17 anos de idade e ainda, decorridos 20 anos, assim permanecia, só que mais maturada, mais intensa na forma e no carácter.
Era como uma rosa branca que floresce, desabrocha e cresce mas, mesmo que polinize, é sempre branca, é sempre flor.
Nesse dia tinha caminhado até Place de l’Albertine, de onde, num salto a pé coxinho estava no parque Mont des Arts. Não mais longe tinha a Biblioteca Real onde podia facilmente recolher em literatura o que fosse preciso.
Gostava de ali ir quando necessitava de mentalmente arranjar espaço para rever o material que havia de enviar para a sede do seu ‘krantenpapier’.
A sua vida profissional de corresponde em Bruxelas deixava-lhe tempo suficiente para respirar a vida, para rever os passos. Também... tirando o editor que por vezes lhe azucrinava os ouvidos e lhe enchia a caixa de correio electrónico, não tinha, a bem dizer, a quem mais prestar contas.
Escolheu um dos bancos de madeira que se escondia num recesso dos arbustos em frente a folhosos plátanos cujos troncos pintam até meio de um produto fito acético colorindo-os de branco.
Daí o seu olhar caía por uma ou outra vez em quem caminhava no passadiço de lajes passando frente ao ‘Blue Box’, de singular aspecto: um paralelepípedo vidrado.
O Monte das Artes pela sua central e elevada posição, quer pelos diversos edifícios e monumentos circundantes quer por todos os outros que do alto se pode avistar é um ponto de grande interesse turístico. Num único quarteirão junta arte e cultura em ambiente de charme e relaxe.
Era sempre uma distracção e exercício de dedução procurar entender de onde provinha, que nacionalidade teria este ou aquele visitante.
Nesse dia, num desses olhares de soslaio notou que alguém parara e mantinha sobre si atenção. Não era insultuoso ou algo que se parecesse; olhava educada e amavelmente. Um leve sorriso parecia ir surgir a cada momento.
- Pardonnez-moi,- desculpava-se – mais je la connais!
Semi-espantada, meio admirada, arrastadamente disse:
- Oui…nous nous connaissons, je crois!
- Oui, je dis! Conhecemo-nos. Estou aqui por ti.
Aquele modo breve e claro, determinado, confiante de afirmar… aquele antigo olhar naquele inalterado rosto…
Claro!
- It´s you, it´s you,- disse ela em alegre crescendo – blow me!
E como a celebrar a epifania, nesse altura desatou a repicar o carrilhão do Relógio de Sol de Kunstberg que ali mesmo ao lado lustrava uma fachada. As suas figuras, entravam e saiam de cada nicho a acompanhar o toque das horas e pareciam rejubilar.
*
*
Duas décadas antes, a mãe de Annejet, viúva, casara em segundas núpcias com um arquitecto português que havia demandado as terras baixas procurando melhores proveitos e trabalho sustentado.
O emigrante, orgulhoso da sua terra, do seu sol, bonomia das gentes e da boa e farta mesa, tratou de aí levar a férias a sua recente família. 
E Annejet conheceu um pedaço de Portugal.
E Annejet viveu um pedaço.
Todas as ruas têm esquinas. Por vezes nelas um encontro encarrega-se do reencontro em que um coração gentil pula de palpitações, refaz-se e amplia ecos de recordações.
Quando se escoou o alarido que o relógio de sol fizera, ela de olhos luzidos, escarlate de emoção, apenas disse:
- Porque vieste ?
- Já antes to disse. Já o escrevi.
E em tom triunfal…
- Resgatei-me, rasguei os manuscritos. Desci do cruzeiro.
- Venho buscar-te!
                         
Corria outro dia quando acordou. Estremunhada lançou pernas e braços fora das cobertas e olhou o outro extremo da cama.
Ali estava, não fora sonho. Ainda ontem nem imaginara.
Estava ali na sua frente o motivo da presente falta de dor.
Vinha dele um manto de ternura, a imagem de outrora, o preencher do vazio em que antes sucumbira e que agora calado lhe dizia: “ Sou eu mesmo meu amor”.
- Quero guardar em mim o infinito deste instante, quero que não fique em ti a nódoa de um pior momento. Sabes, quando à poucos anos nos vimos, não nos vimos, revimos; quando julguei que te encontrei estava sim a reencontrar, foi a altura em que o tempo reuniu as nossas vidas.
Ressoa o passado que em si habita
como dança em chão de sobrado,
ou corda tensa dum acorde inacabado,
e renovado, de si escorre e não hesita.
Julgando, por fim entender…
Procurou a túnica de linho que ele lhe dera e não a viu. No seu lugar estava uma capa que, ainda que se percebesse ser na origem de grande qualidade, estava desfibrada e gasta.
Num relance intemporal surgiu-lhe uma visão dum passado inacabado. Algo que alguém, lá, fosse onde fosse, lhe pedia para resolver.
Por impulso incompreensível correu a abrir a sua caixinha de joias:
Na sua relíquia de missangas, o frágil anel que ele lhe oferecera, chispava agora imponente uma águia dourada de asas estendidas.
*
A girândola da vida repetia o trajecto, pois que, circulando sobre si mesma fez o regresso ao princípio.
- Dás-me uma filha?
- Dou-te quantas quiseres, Philipe.
FIM


Almada-17-05-2019

O melhor miradouro com vista para a cidade de Lisboa

Cristo Rei, ex- líbris de Almada
O Santuário Nacional de Cristo Rei situa-se a uma altitude de 133 metros acima do nível do Tejo, sendo constituído por um pórtico projectado pelo arquitecto António Lino,com 75 metros de altura 
 

De braços abertos voltado para a cidade de Lisboa, com 28 metros de altura, obra do escultor português Francisco Franco de Sousa. O pedestal, incluindo o pórtico, eleva-se a 82 metros de altura. O santuário e monumento a Cristo Rei constitui a maior atracção turística do concelho de Almada.Este monumento é o melhor miradouro com vista para a cidade de Lisboa, oferecendo uma ampla vista sobre a capital e sobre a Ponte 25 de Abril. Em numerosas reportagens turísticas sobre Lisboa surge o santuário e monumento a Cristo Rei,
Abertura 17 de Maio de 1959:

quinta-feira, 16 de maio de 2019

"Agora que o Sean Aprende a Ler" ( 1 )

Conto:
Texto e fotos cedidos gentilmente por J Maciel Costa, com os meus agradecimentos:

