domingo, 30 de junho de 2019
Consumo de peixe e carne é a principal causa da grande Pegada Ecológica do concelho de Almada
Projecto liderado pela associação ambientalista ZERO, pioneiro a nível mundial, calcula pela primeira vez a Pegada Ecológica e a Biocapacidade à escala do concelho. Começou por Almada... e vai propor novo sistema de financiamento dos municípios baseado no desempenho ambiental
sábado, 29 de junho de 2019
Patagónia – um dos lugares mais belos do mundo, na Argentina
A Patagónia é um planalto no sul da Argentina onde predominam as temperaturas baixas e uma humidade elevada.
Situa-se na região geográfica formada pelas províncias de Rio Negro, Neuquén, Chubut, Santa Cruz e Terra do Fogo. É a Meca dos desportos de aventura é um dos lugares mais belos do mundo, uma vez que esta região deslumbra com o contraste das paisagens, num momento inabitáveis e noutro arrebatador.
De um lado os Andes comportam gigantes cheios de neve que fazem as delícias dos montanhistas e esquiadores; do outro o Oceano Atlântico, gelado devido às correntes antárticas, mas rico em espécies marinhas, como pinguins, focas, baleias e orcas.
A maioria dos Turistas chega a Patagónia através da província de Rio Negro mais concretamente através da Estância de Bariloche.
Bariloche é fascinante no verão, altura em que é possível praticar canoagem e windsurf nas águas do lago Nahuel Huapi, e deslumbrante durante o inverno, época em que os amantes da neve podem praticar os seus desportos favoritos. É um dos extremos da belíssima travessia dos lagos andinos, que vai até Puerto Montt, no Chile.

El Calafat
Outro local de visita obrigatória é El Calafate, onde se pode observar o magnífico glaciar Perito Moreno, uma das paisagens mais belas da América do Sul e património da biosfera.
Outras atrações desta região são as cidades do litoral e os seus parques marítimos. Viedma, Trelew, Comodoro Rivadavia e Río Gallegos são os extremos da costa onde pode observar baleias-francas, leões-marinhos, pinguins de magalhães e aves das mais variadas espécies.

El Calafat
quarta-feira, 19 de junho de 2019
Antiga fabrica de óleo fígado de bacalhau:
Ginjal:
O cais do Ginjal, em Cacilhas, pode vir a acolher o 6.º hotel Savoy "na antiga fábrica de óleo de fígado de bacalhau" e deverá ser um 4 a 5 estrelas...admitiu o administrador do Grupo AFA, José Teixeira de Sousa.
Tudo no âmbito do projecto de reabilitação de grande parte da área do Ginjal, com cerca de um quilómetro à beira-rio na margem sul do Tejo e que se estende pela arriba, cujo Plano de Pormenor já foi aprovado em sessão de câmara.
A autarca, Inês de Medeiros, e o administrador do grupo madeirense AFA, Teixeira Sousa, expressaram publicamente a " 16 de Fevereiro de 2018 " a vontade de iniciar as obras até ao final do ano. “Tem que ser este ano. Até ao final do ano temos que ter equipamentos em obra”, afirmou o Teixeira de Sousa. Ao PÚBLICO explicou depois que os trabalhos vão começar pela construção das infra-estruturas da urbanização. Até ao arranque das obras, além do plano de pormenor, terá de estar concluído o plano de urbanização.
"Até ao final do ano de 2018 temos que ter equipamentos em obra”, afirmou Teixeira de Santos"
"depois veio novamente dizer...até final do 1º trimestre de 2019"
Já estamos a chegar ao final do 4º:
E mais não disse!
Vamos esperando por novidades...se as houver...e se merecemos.
terça-feira, 18 de junho de 2019
Monumento ao Poder Local
Este monumento encontra-se instalado na Estrada da Algazarra, junto ao cruzamento com a Rua da Alembrança. (Feijó)
sexta-feira, 14 de junho de 2019
O cérebro de um mentiroso funciona de maneira diferente
Quando alguém mente de forma repetida, deixa de ter uma resposta emocional às suas próprias falsidades. Assim, e ante a uma ausência total de sentimentos, essa prática se torna mais fácil e se converte num recurso habitual. É por isso que os neurologistas chegaram à conclusão de que o cérebro de um mentiroso funciona de maneira diferente: são mentes habilmente treinadas para esse propósito.

Se há algo que caracteriza o cérebro humano é a sua plasticidade, sabemos disso. Portanto, não ficaremos surpresos em saber que mentir é, afinal, uma habilidade como qualquer outra, e que, para manter um bom nível de excelência, basta praticar diariamente. Algumas pessoas sentem paixão por matemática , design ou escrita, disciplinas que por si só também modelam cérebros distintos com base em nossos estilos de vida, nossas práticas usuais.
“Uma mentira pode salvar o presente, mas condena o futuro.”
-Buda-
O campo da psicologia e da sociologia sempre se interessou pelo mundo das mentiras e do engano. No entanto, por algumas décadas e em vista dos grandes avanços nas técnicas de diagnóstico, é a neurociência que está nos oferecendo informações mais valiosas e, ao mesmo tempo, perturbadoras. A razão? Se disséssemos neste exato momento que a personalidade desonesta é o resultado do treinamento e da habituação contínua , é possível que mais de um se sinta surpreso.
Quem começa com as pequenas mentiras e as transforma em hábito, induz o cérebro a um estado progressivo de dessensibilização. Pouco a pouco, grandes mentiras doem menos e tornam-se um modo de vida …
O cérebro de um mentiroso e a amígdala
A maioria de nós se impressiona com certos comportamentos daqueles agentes sociais que vivem no nosso dia a dia. Vemos, por exemplo, alguns políticos agarrados às suas mentiras, defendendo sua honestidade e normalizando atos que por si mesmos são altamente repreensíveis e até mesmo criminosos. Essas dinâmicas estão no papel de funcionários públicos ou talvez haja algo biológico?
Tali Sharot , professor de neurociência cognitiva da University College London, nos diz que há de fato um componente biológico, mas também um processo de treinamento . Assim, a estrutura cerebral que está diretamente relacionada a esses comportamentos desonestos é, sem dúvida, a amígdala. O cérebro do mentiroso realmente passa por um processo sofisticado de auto-treinamento, onde você acaba dispensando toda a emoção ou culpa.
Na revista Nature Neuroscience temos um artigo muito completo publicado em 2017, onde é detalhado. No entanto, e para entender melhor, daremos um exemplo. Imagine um jovem que chega a uma posição de poder em sua companhia. Para transmitir liderança e confiança em seus funcionários, recorre a pequenas mentiras. Essas dissonâncias, esses pequenos atos repreensíveis fazem nossa amígdala reagir. Essa pequena estrutura do sistema límbico relacionada à nossa memória e reações emocionais é o que limita o grau em que estamos dispostos a mentir.
Agora, esse jovem acaba transformando o uso de mentiras em um recurso constante. Seu trabalho nessa organização é baseado no uso permanente e deliberado do engano. Quando essa abordagem é habitual, a amígdala pára de reagir, cria tolerância e não mais emite nenhum tipo de reação emocional. O sentimento de culpa desaparece, não há remorso ou preocupação.
O cérebro de um mentiroso, por assim dizer, se adapta à desonestidade.
A mentira faz o cérebro funcionar de uma maneira diferente
Aquele que mente precisa de duas coisas: memória e frieza emocional . Isto é o que eles nos dizem em um dos livros mais completos sobre o cérebro de um mentiroso: “Por que mentimos … especialmente para nós mesmos: A ciência do engano” pelo professor de psicologia Dan Ariely. Da mesma forma, também estamos convidados a descobrir outros processos neurológicos que não sejam menos interessantes sobre o assunto.
