terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Manifesto que contesta as aberrações do AO90



Este Manifesto foi apresentado em 23 de Janeiro de 2017, pelos «Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990» contestando o "critério da pronúncia" que foi adoptado, o qual “gerou aberrações", e a conclusão foi que "o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita".

E o AO90 é uma daquelas coisas que nasceram tortas e nem daqui a 500 anos isto se endireitará, prevendo-se até que, a continuar a este ritmo desastroso, a Língua Portuguesa está condenada a desaparecer e, no seu lugar instalar-se uma linguagem mixordeza inqualificável.

Quem levou em conta as sábias considerações deste Manifesto?

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Os que obedecem cegamente a ordens abusivas, emanadas de políticos desprovidos de Sentido de Estado, são meros escravos do Poder. Desobedecer é para os audazes. Obedecer é para os cobardes.

Neste Manifesto, assinado por mais de uma centena de individualidades, entre elas António Barreto, Carlos Fiolhais, António-Pedro Vasconcelos, Helena Buescu, Joaquim Pessoa e João de Freitas Branco, o qual foi dirigido aos nossos muito cegos, surdos e mudos Chefe de Estado, Parlamento, Governo, juízes dos tribunais, funcionários públicos, escolas públicas, particulares e cooperativas, professores e alunos, universidades, editoras e autoridades administrativas independentes, mas também foi enviado à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa, à Academia das Ciências de Lisboa, ao Instituto de Linguística Teórica e Computacional e ao Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, à Imprensa Nacional - Casa da Moeda e a todas as restantes entidades públicas e privadas, assegura-se que «o processo de entrada em vigor do AO90, nos Estados lusófonos, começou por ser um golpe político».

Pois é este “golpe político” que é preciso deter, porque estamos em Janeiro de 2020, e não em Janeiro de 1974.   

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Acontece que o AO90 não obedece a nenhuma lei, nem justa, nem injusta, porque a Lei que vigora e que regula a Língua Oficial de Portugal não foi revogada.
Para confirmação, consultar este link:
E porque essa Lei não foi revogada, a imposição do AO90, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25 de Janeiro, que determinou (não obrigou) a aplicação da grafia oriunda de um país estrangeiro, é ilegal. E isto é algo que qualquer iniciante do Curso de Direito sabe.

Portanto, nem se trata de cooperar com uma lei injusta, mas tão-só de dizer Ámen com uma Resolução do Conselho de Ministros, que não fazendo lei, é monumentalmente injusta, por impor, ilegalmente, uma ortografia que não pertence a Portugal, e, por conseguinte, todos os que cederam cegamente a esta imposição injusta, são cúmplices do caos ortográfico em que Portugal está afundadíssimo.

Portugal e aqueles Portugueses, que se prezam de o ser, não têm de ficar reféns do quero, posso e mando de ditadores disfarçados de democratas, com a agravante de serem cegos, surdos e mudos aos apelos racionais dos Portugueses pensantes, dotados de sentido crítico e de espírito cívico.

Os subscritores deste Manifesto chamaram a atenção para o facto de Angola e Moçambique, os dois maiores países de Língua Portuguesa, a seguir ao Brasil, nunca terem ratificado o falso AO90, enquanto Portugal, Brasil e Cabo Verde o mandaram aplicar obrigatoriamente e ilegalmente como já se demonstrou.

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Desobedecer à ordem (não à lei, que não existe) ilegal que manda aplicar a grafia brasileira, é um dever moral e uma obrigação que assiste a todos os Portugueses, mormente aos professores e órgãos de comunicação social (uns, porque ensinam, outros, porque divulgam, as aberrações ortográficas acordistas.

Os signatários do Manifesto, referindo-se ao tal "critério da pronúncia", citam alguns exemplos, no que diz respeito às consoantes mudas, defendendo que o AO90 criou arbitrariamente centenas de entradas de dicionário, até aí inexistentes em qualquer das ortografias, como "conceção" por "concepção", "receção" por "recepção", "espetador" por "espectador", que geraram confusões semânticas: “conceção de crédito”, “receção económica” ou “espetador de cinema” são alguns exemplos.

No entanto, pela (i)lógica acordista, o AO90 deveria cortar a mais muda de todas as consoantes: o "h" inicial, em hora, humano, homem, humildade, hélice, humidade, e numa infinidade de vocábulos em que o agá é mudo, mas tão necessário como os cês e os pês em todos os vocábulos onde foram ignorantemente suprimidos.

(Atenção, que este ignorantemente só diz respeito a Portugal. No Brasil, a supressão das consoantes mudas só aos Brasileiros diz respeito, até porque o que se escreve e fala no Brasil é a variante de uma Língua (não um idioma) que cada um metamorfoseia como lhe dá mais jeito).     

De acordo com o Manifesto, o AO90 estabeleceu 17 normas que instituem duplas grafias ou facultatividades, assentando num critério que se pretende de acordo com as “pronúncias”, como por exemplo "corrupto" e "corruto", "ruptura" e "rutura", "peremptório" e "perentório".

No caso do vocábulo óptico (relativo aos olhos), com a supressão da consoante muda 'p', passou a 'ótico' (relativo aos ouvidos), o que gera situações deveras anedóticas, fundindo-se as doenças de ouvidos e olhos, numa só especialidade: a ótica. Então, nariz e olhos passam a ser uma e a mesma coisa.