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas


Al-ma'adan ( a mina ), Almada havia sido tomada pelo rei português com auxílio de cruzados do norte da Europa. O seu castelo era ponto de elevado interesse estratégico.
Daí, em seu redor e por toda a costa limítrofe instalaram-se novos povoadores, alguns mesmo membros e familiares dos que de longe ali foram a ajudar na derrota e saída forçada do “infiel sarraceno “.
Cruzados eram elementos do movimento militar de inspiração cristã, que à época era chamado de peregrinação, criado na sua génese para partirem à conquista de Jerusalém que estava sob controle de turcos muçulmanos, mas também acorriam onde reis cristãos combatiam, expulsavam e integravam o processo de reconstrução do antigo Império romano.
Num impulso civilizador e com esse fim, criaram-se ricas e poderosas Ordens.
A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão conhecida como Ordem dos Templários, assim chamada em decurso do Monte do Templo, onde existira o Templo de Salomão em Jerusalém, foi uma delas, sob o lema de castidade, pobreza e obediência.
A sua importância e poder chegou a tal ponto que o papa emitiu uma bula declarando que a não ser ao próprio papa os templários não deviam obediência a qualquer poder, fosse ele secular ou eclesiástico.
Jacques de Vitry traça os Templários como "leões de guerra e cordeiros no lar; rudes cavaleiros no campo de batalha, monges piedosos na capela; temidos pelos inimigos de Cristo, a suavidade para com Seus amigos".
Ora, Philipe da R.M., não sendo um templário acolitado ou professo, nem aos seus dogmas esotéricos e místicas atido ou comprometido, partilhava com eles da humildade, caridade e espírito de missão. Tanto assim era que a eles se juntara e andava em preparo para partir para o Oriente na leva da quinta cruzada que Frederico II organizava.
Monsieur, o pai que fora combatente da primeira cruzada, viera de França para contribuir com as suas tropas nas primeiras conquistas e por cá ficara e estabelecera Casa e senhorio.
Ao seu nome as gentes locais, menos educadas e com o aparelho fonético mais aberto, adaptou o som e transliterou a escrita.
A Philipe, sendo o segundo filho, foi-lhe destinado o terço e a espada. No entanto era, por ora, mais o terreiro que a abadia que lhe ocupava o tempo, onde praticava regularmente exercícios de adestramento militar. 
Era, por tal sinal, o instigador da moral, um motivador no campo da batalha.
Acolhido em Almada, aguardava o dia em que, com os demais cavaleiros, embarcaria na pequena armada de barcos de vela que enfunaria a se juntar a uma outra maior.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e ar livre
Ocioso na espera saía amiúde a largos passeios em que tomava profundos sorvos de paz, tranquilidade e momentos para reflexão. Acabou assim por conhecer todo o território vizinho.
Um dia, foi conhecer uma povoação ribeirinha. Um pouco de gente, que vivia primordialmente da faina ligada ao mar, ocupava as esparsas habitações.
Não encontrando aí motivo de interesse, passou para além das dunas: um ecossistema natural, simples e sensível que faz a transição entre o meio terrestre e o ambiente marinho servindo de bloqueio às infracções das subidas do mar por meio de vegetação endógena.
E, fez face a um extenso areal que se deixava molhar pelo chegar do Atlântico.
Não longe percebeu uma figura feminina. Alguém se entretinha a colher conchas. Tão graciosamente o fazia que colheu, do mesmo modo, o seu olhar curioso. “Uma donzela”, deduziu pela falta de touca ou rede nos cabelos.
Desmontou e foi-se aproximando mansinho, com o cavalo pela rédea. Não pretendia assustar a delicada criatura.
A jovem, no entanto, sentiu o surdo bater dos cascos na areia que sob o peso do animal gemia e, desdobrando a cintura, retomou a normal postura enquanto procurava o que ou quem por lá vinha.
“Um senhor e sua cavalgadura”, conferiu em pensamento. “Proeminente”.
Com efeito, a imagem que se aproximava não deixava margem a engano. 
Sobre a excelência do material das calças e da casaca de seda bordada trajava uma túnica de fino brocado sem mangas, adornada com um brasão de armas. Uma capa.
A vestimenta de passeio não dispensava, embainhada, uma espada de grande dimensão, manejada no combate a cavalo.
Manifesto cumpridor do código de cavalaria, mormente a coragem, a lealdade a generosidade, bem como a noção de amor cortês, foi dizendo:
- Nada receeis, sou de bem e venho por bem.
A sua voz, de notável timbre e dicção, soa apaziguadora e tranquilizante.
- De onde és? - Foi perguntando o cavaleiro.
E ela querendo dizer pouco, mas afinal causando mais interrogações: - Daqui e doutro lado, Senhor.
- E que outro lado é esse? Porque viajaste? – Encorajou.
- Minha mãe para aqui me trouxe para que meu pai nos tivesse a seu lado. Viemos de terras frias de onde meu pai, ilustrador, saiu para reproduzir em tela a glória guerreira do seu Senhor.
Suas vestes eram simples e limpas, de bom pano e delicado corte. A brisa erguia e desalinhava o longo cabelo claro que assim melhor ligava com os seus irrequietos olhos de água e pálida tez.
Fascinado com tão apelativa imagem; assim tão terna e submissa a falar, Ph. permitiu-se incomodar:
- Perdoa se pareço intrometido.
- Não me sinto intimidada. - Revelou - O vosso modo de falar e modelar atitude ensina que nada devo temer.
_ Alegro-me por te não causar temor. Não fosse assim e daria costas; jamais imporia a minha presença.
- Conta, então, mais sobre o teu país.- Pediu.
- Somos os filhos dos frísios e vivemos junto a uma outra costa. É sobretudo uma terra alagada pelo mar. Lá, como neste lugar, o mar domina. Há, porém, além das praias, dunas e marismas, vastos pastos e até mesmo densas florestas. Passamos curtos estios e gélidos prolongados invernos.
Ela falava, ele ouvia, Ela movia-se e ele seguia. 
Sentia algo novo, em crescendo, algo que dentro do seu peito já haveria e ele nem suspeitara.
Ph. tinha dedicado a sua mocidade, vigor e motivação a expulsar o invasor e agora, numa pausa do seu desempenho, sentia-se confortadamente invadido.
Ela sorriu e o intrépido soldado, sempre arrojado e indomável nas mais encarniçadas e sangrentas liças rendeu-se àquele encanto.
Soube que, ainda que o quisesse, não saberia como resistir.
Todo o resto da tarde passou ele a seu lado. Viu, admirou, comentou as suas conchas: umas pequenas e frágeis, outras mais robustas com cores metálicas.
Falou de si e o que fazia, soube dela o que pretendia.
Quando notou que a luz do dia em breve acabaria, galantemente despediu-se prometendo voltar no dia seguinte.
O caminho de regresso pareceu-lhe curto e o tempo nisso gasto sumiu-se; consumiu-se no turbilhão de sensações e na recordação daquele instante eterno em que a viu. A mente possuía-o. 
Descobriu em si um novo poder: o de poder amar.
Não era ela que era diferente, todas as outras é que eram entre si iguais.