Em um experimento conduzido pelo próprio Dr. Ariely, revelou que a estrutura cerebral dos mentirosos patológicos tem 14% menos substância cinzenta. No entanto, eles tinham entre 22 e 26% mais substância branca no córtex pré-frontal . O que significa isto? Basicamente, o cérebro de um mentiroso estabelece muito mais conexões entre suas memórias e suas idéias . Essa maior conectividade permite-lhes dar consistência às suas mentiras e acesso mais rápido a essas associações.
Todos esses dados nos dão uma pista sobre como a desonestidade é desenvolvida a partir de dentro, daqueles processos cognitivos que gradualmente adquirem maior solvência à medida que os praticamos, assim como nosso cérebro também deixa de adicionar o componente emocional a esses atos.
Assim, o Dr. Airely não deixa de ver nessas práticas algo verdadeiramente assustador. O fato de a amígdala deixar de reagir a certos fatos revela que estamos perdendo aquilo que, de alguma forma, nos torna humanos . Quem não vê mais que suas ações têm consequências sobre os outros, perde sua nobreza, a bondade natural que supostamente deveria definir a todos nós.
O cérebro de um mentiroso é moldado por um conjunto de motivações sombrias. Poderíamos dizer que por trás dessa pessoa que opta por fazer da mentira o seu modo de vida, há uma série de objetivos muito específicos: desejo de poder, status, dominação, interesse pessoal … É a ideologia de quem decide em um dado momento, priorizar a si mesmo acima dos outros. E nada pode ser mais perturbador.
Vamos pensar sobre isso.
Traduzido de La Mente es Maravillosa
14/06/2019
-Buda-
A maioria de nós se impressiona com certos comportamentos daqueles agentes sociais que vivem no nosso dia a dia. Vemos, por exemplo, alguns políticos agarrados às suas mentiras, defendendo sua honestidade e normalizando atos que por si mesmos são altamente repreensíveis e até mesmo criminosos. Essas dinâmicas estão no papel de funcionários públicos ou talvez haja algo biológico?
Aquele que mente precisa de duas coisas: memória e frieza emocional . Isto é o que eles nos dizem em um dos livros mais completos sobre o cérebro de um mentiroso: “Por que mentimos … especialmente para nós mesmos: A ciência do engano” pelo professor de psicologia Dan Ariely. Da mesma forma, também estamos convidados a descobrir outros processos neurológicos que não sejam menos interessantes sobre o assunto.
Todos esses dados nos dão uma pista sobre como a desonestidade é desenvolvida a partir de dentro, daqueles processos cognitivos que gradualmente adquirem maior solvência à medida que os praticamos, assim como nosso cérebro também deixa de adicionar o componente emocional a esses atos.
Vamos pensar sobre isso.
14/06/2019
sexta-feira, 7 de junho de 2019
Os Paços do Concelho e o Pelourinho de Almada
O Pelourinho de Almada esteve em frente deste edifício desde uma data desconhecida até ser destruído em 1868, após o que as duas peças restantes estão guardadas no Convento dos Capuchos, na Caparica.
Almada, Camara Municipal, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 11, década de 1900.
Imagem: Delacampe
Imagem: Delacampe

Elevação da sede do município a cidade em 21/06/1973
Ordenação heráldica do brasão e bandeira
Publicada no Diário da República, III Série de 30/12/1985 Armas
Escudo de azul, com um castelo de ouro aberto e iluminado de vermelho, tendo a torre central carregada por uma cruz de Santiago, de vermelho, e as laterais carregadas, cada uma por um escudete de azul em ponta, besantado de prata. O castelo assente num monte de penhascos de negro, realçados de prata e de verde, cortado por três faixetas ondadas, duas de prata e uma de azul. Coroa mural de cinco torres de prata. Listel branco com os dizeres : " CIDADE DE ALMADA
Bandeira - Gironada de azul e amarelo, cordões e borlas de ouro e azul. Haste e lança de ouro.
Bandeira para hastear em edifícios (2x3)
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Estandarte para cerimónias e cortejos (1x1
Anterior Ordenação heráldica do brasão e bandeira
Publicada no Diário do Governo, I Série de 25/05/1936
Armas - Escudo de azul, com um castelo de ouro aberto e iluminado de vermelho, tendo a torre central carregada por uma cruz de Santiago de vermelho e as laterais carregadas cada uma por uma quina de Portugal antigo. O castelo assente num monte de penhascos de negro realçado de prata e de verde, cortado por três faixas onduladas, duas de prata e uma de azul. Coroa mural de quatro torres de prata. Listel branco com os dizeres : " VILA DE ALMADA "

PAÇOS DO CONCELHO
Pelourinho de Almada
Detalhes da DGPC
"Em 9-07-2014 foi solicitada à CM de Almada informação sobre a eventual intenção de reconstruir o pelourinho no seu primitivo local, de forma a respeitar o previsto no art.º 4.º do Decreto-Lei n.º 23 122, de 11-10-1933, ou se os dois fragmentos irão continuar musealizados, caso em que se ponderará a sua desclassificação
Em 28-05-2014 a CM de Almada informou que os dois fragmentos localizados do Pelourinho de Almada a parte superior - uma bola torsa - e a coluna, em brecha da Arrábida) se encontram em depósito nos Serviços de Arqueologia da Divisão de Museus e património Municipal
Em 8-12-2008 foi solicitada à CM de Almada informação sobre a localização dos fragmentos existentes
Decreto n.º 23 122, DG, I Série, n.º 231, de 11-10-1933
Almada possui uma longa e atribulada história. Conquistada por D. Afonso Henriques em 1147, juntamente com Lisboa e com Palmela, a cidade viveu sempre uma relação de extrema proximidade com a capital, facto bem testemunhado pelo primeiro documento de foral passado por Afonso Henriques, em 1170, à comunidade de mouros forros (posteriormente confirmado por D. Afonso II em Dezembro de 1217). Em 1190, D. Sancho I doou-a aos cavaleiros da Ordem de Santiago, principais detentores das zonas a Sul do Tejo actualmente inseridas na Península de Setúbal. Data dessa altura o seu foral, destinado a organizar minimamente a vida social e económica da região. Nos séculos seguintes, Almada prosperou a ponto de D. Dinis a desafectar aos espatários, por troca com as vilas de Almodôvar, Ourique e Aljezur, e integrá-la na coroa, facto que ocorreu em 1297.
O pelourinho da vila não teve origem na Baixa Idade Média, mas sim nos princípios do século XVI, altura em que todo o país foi objecto de um amplo movimento de reforma concelhia. A 1 de Junho de 1513, D. Manuel passou foral novo à vila, renovando, desta forma, o estatuto concelhio da localidade.
Subsistem muitas dúvidas a respeito da localização exacta desse pelourinho quinhentista. De acordo com um documento referido por Raúl Pereira de Sousa, ele situava-se nas traseiras da Igreja de Santiago, junto ao local onde, pelo século XV, se reunia habitualmente a vereação municipal (SILVA, 1999, p.30). Terá sido esta a zona escolhida pelo poder quinhentista para implantar o pelourinho, correspondendo, no fundo, à secção urbana nova e em expansão ainda por essa altura.
Durante séculos, este monumento foi o mais importante símbolo do estatuto concelhio de Almada, chegando a transitar, em época desconhecida, para a frente dos Paços do Concelho. Todavia, a sua história teve um quase-final trágico. Destruído em 1868, dele apenas se conservam duas peças, actualmente em depósito no convento de Santo António dos Capuchos, da Caparica. Uma delas foi resgatada dos alicerces do coreto do Jardim do Castelo, o que prova que, após a sua destruição, ele foi segmentado e aproveitado para outras edificações (IDEM, p.30).