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Pois quando uma LEI é injusta o correcto é desobedecer, diz o meu Mestre Mahatma Gandhi. Mas quando a lei não é lei, porque nem sequer existe, e é uma injusta RCM, então, desobedecer, além de ser correcto é um DEVER, porque é muito injusto, além de irracional, transformar uma Língua greco-latina, da família Indo-Europeia, num dialecto (ou chamem-lhe variante, o que vai dar ao mesmo) sul-americano, que nada tem a ver connosco.

Para os subscritores do Manifesto, como Constança Cunha e Sá e Eugénio Lisboa, em Portugal "a eliminação sem critério das consoantes 'c' e 'p', ditas 'mudas', afasta as ortografias do Português europeu e do Brasil", tendo ainda criado "desagregações nas famílias de algumas palavras", sendo que estas “desagregações provocam insólitas incoerências”, como "Egito" e "egípcios", produtos "lácteos" e "laticínios", os "epiléticos" que sofrem de "epilepsia" ou o "convector" que opera de modo "convetivo". Acrescenta ainda este Manifesto que «o facto de as facultatividades serem ilimitadas territorialmente, conduz a uma multiplicação gráfica caótica, como acontece com “contacto” e 'contato', 'aritmética' e “arimética”. E mais: o curso universitário de “Electrónica e Electrotecnia” pode ser grafado com 32 combinações diferentes, o que é manifestamente absurdo.

E aqui não foi equacionada a pronúncia das palavras às quais se suprimiram as consoantes, que têm valor diacrítico. Por exemplo, se se escreve “coação” obrigatoriamente deve ler-se “cuâção”. E quem não ler deste modo, além de escrever incorreCtamente a palavra, também a pronuncia incorreCtamente.  Dois erros em um.

Mas o mais absurdo surgiu entre a população que, diante da falsa obrigação (que se pensava ser com base numa lei) de aplicar o AO90, desatou a cortar, a torto e a direito, os cês e os pês, o que levou ao aparecimento das maiores aberrações ortográficas (não lhes chamaria erros), como "batérias", "impatos", "ténicas", "fição", "adatação", "atidão", "abruto" e "adeto", além de cortarem também outras consoantes, como, por exemplo, o 'b' em 'ojeção', ou o 'g' em 'dianóstico'".

Enfim, um caos completo, que continua a arrastar pela lama a nossa bela Língua Portuguesa, agora feita num monte de cacos, às mãos de quem não a sabe nem consegue pensar.

Helena Roseta, José Pacheco Pereira e Januário Torgal Ferreira, também subscritores deste Manifesto, salientaram que, no uso de maiúsculas e minúsculas, "o caos abunda e é caótica a forma como se utiliza o hífen, como por exemplo: "guarda-chuva" e "mandachuva", "cor-de-rosa" e "cor de laranja". Mas há muito mais. «Entre outras arbitrariedades, a supressão do acento agudo cria situações caricatas. A expressão popular: “Alto e pára o baile!”, na grafia do AO90 (Alto e para o baile) dá origem a leituras contraditórias, e a frase "Não me pelo pelo pelo de quem para para resistir" fica incompreensível».

E a acentuação e a hifenização também têm a função de facilitar a leitura. Algo que com o AO90 complicou.

E as chamadas de atenção para as aberrações continuam: «Para compensar o desaparecimento da consoante 'muda' e evitar o 'fechamento' da vogal anterior, imposto pelo AO90, na escrita corrente, surgem aberrações espontâneas como a colocação de acentos fora da sílaba tónica, como "correção'"escrito 'corréção', 'espetaculo' corrigido para 'espétaculo' ou mesmo 'letivo' que passa a 'létivo'".

Um caótico "caos ortográfico" que, de acordo com os subscritores do Manifesto, reflecte-se nos dicionários, nos correctores ortográficos, nos conversores, enfim, uma monumental mixórdia ortográfica, que vai cada vez ficando mais mixórdia, à medida que o tempo passa, prejudicando os estudantes portugueses que, coitados, não sabem a figura triste que fazem, ao saber falar e escrever correCtamente o Inglês ou o Castelhano,  mas são uma miséria a Português, falando-o e escrevendo-o “incorretamente” (“incurrêtâmente”).

É, pois, chegado o momento de pôr fim a esta tragédia portuguesa.

Isabel A. Ferreira

Fonte do texto:

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Eis aqui, completo, o poema “Tabacaria” – de Fernando Pessoa, declamado por Abujamra


TABACARIA
Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928

sábado, 21 de dezembro de 2019

Jean-Paul Sartre – a liberdade reside na escolha

Para o filósofo francês Jean-Paul Sartre, o ser humano é livre, e a liberdade reside no ato da escolha. Nós sempre escolhemos, afirma o filósofo, e não há como evitarmos. Quando dizemos que não há opções, na verdade estamos dizendo que não gostamos ou não queremos as que estão disponíveis, pois elas sempre existem.

     
Essa situação evoca uma experiência comum a todos. Imagine: nem que seja o “menos ruim”, é preciso tomar o remédio quando se está seriamente doente; seja por via injetável, seja por via oral, mesmo que nenhuma das duas opções seja prazerosa. Diante disso, podemos ainda escolher não tomar. Porém, nesse caso devemos estar cientes das consequências desta opção; nossa doença pode se agravar e isto é consequência de “não escolher”.