A imagem pode conter: céu, oceano, ar livre e água
Passou a noite em desassossego, inquieto. Notou, e nunca antes o fizera, o bafio do quarto, a vetusta decoração, o peso bolorento das arcas que lhe acomodavam os pertences. Notou a estreiteza das frestas que não lhe anunciavam novo dia, o frio do chão lajeado, o caminhar desajeitado da ronda da guarda.
Longa foi a noite. O melhor dos homens está condenado a exaltação emergente, a pensares devocionais, ao explodir dos sentidos pela noite longa e solitária.
Os primeiros alvores encontraram-no já preparado para sair. A lua devolvia a luz ao sol nascente como um reflexo dos olhos entrega a paixão ao peito; a penumbra cedia e era esta a maravilha que mantinha os astros apartados.
Havia mandado preparar a montada e escondendo com a capa o corpo do fresco matinal, desatou numa frenética cavalgada. 
O seu olhar determinado revelava a pressa, o seu corpo dobrado, sacudido ao galope do animal, indicava anelo e forte ânimo.
Ela amanheceu como se deitara: pensativa, queria entender por que processo de alquimia passava a sua vontade; que prodígio a tomara que lhe mexia no sentimento; que cores da paleta da vida lhe cabiam na futura existência.
Encontraram-se no mesmo ponto do dia anterior. Ela não conseguindo esconder o enlevo, ele mostrando contentamento.
Os olhos, são num a casa do mel, o invólucro da lágrima, no outro são a terra do fogo, a pátria dos desejos. Mas por agora são silêncio que conversa, são temporais em espera de dar altura às ondas. São espelhos do pensamento, as portas da luz que canta ímpios impulsos trancados.
- Já sabia que te encontraria assim, em vela, e tão bela, sem defesa.
E nisto aproximava-se dela.
Ela esperou destemida, sem recuo, sem receio.
Então o vento soprou mais forte, fazendo embater neles dolorosos, sibilantes grãos de areia.
Num gesto protector, Ph. puxou a jovem pela cintura até si, enquanto a outra mão puxava a capa num intento de protecção, escudando os corpos e com isso cobrindo-os.
Ela agradeceu ao vento, ele benzeu a areia.
Ficaram deste modo unidos, colados. O peito dela suavemente a moldar-se ao seu, o ventre quente no dele escondido, as coxas, trementes, juntando-se às dele. Os rostos corados, carentes, vazados um ao outro.
A natureza, com sabedoria, trabalhara para adiantar o momento que a timidez, respeito e preconceito, tarde, talvez nunca, acontecesse.
Envolvimento arrebatador. O amor é movido por descobertas emocionais, por comunhão unificadora e comovedora de almas, por entregas físicas urgentes.
Foi esse o primeiro momento em que se remiram de perigo ou condenação. E os dois se tornaram um.
Os corpos dos amantes entendem-se fora deste mundo.
A capa, agora leito nupcial, foi colchão e foi coberta daquela primeira entrega, daquela dação em alegria, em que receberam, reunidos, as primícias do outro.
Apenas a fadiga os venceu. Viam-se de novo com certezas, sem roupagens, sem enganos. Ficou, como todo o seu ganho, o seu lado humano e a promessa dum perfumado amor perpétuo.
Se nela o olhar lampeja, o dele não é menos rutilante.
- Como te deixas prender por quem não é de prendas? Perguntou submissa.
- Por esta chispa que me ateaste, pela paixão que me pegaste…
E aduzia:
- Amo-te sem complexidades nem orgulhos. Amo-te porque não tenho outro caminho.
A este dia seguiram-se outros de encontros e cumplicidade, renovando de forma igual o seu amor diferente.
A paz no meio de conflitos latentes.