Estes fragmentos, que pertenceram ao fuste e ao remate, não permitem uma reconstituição fidedigna, mas possibilitam uma aproximação histórico-artística de alguma importância. O material utilizado foi a brecha da Arrábida, uma das pedras mais sistematicamente aproveitadas na região. O segmento de fuste é torso e não apresenta qualquer decoração, ao contrário das realizações mais esteticamente cuidadas do reinado de D. Manuel. Quanto à parte remanescente do remate, possuímos uma parcela igualmente torsa, de secção tronco-cónica (MALAFAIA, 1997, p.449), desconhecendo-se se existia capitel ou outra forma de coroamento."
Distrito: Setúbal
"Em 9-07-2014 foi solicitada à CM de Almada informação sobre a eventual intenção de reconstruir o pelourinho no seu primitivo local, de forma a respeitar o previsto no art.º 4.º do Decreto-Lei n.º 23 122, de 11-10-1933, ou se os dois fragmentos irão continuar musealizados, caso em que se ponderará a sua desclassificação
Em 28-05-2014 a CM de Almada informou que os dois fragmentos localizados do Pelourinho de Almada a parte superior - uma bola torsa - e a coluna, em brecha da Arrábida) se encontram em depósito nos Serviços de Arqueologia da Divisão de Museus e património Municipal
Em 8-12-2008 foi solicitada à CM de Almada informação sobre a localização dos fragmentos existentes
Decreto n.º 23 122, DG, I Série, n.º 231, de 11-10-1933
Almada possui uma longa e atribulada história. Conquistada por D. Afonso Henriques em 1147, juntamente com Lisboa e com Palmela, a cidade viveu sempre uma relação de extrema proximidade com a capital, facto bem testemunhado pelo primeiro documento de foral passado por Afonso Henriques, em 1170, à comunidade de mouros forros (posteriormente confirmado por D. Afonso II em Dezembro de 1217). Em 1190, D. Sancho I doou-a aos cavaleiros da Ordem de Santiago, principais detentores das zonas a Sul do Tejo actualmente inseridas na Península de Setúbal. Data dessa altura o seu foral, destinado a organizar minimamente a vida social e económica da região. Nos séculos seguintes, Almada prosperou a ponto de D. Dinis a desafectar aos espatários, por troca com as vilas de Almodôvar, Ourique e Aljezur, e integrá-la na coroa, facto que ocorreu em 1297.
O pelourinho da vila não teve origem na Baixa Idade Média, mas sim nos princípios do século XVI, altura em que todo o país foi objecto de um amplo movimento de reforma concelhia. A 1 de Junho de 1513, D. Manuel passou foral novo à vila, renovando, desta forma, o estatuto concelhio da localidade.
Subsistem muitas dúvidas a respeito da localização exacta desse pelourinho quinhentista. De acordo com um documento referido por Raúl Pereira de Sousa, ele situava-se nas traseiras da Igreja de Santiago, junto ao local onde, pelo século XV, se reunia habitualmente a vereação municipal (SILVA, 1999, p.30). Terá sido esta a zona escolhida pelo poder quinhentista para implantar o pelourinho, correspondendo, no fundo, à secção urbana nova e em expansão ainda por essa altura.
Durante séculos, este monumento foi o mais importante símbolo do estatuto concelhio de Almada, chegando a transitar, em época desconhecida, para a frente dos Paços do Concelho. Todavia, a sua história teve um quase-final trágico. Destruído em 1868, dele apenas se conservam duas peças, actualmente em depósito no convento de Santo António dos Capuchos, da Caparica. Uma delas foi resgatada dos alicerces do coreto do Jardim do Castelo, o que prova que, após a sua destruição, ele foi segmentado e aproveitado para outras edificações (IDEM, p.30).
Estes fragmentos, que pertenceram ao fuste e ao remate, não permitem uma reconstituição fidedigna, mas possibilitam uma aproximação histórico-artística de alguma importância. O material utilizado foi a brecha da Arrábida, uma das pedras mais sistematicamente aproveitadas na região. O segmento de fuste é torso e não apresenta qualquer decoração, ao contrário das realizações mais esteticamente cuidadas do reinado de D. Manuel. Quanto à parte remanescente do remate, possuímos uma parcela igualmente torsa, de secção tronco-cónica (MALAFAIA, 1997, p.449), desconhecendo-se se existia capitel ou outra forma de coroamento."
Distrito: Setúbal
Concelho: Almada
Tipo de Património
Património Material
Classificação
Imóvel de Interesse Público
Proteção Jurídica
Decreto nº 23 122, DG 231, de 11-10-1933
Identificação Patrimonial
Monumento/Edifício
Tipologia original
Arquitectura Civil - Mobiliário
Valor patrimonial
Valor histórico
Áreas Artísticas
Cantaria
Descrição
Apenas restam alguns fragmentos, parte do fuste encontra-se no Convento dos Capuchos.
Estado de Conservação
Morada
Convento dos Capuchos - Rç Lourenço Pires de Távora, 42, Monte de Caparica
2825
COSTA DE CAPARICA
Bibliografia
LOPES, Flávio (coord.), Património Classificado - Arquitectónico e Arqueológico - inventário, vol. II, Lisboa, IPPAR, 1993.
Data de atualização
11/05/2009
Foi tudo o que consegui saber sobre o PELOURINHO de ALMADA.
(Não conheço fotos)
Foi tudo o que consegui saber sobre o PELOURINHO de ALMADA.
(Não conheço fotos)
terça-feira, 4 de junho de 2019
Cova da Piedade
Esta nora de ferro de desenho requintado, hoje situada em terrenos da Escola Preparatória da Cova da Piedade e classificada como de interesse municipal, abastecia de água a quinta de António José Gomes.

sábado, 1 de junho de 2019
40 frases da poetisa Cora Coralina
Morta… serei árvore, serei tronco, serei fronde e minhas raízes enlaçadas às pedras de meu berço são as cordas que brotam de uma lira. — Cora Coralina

Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores. — Cora Coralina
Eu sou a dureza desses morros revestidos, enflorados, lascados a machado, lanhados, lacerados. Queimados pelo fogo Pastados, calcinados e renascidos. — Cora Coralina
Aprendi que mais vale lutar do que recolher dinheiro fácil. Antes acreditar do que duvidar. — Cora Coralina

Anna Lins dos Guimarães, ou simplesmente Cora Coralina, começou a escrever os seus primeiros textos aos 14 anos, publicando-os posteriormente nos jornais da cidade de Goiânia, e nos jornais de outras cidades, como constitui exemplo o semanário “Folha do Sul” da cidade goiana de Bela Vista e nos periódicos de outros rincões, assim como a revista A Informação Goiana do Rio de Janeiro, que começou a ser editada a 15 de julho de 1917. Apesar da pouca escolaridade, uma vez que cursou somente as primeiras quatro séries.
Os elementos folclóricos que faziam parte do cotidiano de Ana serviram de inspiração para que aquela frágil mulher se tornasse a dona de uma voz inigualável e sua poesia atingisse um nível de qualidade literária jamais alcançado até aí por nenhum outro poeta do Centro-Oeste brasileiro.
Senhora de poderosas palavras, Ana escrevia com simplicidade e seu desconhecimento acerca das regras da gramática contribuiu para que sua produção artística priorizasse a mensagem ao invés da forma. Preocupada em entender o mundo no qual estava inserida, e ainda compreender o real papel que deveria representar, Ana parte em busca de respostas no seu cotidiano, vivendo cada minuto na complexa atmosfera da Cidade de Goiás, que permitiu a ela a descoberta de como a simplicidade pode ser o melhor caminho para atingir a mais alta riqueza de espírito.