Sartre: não escolher já é uma escolha

Porém, ao escolher não escolher, já estamos escolhendo. Fugir da escolha, portanto, é impossível. Da mesma forma como fugir da liberdade é também impossível. Por isso estamos condenados a ser livres. Seremos sempre forçados a escolher e também responsáveis pelas consequências de nossas escolhas.
Quando fazemos uma escolha entre uma via e outra, julgamos e avaliamos com base nos valores que nos servem de referência. Se não os temos, escolhemos algo para preencher essa ausência. O valor, como seu motor, impulsiona o indivíduo a sempre agir, isto é, a escolher sempre entre um valor e outro, uma via e outra, e a executar uma ação. De qualquer forma, até mesmo nossos valores podem nascer diante das escolhas inevitáveis que temos de fazer.
Nesse sentido Sartre afirma que o ser humano está “condenado a ser livre”. Desde que nascemos até nossa morte, nossa vida consiste irremediavelmente em agir. Essa expressão ressalta a condição paradoxal (e talvez cruel) do ser humano: ao mesmo tempo que estamos condenados a agir, temos também de arcar com as consequências de nossas ações, feitas livremente apenas por nós mediante opções sempre existentes.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A aldeia da Indonésia onde se dança o vira e se canta em português

Quando os holandeses conquistaram a cidade de Malaca a Portugal, em 1641, escravizaram os sobreviventes portugueses e os seus descendentes que viviam nesta cidade malaia. Alguns destes escravos foram a seguir levados para a cidade de Jacarta, que os holandeses crismaram de Batavia (nome que os antigos romanos haviam dado à Holanda) e da qual fizeram o principal centro de actividades da Companhia Holandesa das Índias Orientais.

Aos escravos portugueses e mestiços trazidos de Malaca, vieram juntar-se outros portugueses e respectivos descendentes, capturados e escravizados na Índia, Ceilão e outras paragens.

Tugu

Em Jacarta, os holandeses esforçaram-se por eliminar as marcas culturais portuguesas que estes escravos traziam, obrigando-os a adoptar nomes holandeses ou, pelo menos, com uma sonoridade holandesa, e forçando-os a trocar a fé católica pelo calvinismo.
Obrigaram-nos ainda a viver num pedaço de terra situado a 10 km do centro da velha Batavia, chamado Tugu (Toegoe na ortografia holandesa), que agora se chama Kampung Tugu.
Tugu

Os escravos portugueses e mestiços de Tugu foram libertados em 1661. Foram então chamados Mardijker, palavra que significa “Libertos” e que é originária do sânscrito. É desta que deriva a palavra que em língua indonésia significa “Liberdade”: Merdeka.
Apesar dos esforços feitos pelos holandeses no sentido de levar esta gente a perder a sua identidade própria, ela conservou-a até aos nossos dias, teimosamente.
Estas pessoas continuam a acarinhar Portugal, trezentos e setenta anos depois de lhes terem cortado os laços que as uniam a este país, um país que elas não conhecem e que não esperam poder algum dia visitar, porque está no outro lado do mundo. Mas que é um país que elas também consideram seu.
Tugu
Se dúvidas houver relativamente a este facto, elas certamente desaparecerão depois de se ver a reportagem que se segue, que é de uma estação de televisão indonésia.
A reportagem está em indonésio, embora nela intervenham, em inglês, o embaixador de Portugal em Jacarta e uma leitora de português na universidade local. Mesmo que não se entenda uma única palavra da reportagem, as imagens são sobejamente eloquentes sobre os sentimentos dos Tugus relativamente a Portugal.
Tugu

Menos castigos, menos mentiras

Para que seu filho diga a verdade, é melhor não puni-lo ou ameaçá-lo quando ele mente. Foi isso que foi descoberto em um experimento recente, liderado pela professora Victoria Talwar, do Departamento de Educação e Aconselhamento Psicológico da Universidade McGill, na qual participaram 372 crianças entre 4 e 8 anos de idade.


O experimento foi assim: um pesquisador entrou com cada criança em uma sala onde havia uma câmera escondida. Ele lhe disse que havia um brinquedo atrás dele, mas ele não deveria se virar por um minuto em que estivesse do lado de fora.
Ao retornar, os pesquisadores perguntaram às crianças se elas haviam obedecido às instruções. Os resultados foram os seguintes: pouco mais de dois terços do total virou para ver o brinquedo (251 crianças de 372, ou seja, 67,5%), sendo as de mais idade as que menos se viraram.
Quando perguntados se eles haviam obedecido às instruções, 167 das 251 crianças que ignoraram disseram que sim (equivalente a 66,5%). O mais interessante para os pesquisadores foi que as crianças mostraram menos propensão a dizer a verdade quando sentiram medo de serem punidas. Por outro lado, quando solicitados a dizer a verdade simplesmente agradando os adultos, ou porque era a coisa certa, as crianças ficavam mais confortáveis e com mais ânimo em ser sinceros.
Por outro lado, verificou-se que quanto mais jovens as crianças, mais se concentravam em dizer a verdade para agradar aos adultos, enquanto as crianças mais velhas demonstravam ter normas de comportamento internalizadas, o que as fazia dizer a verdade porque consideravam ser correto. “O castigo não promove a busca da verdade. De fato, a ameaça da pena pode ter um efeito oposto ao reduzir a probabilidade de as crianças dizerem a verdade quando foram incentivadas a fazê-lo ”, afirmou Victoria Talwar.