                                     A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e ar livre
Até que um dia… ele chegou de semblante grave e falar circunspecto. Ia partir
- O tempo que partilhámos é um nada de todo o tempo que nos resta partilhar; é o pó da estrada, do todo da estrada que juntos havemos de caminhar.
Ela fez de conta que não estava pálida de morte, fingiu que não caíra quando tombou no chão, simulou estar calma quando toda ela estremecia.
- Nunca imaginei, - iniciou – sentir no meu peito tamanha dor, nunca pensei que o amor tivesse a faculdade de me fazer sentir insane.
Perdida no lamento, mais não conseguiu do que:
- Assim de repente. Já! – Soluçou alto – E então o nosso amor para sempre?
- Será para sempre. É verdade que os nossos corpos se separam, e que a tua presença tão cedo não me consolará, mas o sentimento que por ti criei prevalece e dar-me-á motivo para ti voltar.
Amar dói. Dói pela ausência, por não saber.
- Ajuda-me nesta aflição - suplicou ele. Parto carregado com a imensidão do que perco; ajuda-me a suportar a distância que se avizinha, o tempo que já decorre. Vejo-te triste e pesada.
E ela:
- Carrego o teu coração. Carrego-o dentro do meu.- Disse num sussurro aflito e acanhado.
Ele retirou do corpo a túnica e colocou sobre os ombros dela; aposto na capa refulgia o brasão.
O brasão bipartido que haveriam de levemente alterar no século XV apresentava, no campo esquerdo, duas flores de lis azuis, sobre meio escudo prata, e meia águia bicéfala vermelha, armada de ouro, sobre meio escudo no campo direito e, como timbre, uma águia dourada de asas estendidas.
- Conserva-a. Pode servir-te. Nela podes me encontrar e, sobretudo, dela podes obter sustento.
Levando a mão ao dedo indicador puxou de lá um anel.
- Este é um anel peculiar, - ensinou – que se completa por duas partes. O sinete é removido dos encastres que tem o aro. Eu levo a chancela desembutida, tu ficas com o aro que só a ela pode receber.
Quando voltar, juntarei ao anel que fica este timbre da águia dourada de asas abertas.
Foi e levou a alegria.
Adeus é a despedida dos últimos dias e o prelúdio do que virá; é a dúvida e a dúvida tortura.
Muitas semanas se passaram. Cada dia nascido, era dia do seu peregrinar. Ia-se abeirar do mar, num aguardar incansável de ver as velas de barco voltar.
Também ela velejava: pela escuridão de uma longa espera no meio dum amor desperto, velejando com fé sozinha no bálsamo dum amor imenso, que não teve princípio nem há-de ter fim.
Saudade mais dolorida é a saudade do que ama. Saudade da presença ou da ausência consentida, do cheiro e da pele, do trocar de beijos e do corpo comovido. 
Saudade é não saber o dia que a nossa metade vem.
O tempo passou.
Numa dessas manhãs sentiu um enjoo que pensou ser devido ao mar por tanto nele o seu olhar navegar.
Mas outras náuseas vieram e outro sintoma lhe sugeriu:
Aquela paixão consumada, o amor em si vertido trazia fruto de vida, uma primavera de verdores, um campo de flores.
Os pais, pessoas de austera educação, vigilantes da conduta, vendo o estado em que estava, vendo a filha solteira, prenhe, trataram de a expulsar para longe, a esconder a sua vergonha.
Desolada, destroçada pelo rodar do destino, encontrou acolhimento num casebre perto de Almada com outros e outras deserdadas da vida, espoliadas da existência e dos direitos. Famintos que aceitavam as mais humildes e humilhantes tarefas na esmola de mais um dia.
Correram meses, arrumaram-se as estações e a inexperiente mãe subsistia no sustento duma risada da filha.
Sobreveio a doença, a fraqueza por pobre e pouco alimento.
Numa tarde de tormenta, em que a água, fustigada por ventos fortes despencava a rodos, a todos encharcava, a todos zurzia, surgiu a notícia que tinham chegado cavaleiros vindos do Egipto, de onde, não tendo obtido vitória, regressavam sob o peso de um aviltante acordo com o Sultão.
A mãe, pobre e plebeia, com a filha embrulhada em capa de nobre, correu à Praça e com o alor e coragem que só os desesperados constroem, segurando a túnica dum, perguntou com a voz embargada:
- E Don Philipe da R.M. chegou? Veio convosco?
Que não.
Uns dizem que pereceu a golpes de cimitarra, outros afirmam que voltou a Darque mas que horrorizado pelo sangue da guerra, pela desdita de amigos, desfigurado e mutilado recolheu ao Mosteiro de Palma, do qual seu irmão era Comendador, e lá pretendia permanecer em pobreza e penitência até ao último dos seus dias.
A alma é imaterial, não se vê mas em alguns é notória a sua presença.
Sujeita à carne que se corrompe e definha, ainda que em si seja imaculada e viçosa, pena a mágoa dos cativos.
“Agora nada mais resta”. Esclarecia-se a desditosa mãe.
O fraco lio que a prendia à vida, desatava-se ou rompia. A esperança, as horas, dias e todo o tempo em que confiara num reencontro desfazia-se e assim, de si o ânimo se despedia.
- Porquê meu amor? 
Porque te deixaste matar ou te ocultaste da vida? A vida só é perfeita se estiver a teu lado e ter a certeza que é onde eu quero estar enquanto respirar.
Seja qual for o desfecho, o amor verdadeiro, puro, de total e singela entrega, não morre. Se funesto, morre sim a vontade de si mesma, destroça o peito, aniquila o alor e sentido da vida; só.
De o amar estava segura, mas quem lhe segurava a vida?
Via-se num limbo e espreitava lá para baixo, percebendo o estrépito e o mau cheiro; ouvia o estrilho dos que pelo fogo padecem uma eternidade, inalava o odor do execrável enxofre. Sentia que para lá caía. 
Queria desviar a vista, pedia que ele viesse, que lhe torcesse o olhar, que a avive e com ela queira estar do outro lado deste acabar.
Perdido no tempo, criou-se a lenda, que a Caparica era quase erma e desolada quando por lá encontraram uma menina pobre e muito bonita, não se sabendo de onde vinha ou quem era.
Nada de seu tinha excepto uma capa sobre os ombros, que, ainda que se percebesse ser na origem de grande qualidade, estava desfibrada e gasta. 
Condoído, um velho deu-lhe abrigo e com ele viveu até que já mulher, aquele morreu. Ficou a viver sozinha e ali envelheceu. 
Quando se lhe acabou a vida, descobriram que a capa afinal era rica: dentro do seu forro encontrou-se uma verdadeira riqueza e, junto a si, uma carta dirigida ao Rei em que pedia que usasse o tesouro a beneficiar aquela costa para que levasse saúde e alegria para todos.
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A História destas personagens segue séculos depois ( na Costa de Caparica e em Bruxelas ) Trata-se de um amor intemporal.


Almada 16/05/2019
                                       
                                     

sábado, 11 de maio de 2019

Parque Natural da Arrábida

Assente na cadeia montanhosa da Arrábida e área marítima adjacente, o Parque Natural da Arrábida (PNArr), ocupa uma superfície de aproximadamente 17 mil ha, dos quais mais de 5 mil são de superfície marinha, abrangendo território pertencente aos concelhos de Palmela, Sesimbra e Setúbal.

PNArr - Serra do risco

Classificação

As características particulares do maciço Arrábico, levaram a que, desde os anos 40, se tivessem iniciado algumas tentativas para a sua proteção, culminando com a criação da Reserva da Arrábida pelo Decreto nº 355/71, de 16 de agosto, abrangendo pouco mais do que a vertente sul da referida serra e das escarpas do Risco.
Com a publicação doDecreto-Lei nº 622/76, de 28 de julho, que "reconhecendo a insuficiente proteção conferida pelas medidas preventivas decretadas para a zona..." é criado o Parque Natural da Arrábida (PNArr).
Esta classificação visou proteger os valores geológicos, florísticos, faunísticos e paisagísticos locais, bem como testemunhos materiais de ordem cultural e histórica.
A publicação do Decreto Regulamentar nº 23/98, de 14 de outubro, efetuou a reclassificação do Parque Natural da Arrábida, ampliando a sua delimitação com a criação de uma área marinha Arrábida-Espichel, completando no meio marinho os objetivos de conservação da natureza subjacentes ao Parque.
O valor da fauna e flora marinhas da costa da Arrábida foi assim abrangido por um Parque Marinho contíguo à área terrestre anteriormente classificada. Na zona do cabo Espichel a proteção visa as arribas marinhas, espécies vegetais endémicas, a nidificação de aves e a preservação de icnofósseis.

Caracterização

         PNArr
O Parque Natural da Arrábida deve o seu nome à principal unidade geomorfológica de toda a área, a designada cordilheira da Arrábida, constituída por 3 eixos:
  • o 1º composto por pequenas elevações nos arredores de Sesimbra, pelas serras do Risco e da Arrábida e pelas colinas existentes entre o Outão e Setúbal;
  • o 2º é formado pelas Serras de S. Luís e dos Gaiteiros; e
  • o 3º formado pelas Serras do Louro e de São Francisco.