Quarenta frases das muitas que compõem a sua belíssima obra:
Eu sou a terra, eu sou a vida. Do meu barro primeiro veio o homem. De mim veio a mulher e veio o amor. Veio a árvore, veio a fonte. Vem o fruto e vem a flor. — Cora Coralina
Quarenta frases das muitas que compõem a sua belíssima obra:
Eu sou a terra, eu sou a vida. Do meu barro primeiro veio o homem. De mim veio a mulher e veio o amor. Veio a árvore, veio a fonte. Vem o fruto e vem a flor. — Cora Coralina
Enfeitei de folhas verdes a pedra de meu túmulo num simbolismo de vida vegetal.— Cora Coralinha
Bem por isso mesmo diz o caboclo: a alegria vem das tripas — barriga cheia, coração alegre. O que é pura verdade. — Cora Coralina
Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou. Ensinou a amar a vida e não desistir da luta, recomeçar na derrota, renunciar a palavras e pensamentos negativos. — Cora Coralina
Procuro suportar todos os dias minha própria personalidade renovada, despencando dentro de mim tudo que é velho e morto. — Cora Coralina
O amigo não passa a mão quando fizemos algo errado, está firme ao nosso lado, puxa a orelha, chama a razão! — Cora Coralina
Nasci em tempos rudes. Aceitei contradições, lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo. Aprendi a viver. — Cora Coralina
Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.— Cora Coralina
Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma. — Cora Coralina
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. — Cora Coralina
Criança periférica, rejeitada / Teu mundo é o submundo. — Cora Coralina
Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. — Cora Coralina
Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores. — Cora Coralina
O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria, se aprende é com a vida e com os humildes. — Cora Coralina
O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher. — Cora Coralina
A Verdadeira coragem é ir atrás de seus sonhos mesmo quando todos dizem que ele é impossível. — Cora Coralina
Todos estamos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo. — Cora Coralina
Me esforço para ser melhor a cada dia. Pois bondade também se aprende. — Cora Coralina
Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. — Cora Coralina
É que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça. — Cora Coralina
Se temos de esperar, que seja para colher a semente boa que lançamos hoje no solo da vida. Se for para semear, então que seja para produzir milhões de sorrisos, de solidariedade e amizade. — Cora Coralina
Verso do poema: minha cidade, minha vida, meus sentimentos, minha estética, todas as vibrações de minha sensibilidade de mulher, têm, aqui, suas raízes. — Cora Coralina
Eu sou a dureza desses morros revestidos, enflorados, lascados a machado, lanhados, lacerados. Queimados pelo fogo Pastados, calcinados e renascidos. — Cora Coralina
Coração é terra onde ninguém vê. — Cora Coralina
Poeta, não é somente o que escreve. É aquele que sente a poesia, se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso. — Cora Coralina
Mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros. — Cora Coralina
Acredito nos jovens à procura de caminhos novos abrindo espaços largos na vida. Creio na superação das incertezas deste fim de século. — Cora Coralina
Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos. — Cora Coralina
Nas palmas de tuas mãos leio as linhas da minha vida. — Cora Coralina
Versos… não. Poesia… não. Um modo diferente de contar velhas estórias. — Cora Coralina
Renovadora e reveladora do mundo. — Cora Coralina
Embora não possamos acrescentar dias à sua vida, podemos acrescentar vida aos seus dias. — Cora Coralina
Aprendi que mais vale lutar do que recolher dinheiro fácil. Antes acreditar do que duvidar. — Cora Coralina
Não lamente o que podia ter e se perdeu por caminhos errados e nunca mais voltou. — Cora Coralina
Quis ser um dia, jardineira de um coração. Cavei, plantei. Na terra ingrata nada criei. — Cora Coralina
Procuro suportar todos os dia minha própria personalidade renovada, despencando dentro de mim, tudo que é velho e morto. — Cora Coralina
Melhor do que a criatura, fez o criador a criação. A criatura é limitada. O tempo, o espaço, normas e costumes. Erros e acertos. A criação é ilimitada. Excede o tempo e o meio. Projeta-se no cosmos. — Cora Coralina
A humanidade se renova no teu ventre. Cria teus filhos, não os entregues à creche. Creche é fria, impessoal. Nunca será um lar para teu filho. Ele, pequenino, precisa de ti. Não o desligues da tua força maternal. — Cora Coralina
Linhas cruzadas, sinuosas, interferindo no teu destino. Não te procurei, não me procurastes – íamos sozinhos por estradas diferentes. — Cora Coralina
Mulher forte e talentosa são adjetivos que caracterizam Cora Coralina. Agora que você conheceu um pouco melhor sobre a poetisa brasileira e sua obra singela e tocante, que tal conferir nossa lista de frases de Fernanda Pessoa e imergir um pouco mais na literatura rica de nosso país? — Cora Coralina
domingo, 26 de maio de 2019
Pedro Barroso - Viva quem canta
Pedro Barroso, 67 anos, é uma das míticas vozes da música de contestação do período do 25 de abril. Quase meio século volvido, retirado do meio mediático e com a saúde a declinar, permanecem em Pedro Barroso as canções com história e as memórias daquele tempo em que se levou a boa música às massas isoladas e sem instrução. Colega de Zeca Afonso e de tantos outros que o acompanharam, resistiu à mudança dos tempos e de mentalidades, ao declínio da música ligeira e dos versos com subtexto em prol da superficialidade do espetáculo. A viver em Riachos, Torres Novas, Pedro Barroso tem mantido os concertos e a edição de discos, tendo inclusive publicado um livro de memórias. Reconhece-se, porém, no crepúsculo da vida.
Em Pedro Barroso não há silêncio. Conforme afirmava na música, “cantarei, cantarei, à chuva, ao sol, ao vento, ao mar”. Gosta de lembrar a juventude, os nomes, as músicas, as guerras. Alguma inconsciência que ditava a força da sua geração para lutar através da música, numa aventura que, para ele, começou no ecrã da televisão.
Nasceu em Lisboa em 1950, António Pedro da Silva Chora Barroso, filho de um professor que dá hoje nome à EB 2/3 em Riachos, próximo da casa onde hoje vive.
sábado, 25 de maio de 2019
Margem Sul
Almada Delimitada - séc. XIII ao séc. XIX
A preocupação régia em valorizar as zonas regionais pouco povoadas em pontos estratégicos do Sul do país, recentemente conquistados aos muçulmanos, e chamar à sua posse Almada e o seu termo, constituiu o principal motivo que levou o Rei D. Dinis a conceder uma carta de escambo – carta de permutação – com a Ordem de Santiago, a 1 de Dezembro de 1297.

Almada na posse real vai assistir à primeira delimitação oficial do território almadense, através do Stormento de Devison, a 4 de Dezembro de 1297.
Almada era, então, uma das mais representativas comunidades ribeirinhas da margem sul do Tejo. As mais antigas freguesias da vila eram Santa Maria do Castelo de Almada e Santiago, cujas igrejas e padroados estiveram ligados à Ordem Militar de Santiago.
A vila de A1mada era, no decorrer dos tempos, o espaço urbano mais privilegiado no Termo, ou seja, o centro administrativo, militar, religioso, de produção de bens e de comércio. Cacilhas era o seu principal porto marítimo da região que proporcionava o fácil escoamento dos produtos para Lisboa.
Em 1513, D. Manuel I atribui a Almada novo Foral, que proporciona transformações económicas, sociais e políticas. As primeiras referências da população e das freguesias de Almada começam a ser registadas em documentos cadastrais.
O Termo de Almada adquiriu uma expressão significativa aquando da expansão marítima portuguesa, sendo parte integrante da zona de influência económica de Lisboa.
A população da vila e termo de Almada rondava, no século XVII, em cerca de 2.500 habitantes. Na época filipina, assistiu-se a diversos fluxos migratórios oriundos de várias regiões do reino, como Estremadura, Beiras, Entre Douro e Minho, Alentejo e Algarve. Verificava-se um movimento de deslocação populacional de Norte para o Sul.