Humilhar os outros não te faz forte, te faz infeliz

Como é de esperar, na vida nos deparamos com tudo, vivenciamos de tudo e aprendemos constantemente, isso é viver. Nas nossas relações durante a vida, nós iremos interagir com pessoas amáveis, generosas, que nos farão evoluir como seres humanos, mas, em contrapartida, nos depararemos também com pessoas amargas que, por se sentirem inseguras, ferem os outros.


Geralmente essas pessoas têm um complexo de inferioridade, consciente ou inconsciente, e por isso abusam de alguma posição entendida como privilegiada para descontar sua frustração em cima das outras, principalmente quando a vítima está em posição vulnerável.
Quando uma pessoa tenta humilhar outra de propósito, significa que:
1 – Ela tem um complexo de inferioridade em relação a quem ela tenta humilhar.
2 – Ela mesma é totalmente insegura sobre si mesma e em relação as realizações de quem ela tenta humilhar. Constranger e humilhar a outra pessoa é uma forma dela satisfazer seu complexo, criando uma falsa sensação de que seja superior.
3 – Sente-se ameaçada perante o potencial da suposta vítima e agir assim é uma forma de “botar o outro no seu devido lugar”.
Submeter outra pessoa a uma situação de humilhação não é um indicador de superioridade, mas o contrário é válido. A imagem que você vai conseguir passar de si mesmo é apenas a de uma pessoa fraca, frustrada e talvez com muito medo da outra pessoa a qual você esteja destratando.
Avalie-se e veja se o desdém, o descaso e o nojo que você coloca no seu tratamento em relação a uma pessoa de posição hierarquica inferior, não é apenas um modo de “marcar territótio”, um modo de mostrar quem manda, quando na verdade só está incoscientemente procurando se auto-afirmar perante si mesmo.
Humilhar outra pessoa não vai te blindar, não vai criar uma armadura impenetrável onde você possa se proteger de seus prórpios demônios. Fazendo isso você apenas estará escancarando sua personalidade frágil, mostrando aos outros o quanto é infeliz e que precisa pisar em alguém para se sentir um pouco melhor.
O certo é que você jamais terá o respeito daqueles a quem você constrange; talvez, no máximo, consiga despertar medo e, com certeza, muito ódio e desprezo daqueles a quem você humilha. Mas, se causar esse tipo de sentimento dos outros em relação a você é o que te apraz, deve ser porque, com certeza, você é uma pessoa com sérios problemas e deveria procurar ajuda.
Quem já esteve em situação de ser humilhado sabe que a “vítima” nunca enxerga aquele a quem lhe humilha como superior, portanto, tentar se impor por essas vias com o propósito de se afirmar sobre a outra, é apenas uma forma de mostrar sua fraqueza diante dela, que não reage por outros motivos que implicam em perdas e prejuízos a si ou a outrém a quem queira preservar e proteger, jamais pelo respeito que, evidentemente, não tem mesmo pelo humilhador.
Crédito da imagem: Kelly Vivanco

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O Farol do Bugio / visto da Cova do Vapor

Na conceção e planeamento estratégico da defesa do litoral Português, em geral, e do porto de Lisboa, em particular, surgiu como imperativo claro em meados do século XVI, que a defesa marítima de Lisboa deveria avançar até à foz do Tejo, de modo a tirar partido das dificuldades naturais que a sua barra colocava à navegação.





       
A sequência dos ataques da pirataria francesa e turca, sobretudo em 1552 e 1556, veio demonstrar a necessidade de reforçar a defesa do litoral, julgando-se que a decisão de “fortificar” S. Julião da Barra tenha ocorrido em 1556, ainda no reinado de D. João III e, posteriormente retomada em 1559 por iniciativa de D.ª Catarina.


A construção da fortaleza de S. Julião da Barra, veio confirmar a importância do extenso areal que lhe ficava fronteiro, dito da Cabeça Seca, julgando-se que os primeiros projectos para construção de um forte no baixio, terão sido da autoria de Francisco de Holanda, em 1571.
A consolidação da intenção, assim como os respectivos projectos e ensaios para a construção do Forte de S. Lourenço da Cabeça Seca, ter-se-ão iniciado por volta de 1590, sob a direcção do frade servita João Vicenzo Casale, mandado vir de Nápoles por Filipe I.
Seguiu-se-lhe na conceção e direcção das obras, Leonardo Turriano, igualmente de origem italiana, que foi arquitecto-geral do Reino, tendo como assistente o engenheiro António Simões.

O isolamento dos faroleiros era quebrado uma vez por mês, quando se deslocavam a terra para adquirir mantimentos. Porém, entre finais do século XIX e inícios do século XX, o degredo dos faroleiros foi amenizado pelo fenómeno do assoreamento do cachopo sul da barra do Tejo, atingindo proporções gigantescas e permitindo, no período da baixa-mar, a comunicação pedestre com a praia da Trafaria, existindo relatos de peregrinações das povoações ribeirinhas entre Cacilhas e Trafaria, à capela do forte, a qual era mantida pelas mulheres dos faroleiros.