A orientação da cordilheira é ENE-OSO (orientação alpina) apresentando um comprimento de cerca de 35 km e uma largura média de 6 km. A altitude máxima é de 501 m no anticlinal do Formosinho.
A norte da cordilheira estende-se uma vasta área de planície que apresenta a sua maior largura junto ao limite oeste do Parque, estreitando-se, progressivamente, à medida que se caminha para este. O litoral é bastante rochoso, recortado por pequenas baías com praias de areia branca encimadas por escarpas.
A cadeia montanhosa da Arrábida, e a área de planície que a circunscreve, tem uma grande diversidade de solos, devido à multivariada constituição dos materiais rochosos que constituem a rocha mãe. A grande maioria dos solos é de origem sedimentar aparecendo, no entanto, algumas intrusões eruptivas. Todo o modelado hoje visível na Arrábida depende não só de aspetos ligados à tectónica e à erosão mas também daqueles que se prendem com a geologia da área constituída em grande parte por rochas calcárias e dolomíticas ou detríticas.

               PNArr
O litoral é bastante rochoso, recortado por pequenas baías com praias de areia branca e geralmente encimadas por escarpas que apresentam alturas consideráveis.
Como é característica das regiões cuja geologia é predominantemente constituída por calcário, a hidrografia apresenta aspetos específicos desse tipo de constituição, tais como a não perenidade e exiguidade dos cursos de água.
A vegetação da Arrábida possui um elevado valor natural, verificando-se neste território a convergência de três elementos florísticos:
  • o euro-atlântico, mais fresco, húmido e sombrio nas vertentes a norte;
  • o mediterrânico, mais quente, seco e luminoso nas vertentes expostas a sul; e
  • o macaronésio nas arribas marcadamente marítimas.

As comunidades de vegetação incluem ainda espécies com origem paleomediterrânica e/ou paleotropical.
Também nos ambientes marinhos existe uma convergência de elementos faunísticos de diferentes afinidades, nomeadamente temperado frio do norte da Europa, temperado quente do Mediterrânio e Norte de África, e tropical. Esta composição ictiológica mista, em conjugação com o caráter de charneira do ponto de vista biogeográfico, confere ao mar da Arrábida um papel preponderante na compreensão dos fenómenos de evolução das comunidades marinhas.

                          PNAr- logótipo
O símbolo do PNA representa uma guarita do Convento Velho tendo como pano de fundo a serra. A imagem sugere uma estreita aliança entre o património natural e o património cultural bem ilustrada aliás pela inserção do próprio convento nas faldas da serra.
Aventuras na Arrábida programas a fazer no parque natural ...

"Instituto da conservação da Natureza e das Florestas"

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Porto Brandão, a Terra e o Tejo

O Nome:
O topónimo Porto do Brandão surge na carta de foral que o rei D. Manuel I deu a Almada em 1513, onde é referido como um dos limites do Reguengo de Caparica. Na origem do nome está o apelido Brandão, da família a quem pertenceu a Quinta da Azenha. Esta propriedade foi cabeça de morgado, pelo que se manteve na mesma linhagem durante várias gerações.

Imagem relacionada


A Lenda:

 Segundo a lenda, o topónimo tem origem numa história de amor trágica. Brandão era o nome de um jovem carpinteiro naval, que namorava Paulina, filha de um homem poderoso. Este, contrariando a vontade e a paixão da filha, obrigou-a a embarcar numa nau com destino à Índia. Brandão conseguiu alcançar a nau num pequeno barco a remos, mas foi apanhado pelo comandante do navio, que o mandou matar e lançar ao rio. Paulina atirou-se de seguida e morreu também. O seu corpo foi dar ao local que passou a chamar-se praia da Paulina e o do rapaz ao actual Porto Brandão


A Terra:
A povoação ribeirinha do Porto Brandão ocupa um vale talhado na costeira de Almada. A arriba, sobranceira ao Tejo, dominando a localidade, é o aspecto mais evidente desta estrutura geológica. A costeira, apresentando vertente abrupta a norte (a arriba) é constituída por uma sequência de camadas rochosas inclinando suave e uniformemente para sul.
As camadas datam do Miocénico, tendo cerca de 18 a 15 milhões de anos de idade. Nelas existem fósseis de organismos marinhos, testemunhos desses tempos, de quando a arriba ainda não existia e, nesta região, se estendia um amplo golfo marinho de águas quentes, tropicais.

Porto Brandão: a outra margem de Lisboa vai limpar a face - DN

O tempo e o espaço:
A localização geográfica e a morfologia do terreno contribuíram para a fixação humana no Porto Brandão. Situado na zona onde a distância entre as margens é mais curta, o acesso fluvial é facilitado por uma enseada com praia. Por via terrestre o declive da arriba é vencido percorrendo o fundo do vale que desce do lugar da Torre de Caparica
Na origem do povoado e ao longo da sua história, encontram-se naturalmente as actividades ribeirinhas, como a pesca, os transportes fluviais e a construção naval.

Historia recente:
Em meados do século XX, a SONAP – Sociedade Nacional de Petróleos, era o principal atractivo económico do Porto Brandão. Beneficiando de uma boa posição no mercado de combustíveis, a empresa, uma das mais importantes do país, deu emprego a muitos, que lá continuaram depois da sua nacionalização e criação da Petrogal, em 1976
O Porto Brandão continua a ter importância portuária, devido aos terminais marítimos aí instalados. A nascente, situa-se um parque que armazena produtos petrolíferos em 26 reservatórios de aço, distribuídos pela encosta em plataformas. A poente, na antiga praia da Paulina, localiza-se uma estação de limpeza e desgasificação de navios, que dispõe de seis reservatórios para combustíveis líquidos.

As casas:
O conjunto edificado do Porto Brandão desenvolve-se acompanhando a base da arriba, que a delimita a nascente e a poente. A povoação cresceu ocupando a encosta virada a poente, dando origem ao bairro designado popularmente pelo “Alto”, que liga ao lugar de Formosinhos. Alguns dos edifícios mais antigos apresentam uma traça marcadamente urbana, característica do século XIX; outros apresentam características rurais. No centro do lugar foi construído por volta de 1950 um bairro habitacional, constituído por habitações de dois pisos, orientadas perpendicularmente à praia e divididas por uma rua central.
Destacam-se no conjunto a casa do Tanoeiro e a oficina da Cooperativa dos Catraeiros, este último de características arquitectónicas acentuadamente modernistas

"Creditos Centro de Arqueologia de Almada"

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa

A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT NOVA), uma das três maiores e mais prestigiadas escolas de Engenharia e Ciências do País,no Monte de Caparica, é reconhecida pela sua investigação de excelência, pela qualidade dos seus cursos e pela empregabilidade dos seus diplomados (licenciados, mestres, doutores). 