Com a reforma administrativa de 1836, no reinado de D. Maria, foi desanexado grande parte do território de Almada, cerca de metade da área territorial passou a integrar o novo concelho do Seixal, constituído pelas freguesias de Seixal, Arrentela, Paio Pires e Amora.
No seguimento da reforma administrativa de 1878 permaneceram duas freguesias: Almada (com a união de Santa Maria do Castelo e a de Sant’iago) e Nossa Senhora do Monte de Caparica.
Em 1898, Amora e Corroios são desanexados da área administrativa e política do Concelho de Almada.
Os Bravos de Almada
Porque não pelejou mais a frota com a de Castela, e como EL REI mandou combater Almada
Paços do Concelho
Tendo o Mestre o sentido e o cuidado de fornecer bem a sua frota de gentes para pelejar contra a de Castela, pelas razões que já foram tocadas, começou a preparar com os da cidade, para a sua defensão e reforço, tudo o que viu que cumpria a tão grande feito, e as contrárias coisas que acontecer podiam houve que as deixar nas mãos da sorte; e esperando tempo oportuno para se pôr isto em obra, sobreveio a elRei de Castela mais frota da que até então tinha, convém a saber: vinte e uma naus e três galés armadas, não havendo ainda uma semana que a peleja das outras naus ocorrera.
Assim que elRei tinha, em toda a sua frota, sessenta e uma naus, afora as carracas, e dezasseis galés e uma galeota, as quais mandou deitar âncora ao longo da cidade desde Cata-que-farás até à Porta da Cruz, segundo a ordenança que tendes ouvida. E vendo o Mestre a desigualdança da frota, e as grandes avantagens que elRei de Castela tinha em semelhante feito, conveio em desistir do que tinha cuidado.Neste comenos, havendo já cerca de dois meses que a vila de Almada estava cercada, desde aquele dia em que Diego Lopes foi preso como dissemos, era o lugar muito afincado de combates que lhe davam os seus inimigos da parte da terra onde tinham seu alojamento, que da outra, do mar, nenhuma coisa lhe podiam empecer pela grande altura do monte, salvo no tolher da água, que lha vedaram, o qual lhes foi maior guerra que outras armas ou cavas, ou ainda uma poderosa bombarda com que lhes fizeram alguns tiros, de guisa que os que ali dentro estavam, que mantinham a voz do Mestre, começaram a passar coisas ásperas de sofrer, das quais é bem que em breve saibais, pois ainda não foram tocadas.
Ora assim foi que, quando a frota de Castela veio sobre Lisboa, os moradores do lugar se acolheram todos ao castelo, e a dois barcos baleeiros que tinham, nos quais às vezes levavam mantimentos à cidade, quiseram-nos as galés tomar em terra que é abaixo do castelo, onde estavam em seco, e para os impedirem naquela hora foram muitos feridos, e não os puderam levar, e depois queimaram-nos os do lugar para não os cobrarem os castelhanos. Na vila havia assaz de gente que a pudesse defender, além de outros de fora que se acolheram a ela porque se vinham juntar ao Mestre e não o puderam fazer por causa da frota.
Eles tinham mantimentos de pão e vinho e carnes e doutras coisas para seis meses e mais, mas não havia outra água salvo a duma pequena cisterna, e sobre esta foi posta grande guarda, dando-se a cada uma pessoa por dia uma canada (1,5 litros) e não mais. E não embargando isto, os da vila saíam cá fora a esperar os castelhanos em certos passos, os quais andavam à forragem pelo termo e em Sesimbra, e matavam e feriam neles de tal forma que já não ousavam de ir senão muitos juntos, e também esperavam os que iam nos batéis a Arrentela e à Amora para roubar, de guisa que um dia mataram a mais de trinta, todos juntos, num lameiro, querendo-se eles recolher aos batéis e não conhecendo o local; e esta saída e tornada, que faziam quando queriam, era pela porta da barroca a que chamam Meijonfrio e que está contra o mar.
E sendo muitas vezes combatida e não lhe podendo fazer coisa de que grande nojo recebesse, mandou elRei que lhe fizessem uma cava por sob a terra, a qual começaram de longe, no arrabalde, e que ia direita a uma alta torre que está sobre a porta do castelo, para a pôr em contos (meter-lhe escoras) e com fogo a derribar, segundo se costuma, e os de dentro souberam disto parte. E onde os castelhanos cuidaram que iam fundo por sob a terra, foram sair com a boca da cava à cárcova (vala) da barbacã, que os de dentro já tinham cavado muito mais funda do que dantes era, e ali pelejaram uns com os outros e foi morto o mestre da cava, e feridos alguns duma parte e doutra, de modo que não se puderam dela mais aproveitar, a qual hoje em dia ainda lá está e pode-se ver.ElRei houve grande azedume quando isto soube, e foi em pessoa à dita vila com parte das suas gentes e capitães para a poder combater à sua vontade, e mandou que lhe fizessem no campanário da igreja de Santiago, que é perto do dito castelo, um cadafalso forte de madeira donde ele visse toda a vila e como se a combatia.
E quando foi o dia do combate, pôs-se elRei naquele cadafalso e fez toda a sua gente combater o lugar todo à volta pelo lado da terra, porque da parte do mar não podia ser pela grande aspereza da altura do monte, e foi combatido com gentes de armas e de pé, e trons e bestaria, e fundas de manganela e mantas e outras artelharias de combate desde a hora de terça até depois do meio-dia. Os da vila, sentindo que elRei estava naquele cadafalso, se bem que dele não houvessem combate salvo de setas, resolveram atirar-lhe com um trom, e quando elRei, enfadado, se partia para comer, sendo na igreja, disparou o trom e deu no cadafalso (andaime), e matou dois homens e feriu três, e mandou então elRei afastar as gentes e não combateram mais por aquela vez; e foram mortos e feridos alguns castelhanos, e, dos portugueses, mortos um filho de João Lobato e Diego Domingues, filho de Domingos de Santarém, e outros foram feridos de pedras e de setas, porque dos trons que os inimigos queriam deitar lá para dentro não recebiam dano, visto que todos passavam e iam dar na água por azo da estreitura do lugar. Depois mandou elRei levar uma bombarda que deitava uma pedra que pesava mais de cinco quintais (1 quintal maior = 44 kg), e a primeira pedra que lançou foi muito baixa e não fez nenhum nojo, e ao segundo tiro, que não empeceu nada, quebrou de tal guisa que não se pôde mais aproveitar.
Vendo elRei que não se queriam dar por nenhuma guisa, prometeu de nunca preitear com eles, mas que todos andassem à espada (fossem passados a fio de espada), e deixou sobre o lugar Pero Sarmento e João Rodriguez de Castanheda com gentes em grande abundança, e mandou-lhes que os combatessem a cada dia, e ordenou de partir-se dali.
DAS COISAS QUE PASSAVAM OS DE ALMADA POR MINGUA DE ÁGUA.
Tornou-se elRei para o seu arraial, jurando e prometendo que nunca lhes daria vagar de serem combatidos até que por força fossem entrados sem nenhuma preitesia.Onde sabei que dentro da vila havia uns quarenta cavalos, afora outras bestas de serventia, e quando a água lhes foi minguando, houveram conselho de não darem de beber às bestas, e foi tanta a sede nelas que ali onde mijavam os homens iam as bestas chuchar e comiam daquela terra molhada. Então ordenaram de os lançar fora do lugar para os não verem morrer, e de maneira a que os castelhanos não se prestassem deles, lançaram-nos todos pela barroca abaixo contra o mar, e cada um lançava o seu, e assim foram as bestas todas mortas. E por míngua da água que não tinham, amassavam o pão com vinho e nele igualmente coziam a carne e o pescado, e comiam o pão enquanto era quente, porque logo que era frio não o podia ninguém comer, e assim com outras viandas.