O Forte e Torre de S. Lourenço foi classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 Julho de 1957, sendo reconhecido o seu valor histórico e cultural.Em 1959 o farol foi electrificado, com recurso à montagem de grupos electrogéneos passando a utilizar uma lâmpada de 500W/110V e, em 1960 entrou em funcionamento um novo sinal sonoro (nautofone).Enquadrado no plano de automatizações, substituiu-se em 1981 o aparelho ótico, por um pedestal rotativo de óticas seladas (PRB), sendo também montado um sistema de tele-sinalização e um detetor de nevoeiro, passando o farol a ser tele-controlado a partir da Central da Direcção de Faróis.
Na sequência da automatização do farol e da implantação do sistema de telecontrolo, o Farol do Bugio deixou de estar guarnecido por pessoal faroleiro em 1982.
Em 1994, o farol sofreu nova remodelação, tendo sido retirado a ótica PRB 21 e montada uma lanterna ótica ML 300, a funcionar a energia solar.No Inverno de 1993, a acção violenta do mar, fez derrubar uma parte significativa da plataforma inferior do forte, situação que se foi agudizando nos anos seguintes e exigindo urgentes acções profundas de reparação e restauro.Finalmente, entre 1997 e 2001, sob a égide da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, decorreram as obras de restauro, cobrindo o enrocamento do forte, as cantarias de pedra e alvenarias e as muralhas, tendo sido construído um robusto molhe circular e um novo cais de acostagem.
Em 16 de Julho de 2008, foi retirada a lanterna ML 300 e substituída por uma Vega VLB44 8 Tiras Dupla Vm, controlador de carga 2 – PROSTAR, e 4 painéis solares BP380J, aumentando o alcance luminoso para 15 milhas.

(foto tirada da net)

Valoriza a quem te dedica seu tempo, porque é algo que ele nunca vai recuperar

Temos o péssimo hábito de não valorizar o tempo que os outros nos dedicam. Uma conversa, um abraço , um sorriso, um como você se sente, um ” eu faço porque sei que você gostaria ” ou simplesmente um gesto de acompanhamento. Existem milhares de actos diários de pessoas ao nosso redor que não valorizamos.

Não é necessário que os segundos, horas ou minutos cheguem de nossa família, amigos ou parceiros. O tempo dos estranhos também se torna importante quando, por exemplo, graças a eles o dia pode começar com um sorriso porque seu bom dia foi cheio de alegria ou nos deu aquele impulso que precisávamos. A grandeza do povo está naqueles detalhes de pequeno tamanho, mas de grandes efeitos e afectos.

O grande valor do tempo

Dizem que um viajante que atravessava o deserto viu um árabe pensativo sentado ao pé de uma palmeira, ao lado de seus camelos carregados. O viajante supôs que ele era um comerciante de objectos de valor e que ia vender suas jóias, perfumes e tapeçarias a uma cidade vizinha.
Como ele não falava com ninguém por muito tempo, ele se aproximou do comerciante pensativo e disse:
-Bom amigo, felicidades! Você parece muito preocupado. Posso te ajudar em algo?
Ah! respondeu o comerciante “Estou muito angustiado porque acabei de perder a joia mais valiosa de todas …”
-Bem, a perda de uma jóia certamente não é um grande problema para você. Você carrega muitos deles em seus camelos e tenho certeza de que não vai custar você substituí-los.
-Repor? exclamou o comerciante. “Se fosse tão simples! Você não sabe o valor da minha perda …
– Qual é a jóia que você perdeu? – perguntou o viajante.
-Uma jóia como nenhuma outra, que nunca será feita novamente. Foi esculpido em um pedaço de pedra da vida e feito na oficina do tempo. Seus ornamentos eram vinte e quatro peças brilhantes, agrupadas em torno de sessenta menores … É impossível conseguir reproduzir outra gema com características semelhantes.
– Deve ser lindo, sim – disse o viajante – Mas, com muito dinheiro, você não poderia fazer outro?
-A jóia perdida era um dia … E um dia que está perdido, não se encontra de novo … »
Depois dessa história, o que é um dia para você? O que o seu tempo significa? Um minuto é suficiente para deixar uma marca indelével no coração de outra pessoa, escolher o que você quer fazer ou apreciar o que acontece. O importante é estar atento ao momento presente e aproveitá-lo com as pessoas que você quer e do jeito que você gosta, sabendo valorizar também a dedicação para com você dos outros.
Ainda que se perca dinheiro, ele pode ser recuperado, o tempo perdido não retorna. Não desperdice nem gaste o tempo em lamentar por não saber como aproveitar no momento. A partir de agora, aproveite e valorize-o como um dos ativos mais preciosos que existe.

Tempo não se exige, se escolhe

Algumas pessoas não são capazes de perceber o esforço de outras pessoas para tornar sua rotina mais suportável, para dar cor aos seus dias cinzentos ou para querer desfrutar de sua companhia. Há pessoas que vêem como obrigação o que é realmente uma escolha da parte dos outros. Há para quem o tempo dos outros passa despercebido, quem o valoriza como se fosse um tesouro e quem o exige do outro, como se fosse dele.
Cada um de nós está livre de quem e como dedicar seu tempo. Não vamos esquecer que minutos, horas e segundos são fragmentos da nossa vida e ninguém tem o poder de decidir livremente sobre eles.
Dedicar tempo se traduz em se importar, em um ‘te amo’, em oferecer apoio, demonstrar que ama a companhia. Porque definitivamente dedicar tempo é dedicar a vida.
Portanto, não devemos exigir dos outros o tempo, nem temos que mendigar daqueles que só pensam em si mesmos. O tempo não é comprado, trocado ou vendido. Passar tempo com o outro é uma escolha que brota de dentro e nos permite nos conectar emocionalmente com os outros.