Sobre a FCTNOVA


A FCT NOVA, com cerca de 8.000 estudantes, dispõe de um dos melhores Campus universitários, distinguindo-se por uma cultura de excelente relacionamento docente-estudante e por uma vida académica intensa, com atividades culturais e desportivas.

Todos os seus cursos estão acreditados pela A3ES (Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior) e todos os cursos de Engenharia são reconhecidos pela Ordem dos Engenheiros, FEANI e EUR-ACE.
Com cerca de 430 docentes, 1000 investigadores e 200 funcionários, a FCT NOVA estrutura-se em 14 Departamentos e 16 Centros de Investigação, oferecendo 94 ciclos de estudo (7 Licenciaturas; 11 Mestrados Integrados; 28 Mestrados; 38 Doutoramentos).
A sua produção científica, materializada pela publicação de um elevado número de artigos em revistas científicas internacionais de grande exigência e qualidade, confere-lhe amplo reconhecimento internacional (o valor do índice de produção científica - SciVal Citation Impact - é de 1,35, o que significa que a FCT NOVA se encontra 35% acima da média mundial. Este desempenho permite-lhe integrar as principais redes de Universidades tecnológica, como a rede CESAER e participar em consórcios com universidades Europeias e dos EUA, designadamente MIT, CMU e Universidade do Texas.
A participação da FCT NOVA em 8 COLABs e a obtenção de 8 Bolsas ERC por investigadores da FCT NOVA (maior concentração destes laboratórios e bolsas em Universidades Portuguesas), mostra ser uma Escola de Ciência e Engenharia orientada para o futuro e baseada em investigação internacional de vanguarda.

O Campus de Caparica beneficia da rede pública de transportes, que inclui serviços combinados de autocarro, comboio, barco e metro de superfície (estação terminal "Universidade") que se situa junto a uma das entradas da FCT. 

terça-feira, 30 de abril de 2019

História | Cultura

Paisagem e património histórico-cultural da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica.
Resultado de imagem para arriba fossil costa da caparica

Paisagem

A paisagem da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica é, no geral, o resultado de uma profunda humanização, apesar de ser também relativamente diversificada, como resultado das características e da resposta que os recursos naturais foram dando ao longo deste ancestral processo de transformação.

Atualmente apresenta diferentes estados de conservação, se considerarmos como referência um equilíbrio necessário entre as componentes ambientais e as humanas. Na Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica foram, assim, definidas as seguintes unidades de paisagem:
  • Arriba Fóssil e Orla Costeira - caracteriza-se pela estrutura que apresenta, uma sequência de estreitas faixas distintas que, contudo, formam uma unidade homogénea. Assente sobre um substrato arenoso (areias de praia, dunas ou depósitos de vertente) encontra-se a linha de praia, a que se sucede o cordão dunar, uma área de planície que corresponde às dunas interiores e por fim, a arriba. As belas formas de erosão que a arriba apresenta, as suas características geológicas e a extensão fazem-na exemplo ímpar no nosso país. Do ponto de vista geológico, esta arriba, formada por uma sucessão de estratos subhorizontais de rochas sedimentares, de conteúdo fossilífero e origem fluviomarinha, é um interessante testemunho de outras épocas; e
  • Pinhais da Charneca - caracteriza-se sobretudo pelo coberto vegetal predominante, uma mancha contínua de pinhal, sobre solos arenosos (dunas ou Conglomerados de Belverde) levemente ondulados e que se localiza na plataforma superior da arriba. Esta mancha arbórea tem vindo a ser delapidada pela implantação de moradias mais ou menos dispersas. Dentro desta unidade destaca-se a presença de uma área de valor florístico e paisagístico excecional, uma zona de pinhal manso com os vários estratos bem constituídos que se designa por Mata dos Medos, classificada como Reserva Botânica.
  • Terras da Costa - definida pelo tipo de uso atual do solo, sendo muito distinto da envolvente e com um papel preponderante no modo de vida da população. Localiza-se na planície entre o cordão dunar, atualmente ocupado com o aglomerado urbano da Costa de Caparica, e a Arriba Fóssil. A origem das e dos rendeiros das Terras da Costa associa-se à necessidade de garantir em terrenos agricultáveis formas de subsistência, para além da pesca, facto que transformou o extenso juncal, anteriormente, existente. Alguns achados arqueológicos, na plataforma litoral, revelam que os primeiros assentamentos humanos nesta zona, ocorreram nos períodos do paleolítico, Neolítico e Calcolítico. No entanto, a fixação de populações na planície litoral apenas ocorreu em finais do século XVIII, com a criação da Costa de Caparica, local de fixação de pescadores vindos de Ílhavo que, compensavam a sazonalidade de atividade piscatória com a agricultura, nas férteis Terras da Costa;

Atividades

  • A pesca foi ao longo dos tempos a atividade económica dominante da região, tendo marcado de forma incisiva o espaço social e cultural.
    No início do século XX, os pescadores criaram um novo núcleo mais a sul, na Fonte da Telha.
    A Arte Xávega é a forma tradicional de pesca empregada, consistindo num grupo de pescadores que num barco a remos lança as redes, para cercar os cardumes, puxando-as para a praia, com a ajuda de bois, técnica que foi trazida para esta região por migrantes da zona de Aveiro.
    Nas chamadas Terras da Costa (norte da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica) situa-se uma área agrícola (hortas).
    A origem das e dos rendeiros das Terras da Costa associa-se à necessidade de garantir formas de subsistência em terrenos agricultáveis, para além da pesca, facto que transformou o extenso juncal, anteriormente, existente. Alguns achados arqueológicos, na plataforma litoral, revelam que os primeiros assentamentos humanos, nesta zona, ocorreram nos períodos do Paleolítico, Neolítico e Calcolítico. No entanto, a fixação de populações na planície litoral apenas ocorreu em finais do século XVIII, com a criação da Costa de Caparica, local de fixação de pescadores vindos de Ílhavo que, compensavam a sazonalidade de atividade piscatória com a agricultura, nas férteis Terras da Costa.
    Nas últimas décadas, o turismo tem-se desenvolvido muito, quer devido à beleza e amenidade das praias quer devido à proximidade a Lisboa

    A pesca era inicialmente operada com as embarcações “meia-lua”, transportadas pela força humana para o mar, ou deslizando sobre troncos. Estas embarcações eram utilizadas sobretudo na arte Xávega, também designada de “Chinchorro”. Atualmente, assiste-se à emergência de um outro tipo de embarcação designada por “chatas”, com adaptação a motor e rebocadas por tratores.
    As principais espécies pescadas são o carapau, a sardinha, o choco, a faneca, a solha, o linguado, o robalo, a lula e o sargo.