Nisto acabou a água da cisterna, e foi-lhes forçoso passar a beber outra muito de aborrecer, convém a saber: a que jazia na alcárcova e que chovera durante o Inverno, onde as mulheres, antes de serem cercados, lavavam as roupas infundiçadas e os trapos dos meninos, a qual era verde e muito suja, e jaziam ali bestas mortas e cães e gatos, que era nojosa coisa de ver, e de noite saíam homens de dentro, por cordas, a furtar daquela água. E quando os castelhanos souberam que dessa guisa a tomavam, trabalharam-se de a guardar, e muitas vezes aconteceu, quer de noite quer de dia, serem mortos e feridos por causa dela alguns duma parte e doutra; e esta água coziam-na (ferviam-na), e cozida a bebiam e amassavam com ela.
Depois que esta água minguou, trabalharam-se de haver da água do mar (do estuário do Tejo), e de tinas que tinham postas na ribeira para apanharem água doce, e desciam pela barroca por um caminho que fizeram para tomar daquela água, e ao primeiro dia trouxeram-na à sua vontade, e os castelhanos, como o souberam, puseram guarda nela. E os da vila, indo lá, acharam os castelhanos que a guardavam, e eles não eram mais que dezassete e, dos inimigos, eram bem um cento os que esperavam escondidos entre os penedos, e pelejando por causa dessa água foram mortos três portugueses e os restantes catorze ficaram muito mal feridos de setas e de dardos, e não puderam levar mais que dois odres meios de água, e os castelhanos quebraram-lhes as tinas.Nisto morria já a gente com sede, tanto homens e mulheres como moços pequenos, e alguns dos que a ela se haviam acolhido lançavam-se fora da vila de noite e fugiam para conservar as suas vidas. E faziam do lugar toda a noite ao Mestre muitas almenaras de fogo com que lhe davam a entender o grande afincamento em que eram postos, porque doutro modo não lho podiam fazer saber, sendo assim cercados por mar e por terra.
O Mestre e os da cidade bem entendiam o grande trabalho em que eles eram postos, mas não lhes podiam prover de nenhum acorro, contudo o Mestre mandou certa noite uma barca ligeira com um trom que atirava muito, e pólvora (I), e bestas e outras armas para defesa, e aconteceu que foi aportar onde jaziam batéis de Castela e foi filhada com as armas, e presos todos os que a levavam. Então um cavaleiro gascão que dava pelo nome de mosse Ymam, muito homem de prol e bom homem de armas, tinha cativo Afonso Galo, que era Regedor da vila e fora aprisionado aquando daquela primeira escaramuça em que também foi preso Diego Lopes Pacheco. E este cavaleiro trouxe ali atado por uma corda Afonso Galo, até à beira do castelo, e disse aos de dentro que bem sabiam como aquela vila, e todo o reino de Portugal, era de direito delRei de Castela, e como muitos lugares do reino se lhe deram e davam, mas que eles com perfia (teimosia e deslealdade) não queriam fazer como faziam os outros, e que, ao invés, fizessem de guisa a não quererem ser traidores e dessem a vila a elRei de Castela, que lhes faria por isso muitas mercês. E que ele trazia diante deles aquele Afonso Galo que era Regedor da vila, e que fizessem o que ele lhes dizia senão que havia por força o dito Afonso Galo de morrer, e que não quisessem ver a sua morte nem a dos outros que eram presos, que elRei os mandava matar a todos.
Os da vila responderam que bem os podia elRei matar, se quisesse, mas que à vila não a dariam por coisa alguma que fosse, e que se arredasse dali com sua honra e se fosse com o seu prisioneiro. E insistindo ele nas suas razões para que todavia dessem a vila a elRei, fizeram prestes um trom pequeno e atiraram-lhe dentre as ameias, e foi tal a sua ventura que o tiro deu com ele morto por terra, e ficou Afonso Galo vivo e em pé, da qual morte elRei houve grande queixume, jurando que todos eles haviam de morrer à espada.
Nota (I): Bom, dado que, ademais dos tiros certeiros a curta distância no palanque do rei castelhano e na pessoazinha de monsieur Ymam, também agora aqui descobrimos a pólvora, parece-nos não haver dúvidas de que Fernão Lopes, quando fala de bombardas e trons, está-se mesmo a referir a armas de fogo e ao respectivo uso antes da batalha de Aljubarrota. Assim sendo, não tem nenhum fundamento no texto de Lopes a velha tese estapafúrdia de que os portugueses teriam visto pela primeira vez um canhão naquela batalha.
COMO OS DE ALMADA DERAM A VILA A ELREI DE CASTELA.
Sendo os de Almada em tão grande aperto por míngua da água que não podiam haver, acordaram em que mandassem recado ao Mestre, mas não tinham remédio nem conselho de como o pudessem mandar. De igual modo, o Mestre, que bem suspeitava das atribulações em que eram postos, desejava muito de saber em que ponto eram os seus feitos, mas não tinha jeito nem sabia maneira de como disso pudesse haver cumprida certidão. Então um homem dAlmada que viera na frota do Porto disse que lhe levaria a nado o recado, se o Mestre lho quisesse mandar.Ao Mestre prouve disto muito, e disse-lhe por palavras as coisas que lhes havia de dizer, e mais lhes escreveu por carta o que entendeu para seu serviço, e uma noite chegou aquele homem à ribeira do monte e subiu por aquele escuso caminho da barroca que bem conhecia, onde chamam Meijonfrio, e falando aos do castelo que velavam, espantaram-se estes quando o ouviram e, conhecendo-o, abriram-lhe a porta, folgando muito com ele, e quando viram que viera a nado houveram-no para muito; e a conclusão do recado, por palavra e por escrito, era que lhe mandassem dizer em que ponto estavam, e que se aguentassem o mais que pudessem. E eles lhe fizeram saber quanto haviam passado até ali, e que não tinham água nenhuma nem sabiam que remédio fazer às suas vidas, e com este recado se tornou logo de noite aquele homem a nado.
Vistos pelo Mestre os seus padecimentos a que não se podia pôr remédio, ao cabo de três dias tornou aquele homem outra vez com recado em que o Mestre mandava dizer que lhe pesava muito do que tinham padecido, e, pois que assim era, que preiteassem o melhor que pudessem com elRei de Castela e lhe entregassem o lugar. Então decidiram mandar dois homens bons com recado a elRei de como queriam ser seus e lhe dar a vila; porém, primeiro que isso, nadou aquele homem o rio que é entre Lisboa e Almada seis vezes a levar e trazer respostas, e sempre de noite.elRei sabia já por um homem que fora tomado, dos que fugiam do lugar, como não tinham água nenhuma, e que morreram muitas crianças e morriam mais a cada dia, e que haviam por força de se darem ou morrerem todos, e tinha vontade de não preitear com eles, e tal resposta deu aos que lá foram. E havendo já três dias que lá andavam, elRei não os queria ver e, querendo-se tornar, mandou-os chamar a Rainha, e com eles pediu a elRei, por mercê, que lhes perdoasse e preiteasse com eles.