O tempo é o maior presente que existe

Valorize quem te escreve, quem fala com você, ouve você, te faz um favor, te acompanha ou lembra de você porque quer, porque gosta de ti, porque sente você. As pessoas que lhe dão o seu tempo entendem que é a melhor coisa que podem lhe dar, pois saber oferecer é falar a linguagem do coração. Agradeça-lhes porque o tempo também oferece a possibilidade de forjar lembranças que mais tarde despertarão sentimentos de alegria, nostalgia e apreço.
Se você traduzir os tempos que os outros passam com você para linguagem afetiva, você entenderá que há mais quem se importa e se preocupa contigo do que você esperava. Por essa razão, valorize cada segundo do tempo que os outros dedicam a você, porque eles estão oferecendo a você o maior presente que existe: parte de sua vida.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

De regresso ao séc. XIX

Cova da Piedade/Almada:
Venha até ao Jardim da Cova da Piedade e sente-se num dos bancos de madeira, de costas para o movimento dos carros da Avenida 23 de Julho.

Neste percurso propomos-lhe recuar cerca de 100 anos no tempo, até uma época em que apenas existia um automóvel na Cova da Piedade.

Aprecie os arabescos do coreto, em ferro forjado, que parecem uma renda finíssima que alguém teceu na dureza do metal. Este trabalho é característico da Arquitectura do Ferro (séc. XIX).

                                         Jardim Cova da Piedade_Coreto
O coreto para o qual está a olhar recorda a Batalha da Cova da Piedade (1833): depois de uma caminhada a pé desde o Algarve, os Liberais enfrentaram os Miguelistas nesta freguesia. E apesar da desvantagem numérica, os apoiantes de D. Pedro ganharam esta luta e embarcando de Cacilhas para Lisboa. Na capital deu-se a derradeira vitória dos Liberais. Os nomes das avenidas 23 de Julho (Cova da Piedade) e 24 de Julho (Lisboa) assinalam exactamente o percurso da vitória liberal.

Jardim Cova da Piedade_canteiros em flor
Quando a indústria dita a arte António José Gomes, um rico e esclarecido industrial da Cova da Piedade, amante das inovações tecnológicas contribuiu para embelezar este largo. O seu Palácio destaca-se dos restantes edifícios do Largo 5 de Outubro.

Caminhe até este edifício, dos finais do séc. XIX, e aprecie alguns dos pormenores construtivos. No alto da sua fachada neoclássica destaca-se uma estátua de uma mulher com um martelo na mão e uma roda dentada por trás de si, uma clara alusão à indústria, actividade que ocupava o proprietário.

As varandas em ferro forjado são outra marca da revolução industrial. A Arte Nova é o novo movimento estético que se caracteriza, ao nível da construção e decoração, pelo uso de novos materiais, entre os quais o metal. O portão lateral do Palácio, o gradeamento do jardim e a escada espiralada nas traseiras do edifício, também são testemunhos deste novo estilo, merecendo um olhar atento.

Um centro operário
Jardim Cova da Piedade_Bancos

Retome ao passeio principal e apaixone-se pela calçada que lhe indica o caminho, em direcção ao “Chalet”. Apesar de ser da mesma época, o Chalet é uma típica casa suíça, de estilo romântico, com telhados em bico, próprio dos países nórdicos. Este Chalet, adquirido pela autarquia, será brevemente transformado na Casa do Professor.

Nas traseiras do Clube Recreativo Piedense repare num edifício “enferrujado”: em tempos foi a fábrica Bucknall & Sons, onde 821 trabalhadores produziam rolhas e aglomerados.
Volte à Rua Tenente Valadim para apreciar um típico bairro operário. As fachadas simples das casas, cada uma na sua cor, marcam o ritmo da rua, com uma sucessão de janelas e portas…

Ao horizontalidade da rua é apenas quebrada pelos silos da Cova da Piedade, ao qual está encostado, do lado esquerdo, a Fábrica de Moagem do Caramujo. Foi mandada construir por António José Gomes, destacando-se por ter sido o primeiro edifício em betão armado do país. Empregava 160 operários, usava a máquina a vapor e produzia 15 000 Kg de farinha por dia.
Igreja Matriz Cova da Piedade_Fachada

Industrial e humanista 
António José Gomes destacou-se não só pela aposta em novas tecnologias mas também pela sua humanidade. Na Cova da Piedade ganhou fama por dar assistência médica e apoio na doença aos seus trabalhadores, medidas vanguardistas para a época.
Também a população beneficiou com a sua acção benemérita: o melhoramento das ruas e do jardim, a aposta numa escola para adultos, a edificação de uma escola primária, a doação de livros e roupa para os mais novos são alguns dos actos por que ainda hoje é recordado.
Se quiser encarar este homem vá até ao jardim e procure o busto que aqui se fez instalar. A um passo está a Igreja Matriz da Cova da Piedade.





Texto-C.M.ALMADA

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Memórias de um passado recente:

Cova da Piedade:..Jardim,onde passar umas horas ao ar livre faz bem.
Até há bem pouco tempo... era assim,tinha instalações sanitárias para crianças e adultos
A imagem pode conter: planta, árvore, ar livre e natureza

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Ecomuseu Municipal do Seixal - Núcleo da Olaria Romana da Quinta do Rouxinol

Em 1986, na Quinta do Rouxinol, em Corroios, quando os serviços da Câmara Municipal do Seixal procediam à abertura de uma vala, tendo em vista a construção de um emissário de esgoto, foi detectada e identificada pelos serviços do Ecomuseu Municipal, a estrutura de um milenar forno romano.