    "Instituto da conservação da natureza e das florestas"

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Dia Mundial da Dança comemorado em Almada pela Companhia de Dança de Almada

De acordo com a programação, as actividades iniciam-se amanhã sexta-feira 26 Abril até 03 de Maio em Almada, com a realização de um laboratório internacional decorrente do projecto CLASH!, apoiado pelo programa Europa Criativa, subordinado ao tema "O clássico e o contemporâneo na formação de bailarinos".


No próprio Dia Mundial de Dança, a 29 de Abril, segunda-feira, no Cine Teatro Sede da Academia Almadense, realiza-se uma sessão comemorativa para reflexão sobre o impacto das actividades da Companhia de Dança de Almada (Ca.DA) ao longo de quase 30 anos de trabalho na cidade, com a presença da fundadora e directora, Maria Franco.

Apresenta-se com regularidade em digressão no país e no estrangeiro, nomeadamente na Europa (Espanha, França, Suíça, Itália, Grécia, Croácia, Polónia, República Checa), África (Cabo Verde), América (Brasil) e Ásia (China).
O Dia Mundial da Dança, foi instituído pelo Comité Internacional da Dança (CID) da UNESCO, em 1982

sábado, 20 de abril de 2019

Museu do Fado lança oficina da guitarra portuguesa

O Museu do Fado, em Lisboa, inaugura na terça-feira a Oficina da Guitarra Portuguesa, onde vai efectuar-se, de Maio a Setembro próximos, um curso de construção de instrumentos, e vários ‘workshops’.

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O projecto, explicou a directora do museu, Sara Pereira, “é dar ferramentas e conhecimentos de áreas tão distintas como os vernizes, o tipo de cola a usar, os leques [parte final do braço da guitarra, onde se prendem as cordas], a história da guitarra, as madeiras, o seu comportamento na construção do instrumento, a organologia, de modo a [os participantes] desenvolverem esta arte de uma forma consolidada”.
Esta oficina inscreve-se nos quesitos da classificação do Fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade (2011), e “é um passo importante e fundamental salvaguardar esta herança, e aprofundar domínios de estudos que não têm estado devidamente desenvolvidos”.
“Vão aprender a construir guitarras portuguesas, algumas violas, e ter aprendizagem para os iniciados e também um nível de aperfeiçoamento”, disse à agência Lusa Sara Pereira, referindo que a oficina “marca o regresso desta arte tradicional ao centro histórico de Lisboa”, no bairro de Alfama. A oficina terá espaços de construção, projecção de filmes, postos de consulta sobre ‘guitarreiros’ (construtores de guitarras) e guitarristas, e uma loja para a venda de instrumentos e acessórios para a guitarra portuguesa.
A área da formação especializada, em torno dos elementos integrantes da guitarra portuguesa, incluirá cursos de construção de leques, entalhamento de volutas (a finalização do braço em forma de caracol ou lágrima), a modelação das ilhargas (parte lateral que faz a ligação entre o tampo e as costas), o afagamento, polimento, aplicação de escala e trastos, conservação e restauro, entre outros temas.
O corpo docente inclui guitarreiros, violeiros, entalhadores, técnicos de conservação e restauro, músicos e investigadores. Os guitarreiros Gilberto Grácio e Óscar Cardoso, o guitarrista Pedro Caldeira Cabral e Rita Marcelino, a única mulher construtora de leques para guitarra portuguesa, são alguns dos formadores dos ateliês. Esta oficina é “uma homenagem às duas grandes escolas tradicionais na arte da construção da guitarra portuguesa, a de Gilberto Grácio e a de Óscar Cardoso, iniciada por Álvaro da Silveira”, disse a responsável.
A inauguração da oficina, na terça-feira, às 17:00, contará as atuações de duas orquestras de guitarras: a primeira, dirigida por Pedro de Castro, na Rua de S. Pedro, “que contará com dezenas de instrumentistas, cada um com o seu instrumento de diferentes escolas”, e, às 19:00, no Largo do Chafariz de Dentro, também em Alfama, de uma de sete guitarristas dirigida por Paulo Soares.
                   

terça-feira, 16 de abril de 2019

O Palácio da Pena podia não sobreviver a uma catástrofe semelhante à de Paris

A dificuldade de acessos e a sua localização no segundo ponto mais salto da Serra de Sintra seriam os principais obstáculos

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Quando as chamas começaram a consumir a Catedral de Notre-Dame em Paris, França, foram vários os olhos curiosos e desolados que acompanharam os avanços do fogo. A cada hora que passava, perdia-se mais uma parte do monumento que conta grande parte da nossa história e que sobreviveu a várias invasões e guerras.
Chegou a temer-se não ser possível salvar Notre-Dame e houve quem se mostrasse solidário, nas ruas ou nas redes sociais, com todos os envolvidos no combate às chamas. Cerca de 12 horas depois, os bombeiros de Paris anunciaram que o incêndio estava extinto.
Segundo a escritora e historiadora Irene Pimentel, Portugal tem muito presente na memória a realidade e a possibilidade de incêndios devastadores.
“Muitos teatros já arderam, como é o caso do Dona Maria II, e por isso é um dos que vai estar sempre em perigo. Mas quando falamos da hipótese de uma tragédia semelhante à de Paris acontecer em Portugal, pensamos imediatamente em monumentos como o Mosteiro dos Jerónimos, a Sé de Lisboa ou a Sé de Braga”, revela.