E a elRei prouve disto, e foi a preitesia que elRei lhes segurava os corpos e haveres, e que cada um estivesse em sua casa e fosse senhor do seu sem lhes ser tomada nenhuma coisa, e assim lho cumpriu. E aos dois dias depois do trato, primeiro dia de Agosto, elRei e a rainha foram em galés a Almada, e foi-lhe entregue a vila, e as chaves dela, sendo ele recebido por senhor; mas padecendo a vila primeiro, como dissemos, tantos apertos e atribulações tais como nenhum outro lugar de Portugal padeceu pelo serviço do Mestre e por manter a sua voz.ElRei e a Rainha comeram dentro da vila, e ele chamou os do lugar, dizendo-lhes que lhe fossem leais e que lhes daria muitas mercês, e alguns lhe pediram algumas coisas, e ele outorgou-lhas, e mandou que os tabeliães escrevessem em seu nome e se chamassem seus, e deixou por juízes os que o eram antes, e pôs na vila como regedor um cavaleiro que chamavam João Bravo, e para guarda dela as gentes e os capitães que antes a tinham cercada, e logo nesse dia se tornou para o seu arraial.
Escrito por Fernão Lopes
Foto(Almada Virtual)
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Assim que elRei tinha, em toda a sua frota, sessenta e uma naus, afora as carracas, e dezasseis galés e uma galeota, as quais mandou deitar âncora ao longo da cidade desde Cata-que-farás até à Porta da Cruz, segundo a ordenança que tendes ouvida. E vendo o Mestre a desigualdança da frota, e as grandes avantagens que elRei de Castela tinha em semelhante feito, conveio em desistir do que tinha cuidado.
Neste comenos, havendo já cerca de dois meses que a vila de Almada estava cercada, desde aquele dia em que Diego Lopes foi preso como dissemos, era o lugar muito afincado de combates que lhe davam os seus inimigos da parte da terra onde tinham seu alojamento, que da outra, do mar, nenhuma coisa lhe podiam empecer pela grande altura do monte, salvo no tolher da água, que lha vedaram, o qual lhes foi maior guerra que outras armas ou cavas, ou ainda uma poderosa bombarda com que lhes fizeram alguns tiros, de guisa que os que ali dentro estavam, que mantinham a voz do Mestre, começaram a passar coisas ásperas de sofrer, das quais é bem que em breve saibais, pois ainda não foram tocadas.
Ora assim foi que, quando a frota de Castela veio sobre Lisboa, os moradores do lugar se acolheram todos ao castelo, e a dois barcos baleeiros que tinham, nos quais às vezes levavam mantimentos à cidade, quiseram-nos as galés tomar em terra que é abaixo do castelo, onde estavam em seco, e para os impedirem naquela hora foram muitos feridos, e não os puderam levar, e depois queimaram-nos os do lugar para não os cobrarem os castelhanos. Na vila havia assaz de gente que a pudesse defender, além de outros de fora que se acolheram a ela porque se vinham juntar ao Mestre e não o puderam fazer por causa da frota.
Eles tinham mantimentos de pão e vinho e carnes e doutras coisas para seis meses e mais, mas não havia outra água salvo a duma pequena cisterna, e sobre esta foi posta grande guarda, dando-se a cada uma pessoa por dia uma canada (1,5 litros) e não mais. E não embargando isto, os da vila saíam cá fora a esperar os castelhanos em certos passos, os quais andavam à forragem pelo termo e em Sesimbra, e matavam e feriam neles de tal forma que já não ousavam de ir senão muitos juntos, e também esperavam os que iam nos batéis a Arrentela e à Amora para roubar, de guisa que um dia mataram a mais de trinta, todos juntos, num lameiro, querendo-se eles recolher aos batéis e não conhecendo o local; e esta saída e tornada, que faziam quando queriam, era pela porta da barroca a que chamam Meijonfrio e que está contra o mar.
E sendo muitas vezes combatida e não lhe podendo fazer coisa de que grande nojo recebesse, mandou elRei que lhe fizessem uma cava por sob a terra, a qual começaram de longe, no arrabalde, e que ia direita a uma alta torre que está sobre a porta do castelo, para a pôr em contos (meter-lhe escoras) e com fogo a derribar, segundo se costuma, e os de dentro souberam disto parte. E onde os castelhanos cuidaram que iam fundo por sob a terra, foram sair com a boca da cava à cárcova (vala) da barbacã, que os de dentro já tinham cavado muito mais funda do que dantes era, e ali pelejaram uns com os outros e foi morto o mestre da cava, e feridos alguns duma parte e doutra, de modo que não se puderam dela mais aproveitar, a qual hoje em dia ainda lá está e pode-se ver.
ElRei houve grande azedume quando isto soube, e foi em pessoa à dita vila com parte das suas gentes e capitães para a poder combater à sua vontade, e mandou que lhe fizessem no campanário da igreja de Santiago, que é perto do dito castelo, um cadafalso forte de madeira donde ele visse toda a vila e como se a combatia.
E quando foi o dia do combate, pôs-se elRei naquele cadafalso e fez toda a sua gente combater o lugar todo à volta pelo lado da terra, porque da parte do mar não podia ser pela grande aspereza da altura do monte, e foi combatido com gentes de armas e de pé, e trons e bestaria, e fundas de manganela e mantas e outras artelharias de combate desde a hora de terça até depois do meio-dia. Os da vila, sentindo que elRei estava naquele cadafalso, se bem que dele não houvessem combate salvo de setas, resolveram atirar-lhe com um trom, e quando elRei, enfadado, se partia para comer, sendo na igreja, disparou o trom e deu no cadafalso (andaime), e matou dois homens e feriu três, e mandou então elRei afastar as gentes e não combateram mais por aquela vez; e foram mortos e feridos alguns castelhanos, e, dos portugueses, mortos um filho de João Lobato e Diego Domingues, filho de Domingos de Santarém, e outros foram feridos de pedras e de setas, porque dos trons que os inimigos queriam deitar lá para dentro não recebiam dano, visto que todos passavam e iam dar na água por azo da estreitura do lugar. Depois mandou elRei levar uma bombarda que deitava uma pedra que pesava mais de cinco quintais (1 quintal maior = 44 kg), e a primeira pedra que lançou foi muito baixa e não fez nenhum nojo, e ao segundo tiro, que não empeceu nada, quebrou de tal guisa que não se pôde mais aproveitar.
Vendo elRei que não se queriam dar por nenhuma guisa, prometeu de nunca preitear com eles, mas que todos andassem à espada (fossem passados a fio de espada), e deixou sobre o lugar Pero Sarmento e João Rodriguez de Castanheda com gentes em grande abundança, e mandou-lhes que os combatessem a cada dia, e ordenou de partir-se dali.
DAS COISAS QUE PASSAVAM OS DE ALMADA POR MINGUA DE ÁGUA.
Tornou-se elRei para o seu arraial, jurando e prometendo que nunca lhes daria vagar de serem combatidos até que por força fossem entrados sem nenhuma preitesia.
Onde sabei que dentro da vila havia uns quarenta cavalos, afora outras bestas de serventia, e quando a água lhes foi minguando, houveram conselho de não darem de beber às bestas, e foi tanta a sede nelas que ali onde mijavam os homens iam as bestas chuchar e comiam daquela terra molhada. Então ordenaram de os lançar fora do lugar para os não verem morrer, e de maneira a que os castelhanos não se prestassem deles, lançaram-nos todos pela barroca abaixo contra o mar, e cada um lançava o seu, e assim foram as bestas todas mortas. E por míngua da água que não tinham, amassavam o pão com vinho e nele igualmente coziam a carne e o pescado, e comiam o pão enquanto era quente, porque logo que era frio não o podia ninguém comer, e assim com outras viandas.
Nisto acabou a água da cisterna, e foi-lhes forçoso passar a beber outra muito de aborrecer, convém a saber: a que jazia na alcárcova e que chovera durante o Inverno, onde as mulheres, antes de serem cercados, lavavam as roupas infundiçadas e os trapos dos meninos, a qual era verde e muito suja, e jaziam ali bestas mortas e cães e gatos, que era nojosa coisa de ver, e de noite saíam homens de dentro, por cordas, a furtar daquela água. E quando os castelhanos souberam que dessa guisa a tomavam, trabalharam-se de a guardar, e muitas vezes aconteceu, quer de noite quer de dia, serem mortos e feridos por causa dela alguns duma parte e doutra; e esta água coziam-na (ferviam-na), e cozida a bebiam e amassavam com ela.