Feitas as escavações, em colaboração com o Centro de Arqueologia de Almada, durante os verões de 1986 a 1990 pôr-se-iam a descoberto 2 fornos de planta circular com aproximadamente 2,5 metros de diâmetro e respetiva fossa de desperdícios, pertencentes a uma olaria romana datada entre a segunda metade do século II e a primeira do século IV.
Produziam-se neste fornos, para além da louça comum, jarros, malgas, potes ou taças, e também as tão características ânforas que se destinavam a fazer o transporte de produtos diversos para o vasto império.
O espólio recolhido nas escavações, após restaurado e classificado, encontra-se exposto no Núcleo Sede do Ecomuseu Municipal do seixal, tendo sido o conjunto arqueológico classificado de monumento nacional.
No seu conjunto, este espólio constitui uma das mais importantes coleções de cerâmica romana do nosso país, ilustrando profusamente o papel que a olaria do Rouxinol terá desempenhado, no abastecimento local, a Olisipo (Lisboa) e aos vários centros conserveiros da região.
Quinta de S.  Pedro
A Extensão do Ecomuseu Municipal do Seixal na Quinta de S. Pedro, localizada na proximidade do núcleo urbano de Corroios, integra sítio arqueológico onde o Serviço de Arqueologia do Ecomuseu realizou campanhas de escavação arqueológica entre 1994 e 2006.
Perdida a importância agrícola que teve até cerca de 1950 e quase esquecidos os seus usos sociais, a Quinta de S. Pedro foi, como muitas outras no concelho, invadida por uma urbanização a partir de 1993. Resistiu apenas a antiga zona residencial e a sua envolvente mais próxima, integradas no domínio público municipal e posteriormente cedidas pela autarquia ao Agrupamento 585 do Corpo Nacional de Escutas, que aí mantém a sua sede. As terraplanagens, contudo, atingiram e destruíram parte substancial de uma necrópole medieval-moderna (séculos XIII a XVIII) associada à antiga ermida da Quinta, desencadeando um processo de investigação histórica, arqueológica e antropológica que envolveu parcerias do Ecomuseu com o Centro de Arqueologia de Almada e com o Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.
Foram identificados 115 enterramentos e mais de uma centena de outros indivíduos em ossários, o que constitui uma das maiores séries antropológicas em estudo para contextos portugueses, com a particularidade de remontar ao reinado de D. Afonso III (1248-1279), em plena I.ª Dinastia, e atestar práticas funerárias bem mais antigas do que as registadas nas fontes documentais.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

PERDURARÁ NA MEMÓRIA:

O Jardim da Cova da Piedade remonta ao século XIX
A estrutura original do Jardim da Cova Piedade foi mantida até bem recentemente!
A imagem pode conter: céu, nuvem, árvore e ar livre

"A predilecção que a Cova da Piedade despertava na população justificou a recuperação do terreiro em 1873, através de ESFORÇOS conjuntos entre RESIDENTES com o apoio da casa real, e TAMBÉM a construção de um JARDIM que na época passou a ser um dos locais de eleição para os passeios domingueiros

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Pessoas ingratas: o “veneno” da ingratidão

“Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação da sua dívida.”- Sêneca“
Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança, um prazer. – Tácito
 
                                   
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Dizem que quem ajuda deve ter uma memória curta, mas quem recebe deve se assegurar de ter uma memória longa. Isso se aplica bem na teoria, mas sabemos que na prática o fusionamento é outro. Antes de prosseguir seria bom a gente fazer um auto-exame de consciência e apontar o dedo para nós mesmo, para não parecer um sujo falando do mal lavado. Somos pessoas gratas?
Há sim pessoas evoluídas que ajudam sem esperar retorno de gratidão. Certeza que a compensação, para esses seres, está no próprio ato de ajudar, que promove nelas um sentimento de bem estar, seja naqueles que fazem dessas atitudes uma missão, seja naqueles que são apenas “gente boa”, o tio legalzão do bairro. Nessas pessoas, o ato de se doar, já é uma característica em si mesmas e o reconhecimento é apenas um mimo, um afago na alma.
Claro que o fato da pessoa se doar sem esperar reconhecimento não isenta o ajudado de fazê-lo. Reconhecer, jamais esquecer e ser sempre grato é a parte que nos cabe nessa troca quando somos beneficiados por uma mão amiga. Mas, quem guarda no coração o calor dessa mão amiga? uma boa parte de nós não preserva esse calor, que só vai ser lembrado e sentido quando voltar a precisar se aquecer com ele.
Ser grato é uma atitude tão nobre (ou mais) quanto ser generoso e altruísta. E, pode crer, que é mais difícil mostrar gratidão que mostrar altruísmo. O altruísmo te coloca numa posição mais confortável; a gratidão requer humildade, exige que se reconheça que, em algum momento, nós fomos a parte dependente do outro. Mas, o certo é que todos nós somos dependentes uns dos outros, embora alguns achem que não.
A gratidão não é apenas um sentimento, é também uma habilidade e uma maneira de ver o mundo
Durante muito tempo pensou-se que a gratidão era apenas um sentimento que sentimos quando estamos sujeitos a ações benéficas de outros. Se alguém nos dá uma mão quando mais precisamos dela, nos dá um presente ou dedica parte de seu tempo, um sentimento de gratidão deve ser ativado automaticamente.
No entanto, a gratidão não é apenas uma emoção, ela também tem um componente cognitivo. Para que nos sintamos gratos, devemos primeiro ser capazes de apreciar. Apreciar o gesto que tiveram para nós, apreciar seus efeitos positivos e apreciar o esforço ou a intenção do outro. E a apreciação é uma habilidade que pessoas ingratas não desenvolveram.
Na verdade, psicólogos da Hope College, em Michigan, acreditam que pessoas ingratas simplesmente não têm a capacidade de se sentir gratas. Afirmam que a gratidão ” é uma experiência de abundância, com a consciência de que se é o destinatário de um bom presente do doador “, o que implica apreciar o próprio ato. Eles também explicam que “ gratidão é sobre doadores, presentes, destinatários e atitudes de doadores e receptores uns com os outros. É uma emoção profundamente social ”.
Tudo isso indica que a ingratidão é passível de ser administrada nos primeiros anos de vida. Se os pais não ensinarem seus filhos a valorizar e apreciar o que os outros fizeram por eles, é provável que as crianças eventualmente desenvolvam o que é conhecido como Síndrome do Imperador. Como resultado, elas arrastarão essa visão egocêntrica do mundo para a idade adulta e assumirão que os outros estão destinados a satisfazer suas necessidades e desejos. Esse modo de entender o mundo impedirá que experimentem gratidão.