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Quanto aos que são mais difíceis de evacuar, a historiadora não tem dúvidas: “As igrejas de Alfama ou as do Bairro Alto, por exemplo, são muito críticas. É que quanto mais medieval forem os nossos bairros, mais difíceis serão as tentativas de os salvar.”
Em causa está não só a forma como foram construídos e os materiais utilizados, mas também a maneira como estão dispostos e a facilidade ou não dos seus acessos.
Joana Andrade, que preferiu manter o anonimato por trabalhar na área do turismo, é também licenciada em História de Arte e refere que o Palácio da Pena, em Sintra, pode ser outro dos casos mais críticos — especialmente porque é um mosteiro, tem um claustro, apresenta um espaço muito fechado e o acesso é tudo menos fácil em caso de emergência.
“Está no segundo ponto mais alto da Serra de Sintra o que significa que os bombeiros teriam de combater o fogo por baixo, através da vila. Não sei até que ponto é que não seria um dos casos mais urgentes de se tentar perceber como seria feita a evacuação”, explica. E refere que só as autoridades responsáveis é que são capazes acessar esse risco.
Irene Pimentel não tem dúvidas de que, a ser atingido por um incêndio da mesma dimensão daquele que consumiu parte de Notre-Dame, a perda do Palácio da Pena seria “inacreditável”.

“No fundo, as perdas de patrimónios que nos tocam mais são aquelas que dizem respeito aos mais antigos que, entre outras coisas, nos mostram que não nascemos pessoas — que somos só alguém de passagem que recebe um passado com o intuito de transmitir alguma coisa para o futuro”
Mas apesar de Irene recomendar que se retirem algumas lições deste incêndio, a historiadora acredita que Portugal não está preparado para dar resposta a uma situação semelhante.

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SÉ CATEDRAL DE BRAGA

“Acredito que Notre-Dame estivesse muito mais preparada do que qualquer outro edifício português, e mesmo assim aconteceu. Mas em Portugal temos outro grande problema: um risco sísmico elevado capaz de levar a uma sucessão de eventos catastróficos como terramoto de 1755 que dizimou o Chiado”, adianta.
Segundo Irene, a maior dificuldade no combate às chamas tem que ver com o material presente dentro destes monumentos. “Eu não tinha a noção de que em Notre-Dame havia tanta madeira e que a estrutura principal e mais importante era, também ela, composta por madeira.”

Joana é da mesma opinião e reforça que a história não nos deixa esquecer que vários dos monumentos que arderam no passado, arderam em processo de restauração. “É curioso mas é um trabalho que requer o uso de vários químicos. Além disso, muitas vezes são utilizados panos para cobrir peças e tudo isso é facilmente inflamável.”
Mas o principal problema é o facto de os tetos serem de madeira, assim como a presença de telas a óleo, conta. “Se as esculturas não forem de pedra, como algumas do período Gótico ou Renascentista, que são em madeira, então tudo desaparece muito facilmente em caso de incêndio.”
Quanto ao que há a fazer, Irene Pimental diz que apesar da forma como estão construídos influenciar o desfecho destes casos, não há muito a fazer a não ser arranjar formas de prevenção.
“Devemos manter o património tal como ele nos chegou até hoje e pôr a tecnologia ao serviço de evitar, prevenir ou pelo menos dar uma resposta rápida e eficiente para se evitar uma maior tragédia”, conclui.
16/04/2019
Por: Fábio Martins 

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Proposta de regulamento tarifário da ERSAR viola autonomia do poder local

A Câmara Municipal do Seixal aprovou uma tomada de posição contra o projecto de regulamento da ERSAR que retira margem de manobra aos municípios e impõe o aumento do preço da água aos consumidores.

Vítor Proença vai focar o seu discurso nos avanços e riscos da água pública e saneamento em Portugal

Em causa, lê-se no documento aprovado esta quarta-feira em reunião de Câmara, está a atribuição à Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) da competência para «aprovar um regulamento tarifário a estabelecer regras de definição, fixação, revisão e actualização dos tarifários de abastecimento público de água e de saneamento de águas residuais urbanas».
Os novos poderes daquela entidade resultam da alteração do seu estatuto pelo governo do PSD e do CDS-PP, em 2014. Nesse quadro, o Conselho de Administração da ERSAR aprovou um projecto de regulamento tarifário dos serviços de águas, com diferenças relativamente a versões anteriores, e cujo período de consulta pública encerrou no passado dia 15 de Março. 
Joaquim Santos, presidente da Câmara Municipal do Seixal, defende que o regulamento não deve ser aprovado porque viola a autonomia do poder local na prestação de serviços públicos essenciais.

O documento denuncia que a proposta de regulamento «agrava fortemente ingerência na esfera municipal, obrigando os municípios a apresentar para validação o plano de investimentos e a submeter a nova validação qualquer alteração ao mesmo». Na prática, ilustra, «quer as Grandes Opções do Plano, quer as respectivas alterações» passariam a ter de ser validadas pelo regulador. 

Além de coarctar os municípios, retirando-lhes margem de decisão e opção, Joaquim Santos denuncia que se procura «afastar este serviço central das populações da decisão do poder local», impondo aumentos das tarifas aos utentes.
A este respeito, lê-se no texto aprovado ontem que a forma como este projecto de regulamento está elaborado «demonstra que se insiste numa perspectiva de que a política tarifária é a solução mágica para garantir a sustentabilidade do sector», denunciando igualmente que as autarquias locais são um «alvo preferencial da intervenção da entidade reguladora, com políticas discriminatórias que tem vindo a aplicar».   
Joaquim Santos insiste que «a gestão da água e do saneamento deve ser parte do processo de desenvolvimento local», devendo caber aos eleitos autárquicos e à população o direito a tomar decisões sobre estes serviços, e aos municípios a responsabilidade de definir a aplicação das tarifas, designadamente as medidas de discriminação positiva, como as tarifas sociais.

Abril/Abril ...TÓPICO autonomia do poder local:

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Titanic inicia a a sua primeira e única viagem

Efeméride:
No dia 10 de Abril, ao meio-dia, o Titanic levantou âncora de Southampton para a sua primeira viagem. Bem cedo foi abastecido de todos os viveres necessários. Das 9h30m ás 11h30m dessa manhã os passageiros fazem o seu check in.

  

Com a reputação de ser "inafundável" durante a sua construção, o Titanic acabou naufragando na sua primeira e única viagem no dia 15 de Abril de 1912. Desde então o navio virou uma lenda. E seus restos, desde sua descoberta em 1985, nunca deixou de fascinar todos que o exploraram.

Agora
Uma réplica do fatídico navio Titanic deve cruzar os oceanos em 2022. Com capacidade para 2,4 mil passageiros, o Titanic II vai fazer sua primeira navegação partindo de Dubai com destino a Inglaterra, de onde seguirá para os Estados Unidos, fazendo o mesmo trajeto do original.
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O navio actual funcionará a gasóleo (o original funcionava a carvão), terá um casco soldado e não rebitado, e será beneficiado com os mais modernos equipamentos digitais de navegação. A primeira viagem será da China ao Dubai; na segunda, do Dubai a Southampton; e depois Southampton-Nova York.