Depois que esta água minguou, trabalharam-se de haver da água do mar (do estuário do Tejo), e de tinas que tinham postas na ribeira para apanharem água doce, e desciam pela barroca por um caminho que fizeram para tomar daquela água, e ao primeiro dia trouxeram-na à sua vontade, e os castelhanos, como o souberam, puseram guarda nela. E os da vila, indo lá, acharam os castelhanos que a guardavam, e eles não eram mais que dezassete e, dos inimigos, eram bem um cento os que esperavam escondidos entre os penedos, e pelejando por causa dessa água foram mortos três portugueses e os restantes catorze ficaram muito mal feridos de setas e de dardos, e não puderam levar mais que dois odres meios de água, e os castelhanos quebraram-lhes as tinas.
Nisto morria já a gente com sede, tanto homens e mulheres como moços pequenos, e alguns dos que a ela se haviam acolhido lançavam-se fora da vila de noite e fugiam para conservar as suas vidas. E faziam do lugar toda a noite ao Mestre muitas almenaras de fogo com que lhe davam a entender o grande afincamento em que eram postos, porque doutro modo não lho podiam fazer saber, sendo assim cercados por mar e por terra.
O Mestre e os da cidade bem entendiam o grande trabalho em que eles eram postos, mas não lhes podiam prover de nenhum acorro, contudo o Mestre mandou certa noite uma barca ligeira com um trom que atirava muito, e pólvora (I), e bestas e outras armas para defesa, e aconteceu que foi aportar onde jaziam batéis de Castela e foi filhada com as armas, e presos todos os que a levavam. Então um cavaleiro gascão que dava pelo nome de mosse Ymam, muito homem de prol e bom homem de armas, tinha cativo Afonso Galo, que era Regedor da vila e fora aprisionado aquando daquela primeira escaramuça em que também foi preso Diego Lopes Pacheco. E este cavaleiro trouxe ali atado por uma corda Afonso Galo, até à beira do castelo, e disse aos de dentro que bem sabiam como aquela vila, e todo o reino de Portugal, era de direito delRei de Castela, e como muitos lugares do reino se lhe deram e davam, mas que eles com perfia (teimosia e deslealdade) não queriam fazer como faziam os outros, e que, ao invés, fizessem de guisa a não quererem ser traidores e dessem a vila a elRei de Castela, que lhes faria por isso muitas mercês. E que ele trazia diante deles aquele Afonso Galo que era Regedor da vila, e que fizessem o que ele lhes dizia senão que havia por força o dito Afonso Galo de morrer, e que não quisessem ver a sua morte nem a dos outros que eram presos, que elRei os mandava matar a todos.
Os da vila responderam que bem os podia elRei matar, se quisesse, mas que à vila não a dariam por coisa alguma que fosse, e que se arredasse dali com sua honra e se fosse com o seu prisioneiro. E insistindo ele nas suas razões para que todavia dessem a vila a elRei, fizeram prestes um trom pequeno e atiraram-lhe dentre as ameias, e foi tal a sua ventura que o tiro deu com ele morto por terra, e ficou Afonso Galo vivo e em pé, da qual morte elRei houve grande queixume, jurando que todos eles haviam de morrer à espada.
Nota (I): Bom, dado que, ademais dos tiros certeiros a curta distância no palanque do rei castelhano e na pessoazinha de monsieur Ymam, também agora aqui descobrimos a pólvora, parece-nos não haver dúvidas de que Fernão Lopes, quando fala de bombardas e trons, está-se mesmo a referir a armas de fogo e ao respectivo uso antes da batalha de Aljubarrota. Assim sendo, não tem nenhum fundamento no texto de Lopes a velha tese estapafúrdia de que os portugueses teriam visto pela primeira vez um canhão naquela batalha.
COMO OS DE ALMADA DERAM A VILA A ELREI DE CASTELA.
Sendo os de Almada em tão grande aperto por míngua da água que não podiam haver, acordaram em que mandassem recado ao Mestre, mas não tinham remédio nem conselho de como o pudessem mandar. De igual modo, o Mestre, que bem suspeitava das atribulações em que eram postos, desejava muito de saber em que ponto eram os seus feitos, mas não tinha jeito nem sabia maneira de como disso pudesse haver cumprida certidão. Então um homem dAlmada que viera na frota do Porto disse que lhe levaria a nado o recado, se o Mestre lho quisesse mandar.
Ao Mestre prouve disto muito, e disse-lhe por palavras as coisas que lhes havia de dizer, e mais lhes escreveu por carta o que entendeu para seu serviço, e uma noite chegou aquele homem à ribeira do monte e subiu por aquele escuso caminho da barroca que bem conhecia, onde chamam Meijonfrio, e falando aos do castelo que velavam, espantaram-se estes quando o ouviram e, conhecendo-o, abriram-lhe a porta, folgando muito com ele, e quando viram que viera a nado houveram-no para muito; e a conclusão do recado, por palavra e por escrito, era que lhe mandassem dizer em que ponto estavam, e que se aguentassem o mais que pudessem. E eles lhe fizeram saber quanto haviam passado até ali, e que não tinham água nenhuma nem sabiam que remédio fazer às suas vidas, e com este recado se tornou logo de noite aquele homem a nado.
Vistos pelo Mestre os seus padecimentos a que não se podia pôr remédio, ao cabo de três dias tornou aquele homem outra vez com recado em que o Mestre mandava dizer que lhe pesava muito do que tinham padecido, e, pois que assim era, que preiteassem o melhor que pudessem com elRei de Castela e lhe entregassem o lugar. Então decidiram mandar dois homens bons com recado a elRei de como queriam ser seus e lhe dar a vila; porém, primeiro que isso, nadou aquele homem o rio que é entre Lisboa e Almada seis vezes a levar e trazer respostas, e sempre de noite.
elRei sabia já por um homem que fora tomado, dos que fugiam do lugar, como não tinham água nenhuma, e que morreram muitas crianças e morriam mais a cada dia, e que haviam por força de se darem ou morrerem todos, e tinha vontade de não preitear com eles, e tal resposta deu aos que lá foram. E havendo já três dias que lá andavam, elRei não os queria ver e, querendo-se tornar, mandou-os chamar a Rainha, e com eles pediu a elRei, por mercê, que lhes perdoasse e preiteasse com eles.
E a elRei prouve disto, e foi a preitesia que elRei lhes segurava os corpos e haveres, e que cada um estivesse em sua casa e fosse senhor do seu sem lhes ser tomada nenhuma coisa, e assim lho cumpriu. E aos dois dias depois do trato, primeiro dia de Agosto, elRei e a rainha foram em galés a Almada, e foi-lhe entregue a vila, e as chaves dela, sendo ele recebido por senhor; mas padecendo a vila primeiro, como dissemos, tantos apertos e atribulações tais como nenhum outro lugar de Portugal padeceu pelo serviço do Mestre e por manter a sua voz.
ElRei e a Rainha comeram dentro da vila, e ele chamou os do lugar, dizendo-lhes que lhe fossem leais e que lhes daria muitas mercês, e alguns lhe pediram algumas coisas, e ele outorgou-lhas, e mandou que os tabeliães escrevessem em seu nome e se chamassem seus, e deixou por juízes os que o eram antes, e pôs na vila como regedor um cavaleiro que chamavam João Bravo, e para guarda dela as gentes e os capitães que antes a tinham cercada, e logo nesse dia se tornou para o seu arraial.
Escrito por Fernão Lopes
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