Os 5 riscos que as pessoas ingratas enfrentam

Ingratidão não é um bom companheiro de viagem. É verdade que quem ajuda pode se sentir desapontado se não percebe gratidão no outro, mas quem não sente gratidão leva o pior.
1. Infelicidade crônica. “A infelicidade é uma doença contagiosa causada por uma deficiência crônica de gratidão ” , escreveu Mokokoma Mokhonoana e a ciência confirma: a capacidade de sentir gratidão tem sido associada a altos níveis de felicidade. De fato, o estudo realizado no Hope College, em Michigan, provou que a gratidão é um excelente indicador do nível de felicidade, bem-estar e satisfação na vida.
A ingratidão, ao contrário, nos condenaria a um ciclo de infelicidade crônica. Uma vez que a gratidão não é experimentada apenas pelas pessoas que nos dão a sua ajuda, mas também na vida, pessoas ingratas seriam condenadas a um ciclo de insatisfação. Não sendo capaz de apreciar a vida como um presente extraordinário, é mais provável que se sintam permanentemente insatisfeitos e insatisfeitos.
2. Amarrado ao trauma. Não há ferramenta melhor do que gratidão para lidar com situações adversas e traumas psicológicos. Vários estudos demonstraram que podemos nos sentir agradecidos em diferentes condições, mesmo em condições difíceis. Na verdade, as pessoas que se recuperam mais rapidamente do trauma são aquelas que aprendem a se concentrar nas coisas positivas de suas vidas, sentindo-se gratas por elas, em vez de se concentrarem no que perderam ou não tiveram.
A reavaliação centrada nos benefícios implica uma abordagem mais positiva que ativa emoções benéficas e provoca reações neurofisiológicas positivas. A gratidão nos ajuda a nos desconectar das emoções tóxicas e pensamentos ruminantes, permitindo que nos concentremos no positivo. Ou como Sonja Lyubomirsky disse “gratidão é um antídoto para emoções negativas, um neutralizador de inveja, hostilidade, preocupação e irritação”.
3. Mais problemas psicológicos. A longo prazo, a ingratidão gera um estado psicológico insalubre, caracterizado por ciclos de expectativas irrealistas e frustrações em que a pessoa é incapaz de apreciar de maneira justa o positivo que lhe aconteceu.
É por isso que não é estranho que um estudo realizado na Virginia Commonwealth University tenha revelado que pessoas ingratas correm maior risco de sofrer de distúrbios psicológicos, como depressão maior, distúrbio de ansiedade generalizada, diferentes tipos de fobias, bulimia nervosa, bem como queda em comportamentos aditivos, quer a nicotina, álcool e drogas.
4. Condenado ao desespero. Um dos maiores perigos que as pessoas ingratas enfrentam é que sua vida se torne uma profecia auto-realizável. A ingratidão faz com que os outros desistam de ser gentis com elas, então pessoas ingratas acabam presas na armadilha que criaram. Quando elas pararem de receber ajuda, pensarão que o mundo é um lugar hostil onde não há bondade, sem perceber que foram suas atitudes que fizeram com que os outros de afastassem.
Uma investigação conduzida na Universidade de Manchester mostrou que pessoas ingratas são mais dependentes e menos autônomas do que aquelas que experimentam gratidão, o que significa que elas estão em profunda necessidade de outras. Essas pessoas também têm problemas com a auto-aceitação e muitas vezes não têm um propósito na vida.
5. Pior saúde. A ingratidão não apenas condena a pessoa à amargura, mas também pode prejudicar sua saúde física. Ficou provado que a gratidão diminui o nível de estresse, ansiedade e preocupações, por isso não é estranho que um estudo realizado na Universidade de Michigan tenha descoberto que pessoas ingratas freqüentemente relatam níveis mais altos de estresse e um número maior de sintomas físicos
A boa notícia é que a gratidão pode se desenvolver. Uma pessoa ingrata não está condenada a ser assim pelo resto vida. O segredo é muito simples: não tome nada como garantido. Comece a pensar em sua vida como um presente maravilhoso. Afinal, como escreveu o romancista Thornton Wilder, “só podemos dizer que estamos vivos naqueles momentos em que nossos corações estão conscientes de nossos tesouros”.